Existe um perfil de dois humoristas nas redes sociais que costuma pegar coisas absolutamente normais do nosso dia a dia e descrevê-las de forma tão racional que tudo passa a parecer absurdo. Uma das melhores análises deles é sobre o álbum da Copa do Mundo.
A lógica é simples: alguém vende fotos de pessoas desconhecidas dentro de envelopes fechados. Você compra sem saber o que está levando, corre o risco de receber várias repetidas e, para completar a coleção, vai acabar gastando mais de mil reais. Quando colocado dessa forma, realmente parece não fazer sentido algum. E olhando apenas pelos números, não faz mesmo.
Por isso, quando meu filho chegou em casa falando do álbum da Copa, fiz o que qualquer profissional do mercado financeiro faria diante de uma oportunidade de investimento com retorno duvidoso: desconversei e mudei de assunto.
O plano estava funcionando perfeitamente até que um casal de amigos, Odair e Bárbara — e aqui preciso registrar corretamente a autoria da ideia — resolveu presentear meu filho com o álbum. Foi um daqueles momentos em que você percebe que algumas amizades são colocadas à prova de maneiras bastante criativas. Mas, como sou um sujeito que valoriza os amigos e não queria transformar um presente em uma crise diplomática, resolvi tentar achar o lado positivo da situação. E acabei encontrando.
Existe uma frase que sempre me acompanha: “se tentarmos colocar tudo em uma planilha, acabaremos não fazendo nada.”
A vida não é feita apenas de decisões financeiras. Aliás, algumas das maiores riquezas que acumulamos ao longo dos anos não têm qualquer relação com dinheiro. Colecionar o álbum com meu filho está sendo um ótimo exemplo disso.
Existe a expectativa de abrir os pacotinhos, a emoção de encontrar uma figurinha rara, a negociação das trocas, a interação com outras pessoas e a construção de memórias que provavelmente permanecerão muito depois de esquecermos quanto custou completar a coleção.
Mas, obviamente, o lado financeiro não poderia ficar totalmente de fora. Afinal, em casa de assessor de investimentos, o espeto precisa ser de ferro. Por isso, desenvolvemos algumas estratégias.
A primeira foi perceber que a distribuição das figurinhas parece variar bastante de uma região para outra. Comprando sempre no mesmo local, as repetições aumentavam rapidamente. Então passei a aproveitar viagens de trabalho para comprar alguns pacotinhos em cidades diferentes.
Curiosamente, figurinhas adquiridas no Rio de Janeiro e em Florianópolis trouxeram várias que ainda não haviam aparecido nas compras feitas em Canela. Não sei se existe alguma lógica estatística por trás disso, mas, como investidor, aprendi que quando uma estratégia funciona, primeiro aproveitamos; depois tentamos entender.
A segunda lição veio da matemática. Quando ultrapassamos aproximadamente 60% do álbum preenchido, o número de repetidas começou a disparar. Nesse momento, percebemos que insistir apenas na compra de pacotinhos deixava de ser eficiente. A melhor estratégia passou a ser a troca.
Também aprendemos rapidamente que nem todas as figurinhas possuem o mesmo valor. As especiais, as prateadas e os grandes craques como Messi, Cristiano Ronaldo ou Vini Jr. raramente entram em negociações simples.
Existe um mercado paralelo, com regras próprias, onde escassez e demanda definem o preço, exatamente como acontece nos investimentos. A diferença é que, nesse mercado, a cotação do Messi costuma ser mais estável do que a de muitos ativos da bolsa.
E surgiu até uma última estratégia: comprar lotes de figurinhas repetidas de outros colecionadores. É uma operação clássica de ganha-ganha. Nós reduzimos o custo para completar o álbum e quem vende recupera parte do valor investido.
No fundo, essa experiência tem sido uma espécie de educação financeira lúdica.
Vejo que o Caio está aprendendo a negociar, comparar alternativas, avaliar custos, entender valor, lidar com frustrações e tomar decisões.
Nem tudo precisa gerar retorno financeiro para valer a pena.
Alguns investimentos rendem dividendos. Outros rendem histórias.

25/04/2025








