Se tem uma coisa que os “influencers” do mercado financeiro adoram, é vender a ideia de solução perfeita. Só que não existe investimento sem risco. Na verdade, não existe nada sem risco. Como costumo dizer aos clientes: “acordou pela manhã, já está correndo risco”. E com ETFs não é diferente.
Na coluna passada, vimos que os ETFs são simples, baratos, eficientes… quase “à prova de erro”. Terminamos o texto indagando: “se os ETFs são tão eficientes assim… onde está o risco?”
O primeiro ponto, e talvez o mais ignorado, é que o ETF não elimina risco. Ele apenas muda o tipo de risco que você está assumindo.
Quando você compra um ETF, não está escolhendo uma empresa. Está escolhendo um índice. E isso parece detalhe, mas não é. Se o índice cair, o ETF cai junto.
Parece óbvio, mas muitos investidores compram ETFs com sensação de “segurança”, quando, na verdade, estão apenas diversificando a exposição ao mesmo risco.
Outro ponto importante é o chamado tracking error. Na teoria, o ETF deveria replicar exatamente o índice que acompanha. Na prática, isso nem sempre acontece com precisão absoluta. Custos operacionais, estrutura do fundo e até questões de liquidez podem gerar pequenas diferenças de performance. No curto prazo, isso costuma ser irrelevante. Mas, no longo prazo, pode fazer diferença, principalmente em produtos menos eficientes ou com menor escala.
E aqui entra um terceiro risco, bastante brasileiro: a liquidez.
Enquanto, nos Estados Unidos, alguns ETFs negociam bilhões de dólares por dia, no Brasil muitos produtos ainda têm volume reduzido. Isso pode gerar spreads maiores entre compra e venda e, em momentos de estresse, dificuldade para executar ordens a preços justos. Não é um problema estrutural, mas é algo que precisa ser observado.
Outro ponto que costuma passar despercebido é a chamada “diversificação ilusória”.
Comprar um ETF não significa, automaticamente, estar bem diversificado.
Um ETF de índice pode ter forte concentração em poucos setores ou empresas. Um belo exemplo é o nosso índice Ibovespa, composto atualmente por 84 empresas diferentes, mas com uma concentração de aproximadamente 55% nos setores financeiro e de commodities.
Ou seja: você pode estar comprando “84 empresas”… mas, na prática, estar altamente exposto a dois setores específicos.
Além disso, existe o risco geográfico e cambial — especialmente relevante para quem investe em ETFs internacionais.
Investir fora do Brasil traz diversificação, sem dúvida. Mas também expõe o investidor à variação do dólar e ao comportamento de outra economia. Isso pode jogar a favor ou contra. No último ano, com a valorização do real frente ao dólar, jogou contra.
E, por fim, um ponto que raramente aparece nas conversas mais superficiais: tributação.
No Brasil, ETFs não têm isenção de imposto de renda para vendas mensais abaixo de R$ 20 mil, como acontece com ações. O lucro é tributado em 15%, independentemente do valor. Além disso, ETFs internacionais listados no Brasil seguem regras específicas que precisam ser bem compreendidas antes de investir.
O ETF não é um atalho para investir melhor. Ele é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, pode ser muito eficiente ou muito mal utilizada.
Talvez o maior erro seja justamente tratar o ETF como uma solução mágica.
Porque, no fim do dia, a pergunta mais importante continua sendo a mesma:
Você sabe exatamente no que está investindo?
Na próxima coluna, vamos sair da teoria e ir para a prática: como usar ETFs de forma inteligente para construir patrimônio, evitando as armadilhas mais comuns.






