O futuro do mercado imobiliário e urbano em Canela e Gramado foi debatido durante o Planta Summit, evento realizado na quarta-feira (25), na Casa Nuvole em Gramado. O encontro reuniu profissionais do mercado imobiliário, empresários e lideranças. Com o tema “Desenhando o amanhã de Gramado e Canela”, a iniciativa abordou um ponto central para a região: como crescer sem perder as características que tornaram as duas cidades referências nacionais.
A programação percorreu temas como hospitalidade, identidade urbana, expansão territorial, novas centralidades e tendências do setor. Mais do que uma vitrine de projetos, o encontro assumiu um caráter de alinhamento onde o mercado reconhece o momento de expansão, mas também a necessidade de organizar esse avanço.
O presidente da Planta, Bernardo Tomazelli, sintetiza esse cenário como um ponto de equilíbrio ainda em construção. Para ele, o crescimento vivido hoje é resultado direto da consolidação de Gramado e Canela como destinos desejados, mas carrega consigo riscos claros.

Foto: Izaque Santos
“O momento é muito próspero, com muitas oportunidades. Gramado e Canela despertam interesse em todo o país. Mas isso não pode acontecer a qualquer custo. A especulação precisa ser controlada e o crescimento deve ser sustentável e ordenado”, afirma Tomazelli. Esse movimento, segundo ele, tem origem no turismo. É a experiência vivida nas cidades que inicia o ciclo econômico.
“O turismo traz as pessoas. Elas conhecem, se encantam com a organização, com a segurança, com a qualidade de vida. A partir disso, surge o interesse em investir ou morar aqui. É um movimento natural”, diz Tomazelli.
Nos últimos anos, esse ciclo ganhou velocidade. A pandemia alterou o comportamento do comprador e reposicionou a região no mapa de quem busca moradia. “Antes, muitas vezes era uma terceira residência. Hoje passou a ser primeira ou segunda opção. As pessoas passaram a valorizar mais a qualidade de vida, o espaço, a possibilidade de trabalhar remotamente. Isso trouxe um novo olhar para cidades como Gramado e Canela”, observa ele.
IDENTIDADE E PLANEJAMENTO

