A viagem familiar anual

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Havia um ritual sagrado na nossa família nos fevereiros da década de 60: acordar de madrugada e partir de Panambi.

Meu pai tinha ouvido falar de uma praia diferente, uma baía de águas calmas e limpas, num lugarejo que ainda pertencia ao município de Camboriú: Balneário Camboriú. O nome soava como promessa. Depois da primeira vez, por volta de 1959 ou 1960, era onde passávamos o mês de fevereiro. Meus pais, meus dois irmãos, 8 e 9 anos mais velhos, e eu.

A viagem era, antes de tudo, uma aventura. As estradas do noroeste gaúcho eram de barro ou poeira, dependendo da sorte. O primeiro grande objetivo do dia era chegar a Vacaria para o almoço. Em alguma das vezes que fizemos a viagem, paramos no novo restaurante Rodeio, ponto de parada dos ônibus rumo a São Paulo. Uma opção que permaneceu até as últimas viagens que fizemos em família.

De Vacaria a Lages, o alívio da BR-116 pavimentada. Depois, em direção a Rio do Sul, o mundo mudava de feição: a estrada ficava sinuosa, cheia de lombadas, espremida entre morros. Meu pai conduzia o Simca Chambord com a determinação de quem quer fazer a viagem render. Eu, no banco de trás, tentava conter o enjoo inevitável. Minha mãe, gentilmente, me permitia ir para o banco da frente, com a recomendação de olhar sempre para o horizonte.

Mas havia um trecho que todos esperávamos: a descida da serra em direção ao vale do Itajaí-Açu. A estrada estreita, à beira do abismo, proporcionava vista e adrenalina inesquecíveis. Chegar ao riacho que cruzava a estrada e despencava para o vale era um marco importante. Os vilarejos de Trombudo e Mosquito estavam se aproximando.

De Rio do Sul a Blumenau, a estrada ainda não era pavimentada, mas o rio Itajaí aparecia ali do lado esquerdo como companhia constante, com corredeiras, meandros, pedras enormes.

Quando tudo corria bem, seguíamos até Blumenau para pernoitar. Caso contrário, ficávamos em Rio do Sul.

O trecho entre Blumenau e Itajaí já era asfaltado e margeava o já largo rio Itajaí. Em anos de enchente, algumas vezes precisávamos fazer desvios e, em alguns casos, atravessar trechos alagados, na altura dos pneus. Cruzávamos pequenas cidades interessantes como Gaspar e Ilhota até entrar em Itajaí. O aeroporto ainda era dentro da cidade e causava agitação se houvesse algum DC-3 estacionado. Depois, a visão do porto, com seus navios enormes. De vez em quando, durante as férias, voltávamos para Itajaí para visitar os navios. Naquele tempo era permitido e fácil de fazer.

De Itajaí a Balneário Camboriú, mais uma estrada de chão, cruzando o morro. E então, de repente, a visão da baía. O azul imenso, emoldurado pelos morros verdes. Era sempre assim, sempre a primeira vez.

Depois de instalar a família, às vezes no Hotel Balneário, pé na areia, às vezes em casas alugadas, era só aproveitar aquele mês de férias. Na areia não havia sombra de prédios. Havia espaço, havia sol, havia a liberdade generosa que nossos pais nos davam para brincar, na praia ou na rua.

No Hotel Balneário, da D. Irma, já éramos amigos da proprietária e do garçom que servia as refeições inesquecíveis, especialmente a maionese de camarão que era servida de entrada.

Eu não sabia, mas naquele tempo estava guardando memórias que nunca desapareceriam. Achava que aquilo era simplesmente a vida. E que vida!

Até a próxima, amigos!

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