No início dos anos de 1940, Canela ainda era o sexto distrito de Taquara, mas já apresentava uma estrutura urbana em consolidação. Tinha mais de mil casas, população superior a 7 mil habitantes e um centro que crescia com a divisão e a venda de antigas propriedades.
A madeira sustentava grande parte da economia. Serrarias funcionavam em diferentes pontos da região, e cerca de 1.300 vagões de madeira seguiam anualmente pela ferrovia. O trem também trazia comerciantes, novos moradores e famílias que procuravam a Serra para passar temporadas.
Hotéis, pensões e casas de veraneio recebiam visitantes atraídos pelo clima e pelas paisagens. Entre os estabelecimentos estavam o Bela Vista, o Paris e o Grande Hotel Canela.
Foi nesse ambiente que Willibaldi Rinaldo Dieterich imaginou um empreendimento de proporções inéditas para a Serra. Inspirado nos hotéis-cassino que conhecera em outras cidades brasileiras, planejou construir, em uma das áreas mais elevadas de Canela, um complexo com hospedagem, restaurantes, espetáculos, lazer e grandes salões de jogos.
O médico Pedro Sander tornou-se seu sócio. Enquanto o empreendimento principal era construído, a empresa mantinha um cassino provisório no antigo Clube do Comércio. Os jogos eram permitidos, e a receita deveria contribuir para o financiamento da obra. Nos fins de semana, um Carro Motor subia de Porto Alegre trazendo passageiros, entre eles frequentadores do cassino, e retornava à capital no domingo.
O crescimento econômico e o movimento de visitantes também fortaleceram a campanha pela emancipação, oficializada em 28 de dezembro de 1944.
Naquele período, o Cassino Palace Hotel, ainda em obras, já figurava entre as chamadas “Sete Maravilhas de Canela”, ao lado da Cascata do Caracol, da Laje de Pedra e de outras atrações locais. Mesmo inacabado, o empreendimento ocupava espaço no imaginário da cidade e simbolizava a confiança no desenvolvimento do turismo.

