Caravaggio, entre a fé e o tempo

Mais do que uma programação religiosa, a Romaria de Caravaggio se tornou um ritual coletivo que atravessa gerações, movimenta a cidade e continua deixando marcas concretas no Santuário e na comunidade. Todos os anos, milhares de pessoas percorrem os sete quilômetros entre a Catedral de Pedra e o Santuário de Caravaggio. Mas, em Canela, a romaria começa antes da caminhada. Ela aparece na rotina das comunidades, nos grupos que organizam a saída ainda de madrugada, nos bancos ocupados durante a novena e nos rostos que retornam ao mesmo percurso ano após ano. A Romaria e Festa em honra a Nossa Senhora de Caravaggio chega agora ao momento principal da programação, depois da retomada da Cavalgada da Fé, da novena e das primeiras atividades religiosas do mês.

FESTEJOS em homenagem irão mobilizar milhares de fiéis até terça-feira, dia 26
Foto: Diego Santos

Até o dia 26 de maio, a estimativa da organização é que mais de 50 mil pessoas passem pelo Santuário, no Saiqui. Mas olhar para Caravaggio apenas pela programação deixa de lado aquilo que sustenta a romaria há mais de seis décadas. Ao longo desse período, a Romaria de Caravaggio se firmou como uma tradição religiosa de Canela. A cada ano, famílias retornam ao Santuário, antigos romeiros reencontram o percurso e novos participantes passam a fazer parte de uma história que segue sendo renovada pela comunidade.

A história da romaria começou antes mesmo da criação da festa. Em 1959, a primeira imagem de Nossa Senhora de Caravaggio chegou ao Saiqui, doada pela devota Ângela Rigotto para uma pequena capela de madeira que atendia a comunidade local. Dois anos depois aconteceria a primeira Romaria e Festa. Ao longo das décadas, o que nasceu como uma celebração ligada à comunidade cresceu junto com a cidade. O Santuário se estruturou para receber um público cada vez maior e a romaria passou a integrar o calendário religioso e comunitário de Canela, recebendo também visitantes de outras regiões. O próprio lugar ajuda a entender parte dessa permanência. Localizado a sete quilômetros do Centro, o Santuário mantém uma relação diferente com quem chega. O percurso leva o romeiro para uma área menos urbanizada e cria uma mudança gradual no ambiente e no ritmo da experiência. Quando chegam ao local, muitos seguem diretamente para as celebrações. Outros param diante do Monumento da Prece, inaugurado em 1976 e transformado em um dos símbolos de Caravaggio. Há quem permaneça alguns minutos em silêncio, quem faça uma oração e quem apenas observe o movimento ao redor antes de seguir o percurso.

OBRA CRESCE JUNTO COM A ROMARIA

Entre os sinais mais concretos dessa permanência está a construção do novo templo. Iniciada oficialmente em 2013, a obra entrou agora em uma etapa considerada decisiva. Segundo Lauro Drechsler, coordenador do Conselho Econômico do Santuário, a estrutura principal está próxima da conclusão e o foco passa a ser a colocação da cúpula, uma das etapas mais importantes do projeto. Com essa fase encaminhada, o próximo passo será avançar para os acabamentos, telhado, aberturas e demais intervenções internas.

CONSTRUÇÃO da Igreja de Caravaggio está sendo feita por etapas
Foto: Divulgação

Sem prazo definido para conclusão, a nova igreja segue sendo construída por etapas. Parte dos recursos vem das doações dos devotos e parte da renda da própria Romaria e Festa é destinada à continuidade da obra.
Mais do que ampliar espaço físico, o templo passou a representar um projeto coletivo construído ao longo do tempo pela própria comunidade.

Para o padre Lucimar Braga Macedo, coordenador espiritual desta edição, talvez esteja aí uma das explicações para a permanência da romaria. Segundo ele, assumir essa função significa lidar com milhares de histórias pessoais que chegam ao Santuário todos os anos. “Existe uma responsabilidade de cuidar dessas histórias,” comenta Lucimar. Na visão do sacerdote, o evento mudou em aspectos visíveis, como organização, estrutura e acolhimento. Mas aquilo que sustenta a caminhada permanece. “A estrutura mudou. O que permanece é a fé das pessoas,” afirma o padre.
Padre Lucimar afirma que a romaria reúne pessoas de diferentes idades, trajetórias e motivações e que ninguém conhece completamente aquilo que cada romeiro leva consigo. “O que nós sabemos é que esse é um encontro de pessoas que acreditam,” destaca ele.

ENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE

Na visão do padre, maio tem esse peso porque é o mês dedicado a Maria na Igreja Católica e, em Canela, concentra a preparação e os principais momentos da Romaria de Caravaggio. É nesse período que a comunidade se envolve mais diretamente com a festa e transforma a fé em compromisso, serviço e alegria. Para quem participa pela primeira vez, o convite não está apenas na chegada ao Santuário, mas também na experiência do percurso, na oração e na disposição de viver o momento com atenção ao que ele representa.

Foto: Diego Santos

A mensagem que o padre deixa para esta edição passa por transformação e paz. Em um tempo marcado por conflitos e incertezas, ele entende que a romaria continua sendo um espaço de reencontro, oração e cuidado com o outro. E talvez seja justamente por isso que o caminho continue sendo repetido.

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO

Lembrai-vos, ó puríssima Virgem Maria, que jamais se tem ouvido que deixásseis de socorrer e de consolar a quem vos invocou, implorando a vossa proteção e assistência; assim, pois, animado com igual confiança, como a Mãe amantíssima, ó Virgem das Virgens, a Vós recorro; de Vós me valho, gemendo sob o peso de meus pecados, humildemente me prostro a vossos pés. Não rejeiteis as minhas súplicas, ó Virgem de Caravaggio, mas dignai-vos de ouvi-las propícia e de me alcançar a graça que Vos peço. Amém.

Organização

  • Pe. José Monteiro Filho
  • Pe. Lucimar Braga Macedo
  • Pe. Felipe De Souza Ribeiro
  • Seminarista João Antônio Ribeiro Bito

Coordenadores

  • André e Cristine Debastiani
  • Dionatas e Mônica Cristofoli

Comissão festeira

  • Fábio e Ana Paula Oliveira
  • William e Natália de Oliveira
  • Lucas e Camila Scain
  • Agostinho e Taiane Rocha
  • Jorge e Suzana Boff
  • Gilmar e Guiomar Arruda
  • Giovani Figueiredo Augusto
  • Rosane Teresinha Boniatti

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