O parque que Canela quase teve

A história do projeto que previa ocupar 50 hectares e criar um grande centro da cultura gaúcha.
No início dos anos 1970, Canela vivia uma mudança importante em sua economia. Durante décadas, a madeira havia ocupado posição central no município, movimentando serrarias, empregos e diferentes atividades ligadas à exploração das florestas.
Em 1965, madeira, papel e papelão ainda respondiam por quase 80% do valor da produção industrial local. Mas aquele ciclo se aproximava do fim. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul registra que a escassez da araucária e de outras árvores utilizadas pela indústria já havia começado no final dos anos 1950 e provocou o declínio da atividade extrativa na década seguinte. Canela entrava nos anos 1970 diante da necessidade de encontrar novas forças para movimentar sua economia.
O turismo surgia como uma dessas possibilidades. A cidade era procurada principalmente como destino de veraneio. Famílias permaneciam semanas ou meses em Canela, atraídas pelo clima, pela tranquilidade e pelas paisagens da Serra. A Cascata do Caracol, a Ferradura e os morros Pelado, Queimado e Dedão estavam entre os passeios. A principal atração era a própria natureza.
Naquele período, a ideia de parque temático ainda era pouco difundida no Brasil. Havia experiências isoladas, como a Cidade da Criança, na Grande São Paulo, enquanto empreendimentos que ajudariam a popularizar esse modelo surgiriam depois. O Playcenter, por exemplo, abriria seu parque na capital paulista em 1973.
Foi nesse cenário, com a indústria da madeira perdendo força e o turismo começando a ganhar espaço, que João Kessler Coelho de Souza apresentou a ideia da Gaucholândia. Os rascunhos preservados pela família revelam a dimensão do projeto: uma área de 50 hectares e a previsão de estacionamento para 5 mil veículos.

Fundação da Gaucholândia, em 27 de fevereiro de 1972. Da esquerda para a direita: Paixão Côrtes; o prefeito Bertholdo Oppitz; Glauco Saraiva, representando o governador Euclides Triches; João Kessler Coelho de Souza e Plínio Totta, da Secretaria Estadual de Turismo.

O HOMEM QUE IMAGINOU A GAUCHOLÂNDIA

Pedro Müller Coelho de Souza tinha 23 anos e cursava Engenharia quando a Gaucholândia começou a ser discutida dentro de casa. A proposta era ousada, mas não surpreendia quem conhecia seu pai. “Ele sempre foi empolgado, muito empolgado e com iniciativa”, recorda.
João Kessler Coelho de Souza nasceu em Porto Alegre, em 1913, e formou-se em Direito em 1938. Naquele mesmo ano, seu nome aparece na primeira diretoria do Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano. Sua ligação com Canela também vinha de longe: participou do movimento que levou à emancipação do município, em 1944.
Mesmo depois de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1955, João continuou passando os verões em Canela. Gostava do campo, dos cavalos e cultivava desde a juventude o interesse pelo gauchismo. No Rio, presidiu a Sociedade Sul-Rio-Grandense e manteve amizade próxima com Paixão Côrtes. Segundo Pedro, os dois viajaram pelo interior do Estado registrando músicas, histórias e costumes.
João também conhecia o turismo praticado fora do Rio Grande do Sul. Envolvido com o projeto do Panorama Palace Hotel, no Rio de Janeiro, mantinha contato com empresários e pessoas ligadas ao setor. Em suas viagens, observava hotéis, clubes e atrações e voltava com referências e anotações. “Ele trouxe uma série de ideias de parques temáticos dos Estados Unidos, como o Knott’s Berry Farm, o Busch Gardens e a própria Disneylândia”, conta Pedro.
Na cabeça de João, essas referências encontraram um lugar. Canela recebia veranistas e buscava novos caminhos para sua economia. Faltava uma atração permanente, capaz de funcionar durante o ano inteiro. A cultura gaúcha ofereceu o tema. Os parques visitados no exterior forneceram o modelo. Dessa combinação nasceu a Gaucholândia.

João Kessler Coelho de Souza

A IDEIA GANHA TERRENO

Para levar o projeto adiante, João precisava de uma área grande, investidores e parceiros em Canela. Encontrou o terreno e um aliado em Dante Bertoluci, amigo de muitos anos, que colocou à disposição uma propriedade nos fundos do aeroporto, onde mais tarde se formaria a Vila Dante.
Naquela temporada, João ficou hospedado na casa da família Bertoluci. Hilda Eloiza Alves Bertoluci, a Dida, tinha cerca de 20 anos e viu o projeto entrar na rotina da casa. “Ele veio com o propósito de criar um Parque do Gaúcho”, recorda. Segundo ela, João falava com entusiasmo e tinha uma oratória capaz de tornar a proposta convincente.
Dante costumava ser cauteloso diante de grandes empreendimentos. Mesmo assim, abraçou a Gaucholândia. Dida acredita que pesaram a amizade com João, a possibilidade de transformar a terra em fonte de renda e o potencial de criar um novo atrativo turístico para Canela.
O lugar ainda guardava uma paisagem rural. Dida lembra de um terreno plano, cortado por um riacho, com muitos eucaliptos e poucos pinheiros. Numa das extremidades havia uma grande ribanceira e uma trilha. Ao longe, era possível avistar a capelinha da Linha 28.
Mesmo dividido entre Canela e o curso de Engenharia, Pedro acompanhava as articulações. Segundo ele, João trouxe para a sociedade amigos do Rio de Janeiro e também procurou acionistas em Canela. Aos poucos, possíveis investidores começaram a visitar as terras atrás do aeroporto.
As visitas muitas vezes terminavam em churrasco. Dida recorda das famílias reunidas e das plantas abertas sobre as mesas. Havia conversa, curiosidade e entusiasmo. Compromisso financeiro, porém, era outra história. “Muitos iam comer churrasco e depois iam embora”, resume.
Até que um desses encontros ganhou caráter oficial. No dia 27 de fevereiro de 1972, a Gaucholândia seria apresentada publicamente.