Formalização do empréstimo para a construção do Cassino Palace Hotel, em 17 de agosto de 1942, no Salão Nobre da Caixa Econômica Federal, em Porto Alegre. Em pé, da direita para a esquerda, o primeiro é Pedro Sander e, na terceira posição, Willibaldi Rinaldo Dieterich.
Acervo: Antônio Olmiro dos Reis
O HOMEM QUE IMAGINOU O CASSINO
Quando foi convidado a dizer quem era seu pai, Wilton Rinaldo Dieterich, conhecido em Canela como Nego Véio, pediu que a conversa fosse interrompida por alguns instantes. Aos 81 anos, ainda se emociona ao lembrar de Willibaldi Rinaldo Dieterich.
“Era duro, muito duro com os filhos. Tinha as manias dele, mas era um cara extraordinário. Um visionário.”
Willibaldi e Yolanda tiveram três filhos: Wilson, Wilton e Jane. Segundo Wilton, o pai tinha pouca escolaridade formal, mas demonstrava habilidade para negociar, adquirir terras e identificar oportunidades.
A trajetória da família em Canela começou na região do Caracol, ligada às serrarias e à atividade madeireira. Willibaldi passou depois a investir em propriedades e loteamentos. Entre as áreas estavam cerca de 400 hectares abrangendo Ferradura e Limeira e uma fazenda no Saiqui que, conforme o relato do filho, chegou a reunir aproximadamente 1.080 hectares.
Os negócios também incluíam uma fábrica de móveis e esquadrias mantida em sociedade com o médico Pedro Sander. A parceria seria decisiva para o empreendimento mais ambicioso dos dois.
De acordo com as histórias preservadas pela família, a ideia do cassino ganhou força durante viagens feitas por Willibaldi e Yolanda. Em Poços de Caldas, Araxá e no Quitandinha, em Petrópolis, conheceram hotéis-cassino que reuniam hospedagem, restaurantes, espetáculos e salões de jogos.
Willibaldi não se interessou somente pelas apostas. Via aqueles estabelecimentos como complexos turísticos, nos quais os hóspedes poderiam encontrar alimentação, apresentações, eventos, lazer e diferentes serviços.
Canela ainda possuía uma estrutura turística modesta, mas já recebia visitantes e ampliava sua rede de hotéis e casas de veraneio. Willibaldi decidiu adaptar aquela experiência à Serra e, ao lado de Pedro Sander, começou a planejar um hotel-cassino de dimensões inéditas para a cidade.
UM HOTEL DE GIGANTESCAS PROPORÇÕES
Em 1939, o projeto começou a sair do papel. Willibaldi escolheu uma das áreas mais elevadas de Canela, onde cerca de 100 hectares seriam ocupados pelo edifício principal, parques, lagos e espaços de lazer.
As plantas previam 12.316 metros quadrados de construção. O complexo reuniria hotel, restaurantes, cinema, jardim de inverno, piscina, quadras de tênis, espaço para golfe e diferentes serviços. Dois salões seriam destinados aos jogos: um popular, com 500 metros quadrados, e outro de luxo, com 400 metros quadrados. O salão de jantar teria 800 metros quadrados.
Entre os profissionais ligados à execução estava o arquiteto alemão Theodor Alexander Josef Wiederspahn. Algumas fontes atribuem a ele o projeto do cassino, enquanto pesquisas mais recentes indicam que teria conduzido uma obra concebida por outros profissionais. A autoria arquitetônica ainda não está definitivamente esclarecida.
Uma fotografia de 1939 mostra dezenas de trabalhadores entre fundações, formas de madeira e os primeiros pilares de concreto. Segundo Wilton, cerca de 50 pessoas atuavam na construção, além dos responsáveis pela parte técnica.
Ao lado da obra principal foi erguido o Palace Hotel, um prédio de madeira destinado inicialmente a hospedar engenheiros e outros profissionais. A construção ganhou vida própria e, segundo Wilton, funcionou por 15 anos ou mais como hotel de turismo, mantendo movimento constante. Tinha 22 quartos, quatro apartamentos com banheiro privativo, banheiros coletivos e um amplo salão de refeições, onde foram realizados bailes, réveillons e outras festas. A torre de cinco andares abrigava a caixa-d’água, abastecida por um poço. O sistema também fornecia água para mais de 60 casas do loteamento. Do alto, podiam ser vistas as torres da fábrica Abramo Eberle, em Caxias do Sul.
Em 17 de agosto de 1942, a Sander e Dieterich Ltda assinou com a Caixa Econômica Federal um empréstimo de 1.467 contos de réis, com prazo de 15 anos e garantia hipotecária sobre as terras e as estruturas já construídas. O financiamento cobria apenas parte do orçamento, estimado em 5.307 contos de réis.
Dois dias depois, o Correio do Povo publicou a reportagem “A construção de um hotel de gigantescas proporções em Canela”. O jornal apresentava o Cassino Palace Hotel como um dos maiores empreendimentos do gênero na América do Sul.
A publicação registrava ainda a aprovação do interventor federal Cordeiro de Farias, que visitara o local, e a autorização para a exploração de jogos como roleta e bacará.
O empreendimento também movimentou o loteamento.
Industriais, comerciantes, banqueiros e famílias de outras cidades adquiriram terrenos e construíram casas de veraneio. Segundo Wilton, entre 12 e 15 proprietários possuíam aviões particulares, o que levou Willibaldi a reservar parte das terras para uma pista de pouso.
O cassino ainda não havia aberto, mas já mobilizava trabalhadores, financiamento, venda de terrenos e novas construções. Antes de entrar em operação, o complexo começava a transformar o entorno.

Trabalhadores no canteiro de obras do Cassino Palace Hotel, em 1939, entre as fundações, formas de madeira e os primeiros pilares de concreto.
Acervo: Antônio Olmiro dos Reis
O DECRETO QUE INTERROMPEU TUDO
Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o Decreto-Lei nº 9.215 e proibiu os jogos de azar no país. A medida atingiu cassinos em funcionamento e empreendimentos ainda em construção. O texto oficial afirmava que a atividade contrariava a tradição moral, jurídica e religiosa brasileira e os chamados bons costumes.
Uma das versões preservadas no imaginário popular atribui influência à primeira-dama Carmela Teles Leite Dutra, conhecida como Dona Santinha. Católica e contrária aos jogos, ela teria pressionado pelo fechamento dos cassinos. A explicação nunca foi comprovada documentalmente e convive com outras interpretações políticas.
Em Canela, o cassino provisório da Sander e Dieterich foi fechado imediatamente. Segundo Wilton, funcionários da limpeza chegavam para preparar o estabelecimento para mais um dia de funcionamento quando forças de segurança bloquearam o prédio. Ele tinha cerca de um ano e relata o episódio a partir das histórias preservadas pela família.
Roleta, bacará e os demais jogos, até então permitidos, deixaram de funcionar. A receita do cassino provisório, que deveria contribuir para o financiamento do empreendimento principal, desapareceu. No alto da cidade, a construção do Cassino Palace Hotel perdeu a atividade que sustentaria economicamente o complexo.
A obra foi paralisada e, segundo Wilton, nunca mais recebeu um tijolo. A proibição, porém, não eliminou os compromissos já assumidos. O empréstimo permanecia em aberto, enquanto a empresa ainda precisava responder por pagamentos a trabalhadores, fornecedores e à Caixa Econômica Federal.
Willibaldi havia colocado no projeto dinheiro emprestado, terras e parte importante do patrimônio familiar. Wilton resume o impasse: “Tu tens 50 empregados e vai pagar como? O dinheiro estava colocado na obra.”
Segundo ele, oito quarteirões do loteamento Palace Hotel foram entregues à Caixa Econômica Federal para abater parte da dívida. Também vieram ações trabalhistas. Processos, negociações de terras e mudanças na composição das empresas se prolongaram por anos, sem que a construção fosse retomada.
Na memória de Wilton, a proibição alterou a situação econômica da família e a forma como seu pai passou a ser visto em Canela. Willibaldi, antes associado a grandes propriedades e empreendimentos, passou a conviver com dívidas, processos e críticas.
O edifício principal do Cassino Palace Hotel nunca recebeu hóspedes. Seus salões não abriram e as mesas de jogo não chegaram a ser instaladas. As estruturas de concreto, porém, permaneceram no alto da cidade e acompanhariam a infância de Wilton.
O SONHO QUE PERMANECE
Wilton cresceu ao lado das estruturas do Cassino Palace Hotel. A construção inacabada fazia parte de seu cotidiano e servia como espaço de brincadeiras, muito antes de se tornar uma referência histórica de Canela.