Foto: Katlin Fotografias
A CEO do Grupo Brocker, Adriane Brocker Boeira Guimarães, avaliou no Planta Summit que o crescimento imobiliário em Canela precisa ser conduzido com critério, planejamento e responsabilidade para não comprometer aquilo que sustenta a força da cidade. Na visão dela, o desenvolvimento é necessário e passa, sim, por novos investimentos, mas não pode ocorrer de forma desordenada nem desconectada das características que fizeram a Serra Gaúcha se consolidar como destino turístico e lugar desejado para viver.
Durante sua participação, Ane citou como referência positiva a cartilha urbanística desenvolvida em Gramado, voltada à orientação do padrão e do perfil dos projetos imobiliários. Para ela, esse tipo de instrumento ajuda a preservar elementos que identificam a arquitetura local, como o uso de pedra, madeira e telhados inclinados, além de reforçar um cuidado maior com a paisagem urbana e com a leitura estética das cidades.
A empresária também destacou que os novos empreendimentos precisam dialogar com tendências atuais de mercado, incorporando infraestrutura ligada a bem-estar, saúde e qualidade de vida. Ainda assim, ponderou que inovação e sofisticação não podem significar perda de identidade. Segundo ela, Canela e Gramado precisam saber com clareza para onde querem crescer, sob risco de prejudicar justamente o seu maior patrimônio: a natureza, o charme urbano e a herança cultural que diferenciam a região. “Canela, a gente sabe que tem uma série de projetos com relação à sustentabilidade. Não podemos crescer de forma desordenada e não sabendo aonde a gente quer chegar, pois vamos prejudicar o nosso principal valor que é a natureza, que são na realidade as características que a gente tem de uma região”, avalia Ane. Com mais de 30 anos de atuação no turismo, ela defende que o futuro passa por equilíbrio entre expansão, sustentabilidade e preservação.
DECISÕES URBANÍSTICAS
Se a demanda cresceu, a estrutura urbana não acompanhou no mesmo ritmo. Esse é, na avaliação do presidente da Planta, o principal desafio atual. “As cidades não estavam preparadas para crescer como cresceram. Agora é preciso organizar isso. Estamos falando de infraestrutura como um todo: água, esgoto, drenagem, energia, mobilidade, vias. O crescimento veio antes, e agora precisa ser ajustado”, afirma.
A discussão sobre expansão territorial também esteve presente no evento. Gramado já opera com um Plano Diretor atualizado, que ampliou o perímetro urbano e permitiu novas formas de ocupação. Entre os projetos em debate está a chamada nova centralidade Norte, que deve abrir uma nova frente de desenvolvimento.
Canela, por sua vez, ainda passa por um processo de revisão do seu Plano Diretor. Com território mais amplo, a cidade cresce a partir do Centro em direção aos bairros e concentra, hoje, parte das oportunidades de expansão. Nesse cenário, o tema da identidade ganhou espaço relevante no encontro. O receio de descaracterização não é novo, mas volta ao centro do debate diante do ritmo atual de crescimento.
Durante o Planta Summit, foi lembrado que decisões urbanísticas do passado foram determinantes para manter o perfil das cidades. A limitação de altura das edificações em Gramado, por exemplo, surgiu como resposta a movimentos de verticalização e segue influenciando diretamente o desenho urbano. Para Tomazelli, esse cuidado não é apenas estético, mas econômico.
“Quem vem para Gramado e Canela não quer ver uma cidade grande. Quer ver uma cidade do interior que deu certo. Se perder essa identidade, perde valor”, resume o engenheiro. O desafio, portanto, não está em crescer, mas em como crescer. A equação envolve interesses do setor privado, diretrizes públicas e, principalmente, a preservação das características que sustentam a atratividade da região.
PLANO DIRETOR EM REVISÃO
Canela está revisando seu Plano Diretor, instrumento que orienta o crescimento urbano, define regras de uso do solo e estabelece diretrizes para o desenvolvimento da cidade. O processo teve início em agosto de 2023, com a contratação da Fundação Luiz Englert, por cerca de R$ 1,76 milhão, para a elaboração de estudos técnicos que embasam a proposta.
Desde então, o trabalho avançou por etapas como diagnóstico territorial, levantamento de dados e realização de audiências públicas e oficinas com a comunidade. A revisão ocorre mais de uma década após o plano vigente, de 2012, e busca atualizar a legislação diante das transformações urbanas, do crescimento do turismo e das novas demandas por infraestrutura.
Entre os pontos em discussão estão a organização das áreas urbanas e rurais, limites de expansão da cidade, preservação ambiental, mobilidade e parâmetros construtivos. O plano também deve orientar decisões sobre adensamento, ocupação do solo e desenvolvimento econômico. A proposta ainda está em construção e deverá passar por análise e votação na Câmara de Vereadores antes de se tornar lei, definindo os rumos de Canela para os próximos anos.
ENTREVISTA BERNARDO TOMAZELLI
NE – Como o senhor avalia o momento atual de crescimento de Gramado e Canela?
Tomazelli – É um momento muito próspero, com muitas oportunidades e com interesse de todo o território nacional. Todo mundo quer investir e empreender aqui. Mas isso precisa ser conduzido com responsabilidade. A especulação imobiliária deve ser controlada e o crescimento precisa ser pensado de forma sustentável e ordenada, respeitando o território e a comunidade.
NE – Esse crescimento está acontecendo de forma planejada?
Tomazelli – Sempre há desafios. Gramado hoje está mais avançada porque teve seu Plano Diretor atualizado em 2022 e isso já está em prática, organizando melhor o território e trazendo segurança. Canela ainda está em fase de alteração do Plano Diretor e precisa avançar nesse processo, principalmente na organização e na liberação de projetos, para incentivar o investimento de forma estruturada.
NE – Para onde as cidades estão se expandindo hoje?
Tomazelli – Gramado ampliou seu perímetro urbano e passou a permitir novos tipos de ocupação em algumas áreas. Existe também a nova centralidade Norte, que deve começar a ser explorada. Canela tem um território muito amplo e cresce do Centro em direção aos bairros, com muitas áreas ainda disponíveis. É uma cidade com grande potencial de expansão.
NE – Como equilibrar crescimento imobiliário e qualidade de vida?
Tomazelli – O desenvolvimento imobiliário é consequência de uma cidade que deu certo. Para equilibrar isso com a qualidade de vida, é preciso investir em infraestrutura pública, pensar em mobilidade urbana, em preservação ambiental e também na identidade arquitetônica. Sem isso, o crescimento acontece, mas não se sustenta com qualidade.”
NE – Como o senhor imagina Gramado e Canela daqui a dez anos?
Tomazelli – Imagino cidades ainda mais prósperas, organizadas e sendo referência no mercado imobiliário do estado e do Brasil. Mas mantendo seu DNA, suas raízes, esse perfil de cidades de interior que deram certo. É isso que faz as pessoas quererem estar aqui.”

Foto: Katlin Fotografias
PODER PÚBLICO E PRIVADO

Foto: Katlin Fotografias
A diretoria da Planta, composta pelo presidente Bernardo Tomazelli, vice presidente Rafael Zanatta, e pelos diretores- Camila Bertoja, Luiz Alberto Bazan e Giovani Ghisleni, além de participarem como mediadores dos painéis encerraram o evento com um agradecimento especial a todos que tornaram o Planta Summit um marco no desenvolvimento do setor imobiliário, e colocaram o evento no calendário de eventos da região.
“O poder público e privado sempre andaram de mãos dadas para imprimir um novo olhar ao desenvolvimento do destino. Ano após ano, lideranças avançaram para que tivéssemos os resultados dessa economia pujante, e esse é o nosso grande papel como entidade. Hoje avançamos mais um passo, pois trouxemos um cenário de reflexão e posicionamento que agregam a todos”, concluiu Tomazelli.
O evento teve o apoio institucional do Sinduscon-RS, Fiergs, Crea-RS, Creci e Ipog. Participaram da iniciativa como patrocinadores: Sicredi Pioneira, Hasam, Sirena Gramado, B&B Seguros, Todeschini, Coral, Schein Esquadrias, Super G e Wertbank.









