Vivemos tempos de edição. Não falo apenas do corte preciso em um vídeo de gastronomia ou do ajuste de saturação em uma foto de pôr do sol. Falo da edição da vida, da história e, principalmente, do erro. Entramos, sem pedir licença, na era da Guerra das Narrativas, onde a verdade não é mais um fato sólido, mas uma argila moldável, pronta para ser esculpida conforme a conveniência do algoritmo.
O campo de batalha é digital, mas as baixas são morais. O fenômeno é quase coreográfico, alguém comete um deslize, uma distorção ou uma injustiça clara. Minutos depois, as engrenagens começam a girar. O post polêmico desaparece e o famoso “delete” que tenta apagar o rastro de uma intenção e o vídeo original é substituído por uma versão cuidadosamente fragmentada.
Nessa guerra, a borracha é mais importante que o lápis. Inverte-se a lógica dos fatos com uma velocidade estonteante. Onde havia um erro, cria-se uma “interpretação equivocada do público”, o conteúdo que gerou o desconforto some no éter, como se a memória coletiva fosse um HD formatável a qualquer instante. O agressor, percebendo que o vento mudou de direção, rapidamente veste a armadura da incompreensão ou como está na moda, de um “surto psicótico” ou uma “desorientação”.
O ápice dessa dramaturgia moderna é, sem dúvida, o “storie de desculpas”. Você conhece a estética, o semblante cansado, a falta de maquiagem (para simular humanidade), o fundo neutro e a frase clássica: “Quem me conhece, sabe”. É a institucionalização do perdão instantâneo. O problema desse formato é que ele não busca a reparação, mas o encerramento de um ciclo de crise de imagem. O storie de quinze segundos é o túmulo do fato. Ele serve para que, em 24 horas, tudo se expire com a culpa, a prova e a vergonha.
Na guerra das narrativas, a primeira vítima não é apenas a verdade, mas a responsabilidade. O perigo de resumir conflitos éticos a um vídeo efêmero é a criação de uma sociedade sem lastro. Se tudo pode ser apagado, se toda narrativa pode ser invertida com um bom roteiro de relações públicas, o que sobra de real? Estamos trocando o peso da consciência pela leveza da tela touch. Inovamos na forma de nos redimir, mas esquecemos o que significa, de fato, assumir o que se diz. No fim, entre um post deletado e um pedido de desculpas ensaiado, a verdade fica ali, esquecida em algum lugar entre o que foi feito e o que convém dizer que aconteceu.
Se Sartre dizia que estamos condenados à liberdade, talvez essa condenação doa mais do que o ruído das versões prontas. É que, quando os discursos rasos silenciam, sobra o peso de uma escolha que ninguém mais pode fazer por nós. No fim das contas, a verdade é a única bagagem que não se pode despachar.









