A Arte de Prometer Arte

Minha coluna foi motivada pela postagem de uma colega coreógrafa que me causou indignação e reconhecimento. Reconhecimento porque não é uma exceção. Seu grupo de dança se apresentou num evento recente numa cidade vizinha onde eles eram os artistas locais. O palco estava montado até que surgiu um problema: instrumentos de um grupo visitante ocupavam o espaço destinado à apresentação. Ela solicitou que fossem afastados para garantir visibilidade aos bailarinos. E adivinhem? Não foram. Os instrumentos permaneceram onde estavam, afinal o grupo de fora tinha prioridade, o grupo da casa, não!

O artista local sempre encontra um jeito! Aliás, talvez essa seja a qualidade mais valorizada em nós: a capacidade de se ajustar. Durante anos ouvimos os mesmos discursos que surgem em campanhas eleitorais, solenidades, inaugurações e eventos culturais. “Precisamos valorizar os artistas locais!” Frase bonita, comovente até! O problema é que valorização não acontece nas palavras e sim nas escolhas que contam uma história bem diferente. Existe, inclusive, uma frase que talvez merecesse ser tombada como patrimônio imaterial da cultura brasileira: “Não temos verba, mas podemos divulgar teu trabalho.”

Nenhum eletricista é convidado a refazer uma instalação elétrica em troca de divulgação, nenhum advogado é chamado para atuar em um processo em troca de visibilidade, nenhum fornecedor entrega mercadorias em troca de uma postagem institucional, mas o artista, aparentemente, deveria sentir-se privilegiado. Como se pagasse aluguel com curtidas, abastecesse o carro com reconhecimento público e fosse ao supermercado encher sacolas com exposição em redes sociais como forma de pagamento.

O mais curioso é que, muitas vezes, a mesma instituição que não possui orçamento para remunerar adequadamente um artista local encontra recursos para estruturas grandiosas, atrações importadas, campanhas promocionais e solenidades cuidadosamente viralizadas. O problema raramente parece ser a falta de dinheiro e sim para quem o dinheiro falta. Quem trabalha com cultura no Brasil, conhece esse roteiro de cor. Eventos anunciados que não acontecem, agendas prometidas que desaparecem, projetos que ficam para depois, pagamentos atrasados, cachês renegociados pela terceira vez.

Ah, mas experimenta questionar para ver o que acontece. Surgem os clássicos: “Os artistas só reclamam.” “Nunca nada está bom.” Talvez o artista ideal seja aquele que produz muito, cobra pouco e agradece sempre. Mas seria injusto colocar toda a responsabilidade apenas sobre os gestores públicos, existe uma ferida que também atravessa a própria classe artística. Porque, enquanto muitos denunciam a desvalorização, outros acabam aceitando qualquer condição, qualquer valor e qualquer acordo. Muitas vezes não por escolha, mas pela escassez de oportunidades. Ainda assim, o resultado é o mesmo. Enquanto disputamos migalhas, deixamos de discutir o tamanho da mesa.

A verdade é que o Brasil possui artistas extraordinários. Músicos, atores, bailarinos, escritores, artistas visuais, produtores e educadores culturais que sustentam a vida cultural deste país muito mais pela persistência do que pelas condições oferecidas. Gostamos de homenageá-los, de aplaudi-los mas nem sempre gostamos é de investir neles, afinal investir exige compromisso e isso custa mais que o discurso.

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