Tem repercutido muito no Brasil, especialmente entre as pessoas mais identificadas com a direita bolsonarista, uma audiência do Senado americano em que o ex-conselheiro médico-chefe do presidente dos Estados Unidos durante a pandemia, Anthony Fauci, fica em silêncio durante todo o depoimento para não produzir provas contra si mesmo por eventuais crimes cometidos na condução da crise sanitária.
Pois, para minha surpresa, ao viajar para os Estados Unidos nesta semana, cheguei aqui e constatei que o assunto é pouquíssimo falado. Na verdade, é considerado por muitos — inclusive por republicanos ligados ao ex-presidente Donald Trump — uma perda de tempo e uma cortina de fumaça que mais atrapalha do que ajuda na campanha para as eleições de meio de mandato, que ocorrerão em novembro. A aprovação de Trump está em um de seus piores níveis, e existe um risco real de seu partido perder por larga margem as eleições que definirão parte do Senado, toda a Câmara dos Representantes e diversos governadores.
O que mais me impressiona nisso tudo é a repercussão e a distorção que esse evento de pouca relevância nos EUA teve no Brasil, sobretudo entre os eleitores bolsonaristas. Impressiona a manipulação dos fatos e a proliferação de desinformação: imediatamente surgiram declarações de que ivermectina e cloroquina funcionam contra a Covid-19, de que as vacinas são uma farsa e de que mais pessoas morreram por causa dos imunizantes do que da própria doença. Enfim, todo tipo de alegações fantasiosas.
Parece-me que, em vez de discutirmos nossos próprios problemas, preferimos pautar as questões dos outros, inclusive aquelas que pouco ou nada nos afetam. Estamos em período eleitoral, enfrentando inflação alta, perda do poder de compra, juros elevados, violência e educação precarizada, entre tantos outros desafios. No entanto, preferimos focar em um depoimento que sequer teve eco no país onde ocorreu.
Precisamos amadurecer muito como país e sociedade, especialmente no tocante à valorização das pautas domésticas. É sempre mais fácil debater e apontar soluções para os problemas alheios, mas isso jamais fará o Brasil avançar. Essa perda de tempo e energia só nos empurra para um buraco cada vez mais profundo e serve como uma luva para a nossa classe política. Afinal, enquanto nos distraímos com o cenário americano, nossos políticos ficam livres para ignorar nossas urgências e se dedicar ao que fazem de melhor: obter vantagens próprias, articular desvios do patrimônio público e se perpetuar no poder.





