Para muitos, a eliminação do Brasil para a Noruega foi surpresa. Para outros tantos, onde me incluo, foi apenas a confirmação de um diagnóstico ignorado há anos. O futebol brasileiro perdeu o medo que impunha aos adversários e parece ter perdido, também, a vergonha de perder sempre do mesmo jeito.
A Noruega não é boba. Aliás, Felipão virou meme quando disse que não existia mais time bobo. Durante anos rimos da frase. Hoje ela parece uma profecia. O Brasil caiu para uma seleção que muitos ainda tratam como coadjuvante. A camisa já não vence sozinha. O Brasil ainda entra em campo como se vencesse.
As seleções médias cresceram. Africanas, asiáticas e até europeias sem tradição de título mundial jogam com força, organização e confiança. Já não entram em campo para respeitar a camisa amarela. Entram para enfrentá-la.
O problema não é perder para a Noruega. É perder caminhando. É assistir ao adversário jogar como se a obrigação fosse dele. É ver a Seleção Brasileira sem urgência, sem incômodo, sem alguém disposto a transformar a derrota em afronta pessoal.
Trouxeram um técnico multicampeão como se ele fosse resolver uma crise que não é de currículo. A questão talvez não esteja na pessoa, mas na ideia. O Brasil tentou vestir um modelo que nunca foi seu: organizado, científico e excessivamente preso ao esquema. Nada disso é errado. Errado foi confundir modernização com renúncia.
Durante décadas, o mundo tentou copiar o Brasil. Hoje, é o Brasil que tenta copiar o mundo. E, nessa troca, perdeu justamente aquilo que tinha de mais raro: a capacidade de decidir no improviso, no drible e na coragem.

Antes, o Brasil formava jogadores que queriam a bola da vida. Romário, cara a cara com o goleiro, era quase sentença. Ronaldo Nazário, lançado em velocidade, parecia uma notícia ruim para qualquer zagueiro. Hoje, um atacante brasileiro sai na frente do goleiro e a torcida prende a respiração. O erro de Endrick não explica a eliminação, mas acabou simbolizando uma geração mais ansiosa do que fria.
E isso não é apenas nostalgia de quem não aceita que o jogo mudou. O futebol mudou: a preparação física evoluiu, a tática avançou e os espaços diminuíram. Mas uma coisa não mudou: Copa do Mundo exige personalidade. O Paraguai perdeu para a França por 1 a 0 e saiu de pé. A Argentina, gostemos ou não, mantém a faca entre os dentes mesmo contra rivais sem expressão. Pode faltar talento. Competir nunca falta. O Brasil perdeu para a Noruega e saiu menor do que o placar.
Perder faz parte. O que não dá é perder sempre, prometer mudança e voltar igual. O que incomoda não é a derrota. É a apatia. É ninguém disputando a última bola. É a falta de indignação.
A Amarelinha ainda veste jogadores famosos. Mas fama não ganha dividida. Valor de mercado não decide Copa. E camisa histórica, sem sangue, vira apenas uniforme bonito.
O Brasil não precisa escolher entre organização e talento. Precisa parar de tratar sua alma como defeito. Ao tentar ser uma Europa sem sotaque, deixou de ser Brasil. E Copa do Mundo não perdoa time sem identidade.






