O título que Canela ajudou a conquistar

Muito antes das passarelas, as férias de inverno de Deise Nunes em Canela marcaram a sua infância. A relação com a cidade começou com o convívio com familiares canelenses, a família de seu tio Edy Saul Putten, pessoa querida na cidade e conhecido como Tenente Edy. Deise passava longos períodos na casa dos tios, convivendo com a rotina serrana. “Eu adorava porque eles tinham fogão a lenha, a casa era bem quentinha”, recorda. Durante muitos anos, ela retornou com frequência para visitar os parentes e passar temporadas em Canela. A Cidade das Hortênsias fazia parte da memória afetiva da jovem porto-alegrense, mas acabaria se tornando também o ponto decisivo de uma das histórias mais simbólicas da cultura brasileira nos anos da década de 1980, que completa 40 anos no domingo (17).

Quatro décadas depois, o vínculo segue vivo. Foi daqui que surgiu a oportunidade para que ela disputasse o Miss Rio Grande do Sul de 1986, depois de não encontrar apoio em Porto Alegre. O prefeito da capital na época era Alceu Collares, vizinho da família. A ajuda não veio. Canela disse sim.

A ligação afetiva construída na infância acabaria se transformando em oportunidade concreta. Sem Canela, provavelmente o Brasil não conheceria a primeira mulher negra a vencer o principal concurso de beleza do país.

O SONHO QUE COMEÇOU NA ESCOLA

Deise Nunes Ferst nasceu em Porto Alegre, em 30 de março de 1968. Filha de lavadeira, cresceu em uma família simples. Anos depois, definiria sua origem como “classe média baixa, onde nada sobrava, mas nada faltava”.

Ainda menina, começou a participar de concursos escolares. Em 1977, aos nove anos, venceu o Miss Simpatia da escola depois de vender votos entre colegas e vizinhos. “Às vezes eu achava aquilo tão longe de mim que nem me permitia sonhar muito”, conta Deise.
A mãe, Ana Maria, no entanto, acreditava desde o começo. Segundo Deise, ao apresentá-la, recém-nascida, a uma madrinha, disse: “Toma aqui a tua afilhada, a futura Miss Brasil”. Na adolescência, já no Colégio Santa Inês, estudou graças a uma composição de ajuda familiar e apoio da então deputada estadual Dercy Furtado, vizinha da família. Parte da mensalidade era custeada pela mãe e pelo avô; a outra parte, por Dercy. Foi ali que Deise foi escolhida para disputar o Rainha do Colégio. Ficou em segundo lugar.

Depois, representando como princesa a escola no concurso promovido pela União Metropolitana dos Estudantes Secundários de Porto Alegre conquistou, em 1983, o título de Miss UMESPA, que começou a lhe dar projeção na capital. O primeiro grande passo profissional veio em 1984, quando foi descoberta pelo diretor social do Sport Club Internacional, Paulo Franchini. Representando o clube, venceu o concurso Rainha das Piscinas. Mais tarde, soube que a apuração havia enfrentado resistência de um dos jurados à vitória de uma concorrente negra, o que atrasou a divulgação do resultado.

DO MISS UNIVERSO À TELEVISÃO

SILVIO SANTOS e Deise: uma grande amizade e mais notoriedade no Brasil

Com a faixa nacional, Deise representou o Brasil no Miss Sudamérica, na Venezuela, onde ficou em terceiro lugar. Depois, seguiu para o Miss Universo, realizado no Panamá, alcançando o sexto lugar — resultado expressivo para o país na época.

“Entrei no Miss Universo como uma menina de 18 anos e saí de lá mulher”, resume Deise. O concurso mudou completamente sua vida. A jovem modelo gaúcha passou a viajar pelo Brasil e pelo exterior, abriu espaço na televisão e se tornou uma figura conhecida nacionalmente. Participou de programas como Cassino do Chacrinha e Os Trapalhões, gravou para o Fantástico, atuou em novelas e desfilou no Carnaval carioca como rainha de bateria da União da Ilha. Mesmo depois de quatro décadas, a identificação popular permanece. “As pessoas dizem que talvez não lembrem quem foi a miss do ano passado, mas lembram da Deise Nunes”, comenta ela.

A NOITE QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

DEISE conquistou o Rio Grande em 1986, o Brasil logo depois

Em 1986, representando Canela, Deise foi eleita Miss Rio Grande do Sul por unanimidade. No mesmo ano, no dia 17 de maio, conquistou o título de Miss Brasil, tornando-se a primeira mulher negra da história do concurso nacional.
Ela lembra que, num primeiro momento, não percebeu a dimensão do que havia acontecido. “Fui entender uns quatro dias depois, quando sentei para ler os jornais e revistas”, conta Deise. Na época, sem internet e redes sociais, as notícias circulavam mais lentamente.

Foi então que compreendeu o peso da representatividade que carregaria dali em diante. “Eu sabia que levava uma bagagem muito maior, que era a questão da representatividade”, afirma ela. Deise costuma dizer que nunca se viu como “a mulher mais bonita do Brasil”, mas como uma representante da beleza da mulher brasileira. A vitória teve repercussão imediata e também expôs resistências de uma época em que os concursos de beleza ainda seguiam padrões muito estreitos. A contagem dos votos chegou a ser conferida mais de uma vez antes da entrega da faixa e da coroa.

“Foi mágico aquele 17 de maio de 1986”, recorda ela. A recepção em Canela entrou para a memória da cidade. Houve desfile em carro aberto pelo Centro, com moradores acompanhando a nova Miss Brasil pelas ruas. O concurso também aproximou Deise de um dos nomes mais populares da televisão brasileira. Sílvio Santos, que organizava o Miss Brasil na época, esteve presente tanto na etapa gaúcha quanto na nacional. Décadas depois, em 2015, ela voltou a encontrá-lo no programa Três Pistas, do SBT.

UM TÍTULO QUE DEMOROU 30 ANOS PARA SE REPETIR

O feito de Deise Nunes demorou três décadas para se repetir. Somente em 2016, com Raíssa Santana, e em 2017, com Monalysa Alcântara, outras mulheres negras voltaram a conquistar o Miss Brasil. Em mais de sete décadas de concurso, apenas três chegaram ao título máximo. Hoje, aos 58 anos, Deise mantém em Porto Alegre a Escola de Modelos Deise Nunes, onde forma novos profissionais da moda e reserva vagas sociais para jovens sem condições financeiras. Entre suas ex-alunas estão misses nacionais como Jakelyne Oliveira e Marthina Brandt.

Casada há mais de 30 anos com o empresário Lair Ferst, mãe de Pedro e Júlia e avó de Lívia, ela segue envolvida em projetos sociais e ações de incentivo à juventude. A história que começou entre Porto Alegre e Canela deve ganhar um novo capítulo em breve. Deise está prevista para retornar à cidade para participar de uma edição dos “Encontros com a Memória”, promovidos pelo Memorial Canela.

Quarenta anos depois, Canela continua lembrando da jovem que saiu daqui para entrar na história do país. E Deise segue lembrando da cidade que abriu uma porta quando outras permaneceram fechadas.

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