Wilton Rinaldo Dieterich
Foto: Divulgação
Ainda jovem, trabalhou no Palace Hotel, o prédio de madeira que funcionava nas proximidades. Cuidava do sistema de água e fazia reparos na rede que abastecia o hotel e as casas do loteamento. Mais tarde, construiu um chalé em frente ao estabelecimento e viveu ali com a família.
“O cassino foi uma vida para mim”, afirma.
Na avaliação de Wilton, a inauguração do complexo poderia ter colocado Canela, ainda nos anos de 1940, entre os principais destinos turísticos do país. O fluxo de hóspedes e jogadores talvez atraísse novos hotéis, restaurantes, comércio, eventos e investimentos, antecipando uma vocação que a cidade desenvolveria mais tarde por outros caminhos.
Não há como saber qual teria sido o resultado. Canela se consolidou como destino turístico sem o cassino. A visão de Wilton é marcada pela história da família, mas também pela escala de um projeto que pretendia reunir hospedagem, gastronomia, espetáculos, lazer e jogos em um único empreendimento.
Ele ainda deseja ver a área ocupada por um grande projeto turístico. Caso os jogos voltem a ser autorizados no Brasil, imagina que parte da proposta original também possa ser recuperada.
Quando passa pelas estruturas e pensa no projeto que o pai não conseguiu concluir, define o sentimento de forma direta: “Tristeza. Muita.”

Palace Hotel, que funcionou por mais de 15 anos como hotel de turismo e recebeu bailes, festas e réveillons.
Acervo: Antônio Olmiro dos Reis
Na mesma área, duas construções tiveram destinos distintos. O Palace Hotel de madeira recebeu turistas, bailes e festas durante mais de 15 anos. Já o grande Cassino Palace Hotel, erguido em concreto, foi interrompido antes da inauguração. As ruínas que permanecem hoje pertencem a esse segundo empreendimento.
COMO ESTA HISTÓRIA FOI RECONSTRUÍDA
A matéria foi desenvolvida por Ernani de Azevedo e Souza a partir da entrevista com Wilton Rinaldo Dieterich e do cruzamento de diferentes registros sobre o Cassino Palace Hotel. Entre as fontes consultadas estão o livro Canela por muitas razões, de Antônio Olmiro dos Reis, Marcelo Wasem Veeck e Pedro Oliveira; o Almanaque de Canela; e a reportagem publicada pelo Correio do Povo em 19 de agosto de 1942.
Também foram analisados desenhos, fotografias, plantas e documentos históricos relacionados ao empreendimento. Os registros permitiram reconstituir as dimensões previstas para o complexo, o financiamento contratado pela Sander e Dieterich, o início das obras, o funcionamento do cassino provisório e os efeitos da proibição dos jogos em 1946.
As lembranças familiares e as interpretações sobre o que o projeto poderia ter representado para Canela foram identificadas no texto como relatos e avaliações de Wilton. Nos pontos em que as fontes apresentam versões diferentes, como a autoria arquitetônica do edifício, a divergência foi mantida.

Ruínas do Cassino Palace Hotel, que permanecem em Canela como testemunho do projeto interrompido em 1946.
Foto: Divulgação