Charretes em circulação pela área da Gaucholândia, em 1972. Os passeios estavam entre as atrações do parque.

O GRANDE CHURRASCO

No dia 27 de fevereiro de 1972, cerca de cem pessoas se reuniram nas terras de Dante Bertoluci, segundo a lembrança de Pedro. O churrasco marcou a fundação da Gaucholândia e apresentou publicamente o projeto. Nos materiais preservados pela família, o empreendimento aparece sob a razão social Organização Sul Rio-Grandense da Indústria de Hotéis e Turismo S.A. As fotografias daquele dia e um recorte da imprensa de Porto Alegre registram a presença do tradicionalista Paixão Côrtes; do prefeito de Canela, Bertholdo Oppitz; do poeta e escritor Glauco Saraiva, representando o governador Euclides Triches; de João Kessler Coelho de Souza; e de Plínio Totta, representante da Secretaria de Turismo.
Na publicação, João era apresentado como o criador da Gaucholândia. O texto anunciava que o parque “reproduzirá em visorama a história do Rio Grande do Sul”. A proposta era contar essa história por meio de ambientes e cenas percorridos pelos visitantes, com galpão crioulo, casas das etnias, costumes, gastronomia e atividades espalhadas pelo parque.
A presença de Paixão Côrtes reforçava a ligação com o tradicionalismo, enquanto os representantes do governo estadual e do turismo davam caráter institucional ao encontro. Diante dos convidados, João apresentava uma atração planejada para funcionar durante todo o ano e levar a cultura gaúcha a visitantes de fora de Canela.
Naquele dia, a Gaucholândia parecia pronta para sair do papel. Havia um terreno, uma empresa, investidores, autoridades presentes e um projeto desenhado. Restava transformar a ideia em realidade.

Preparativos para o churrasco que marcou a fundação da Gaucholândia, em 27 de fevereiro de 1972.

QUANDO O ENTUSIASMO ESFRIOU

Depois da apresentação pública, a Gaucholândia enfrentou a parte mais difícil: transformar planos e entusiasmo em obras. João Kessler retornou ao Rio de Janeiro e a direção local ficou inicialmente com Paraguassu Alves Bertoluci, filho de Dante. Mais tarde, a responsabilidade passou para Marco Antônio Viezzer. Segundo Pedro Müller, algumas construções chegaram a ser iniciadas. O empreendimento ainda resistiu por dois ou três anos, mas perdeu força antes que as principais atrações fossem concluídas. “O negócio não fluiu, não evoluiu. Não sei por quê”, afirma Pedro. Ao longo do depoimento, porém, ele aponta a falta de investidores e de incentivo.
Dida também guardou a lembrança desse enfraquecimento. O projeto começou com “uma energia contagiante”, mas as adesões esperadas não vieram. Havia curiosidade e interesse pelas plantas. Poucas pessoas, porém, assumiram compromisso com o empreendimento.
Vera Beatriz Herrmann Coelho de Souza, esposa de Pedro, acompanhou aquela movimentação ainda como namorada. Para ela, Canela não estava preparada para um projeto daquela escala. “Não saiu porque era um pouco futurista”, avalia. Faltaram acionistas dispostos a investir numa proposta grandiosa, quando o turismo local ainda possuía pouca estrutura e as formas de captação de recursos eram limitadas.
O dinheiro foi parte do problema. A confiança foi outra. Em 1972, parque temático ainda era novidade no Brasil. Para avançar, a Gaucholândia precisava ampliar o grupo de pessoas dispostas a enxergar o mesmo futuro imaginado por João. Essa adesão não veio.João sentiu o fim do projeto. Pedro recorda que o pai ficou muito chateado e ainda tentou convencer os responsáveis locais a seguir adiante. Aos poucos, o empreendimento perdeu impulso e a Gaucholândia nunca chegou a abrir ao público.

UMA IDEIA QUE CHEGOU CEDO

Os parques que surgiram posteriormente em Canela não nasceram da Gaucholândia. Não existe uma ligação direta entre aquele projeto e os empreendimentos atuais. Sua história, porém, mostra que a ideia de criar uma grande atração temática já circulava na cidade quando o turismo local ainda dependia principalmente das paisagens naturais e dos veranistas.
Cinco décadas depois, o contraste é inevitável. Em 2023, a Lei Federal nº 14.738 conferiu a Canela o título de Capital Nacional dos Parques Temáticos. Isso não permite afirmar que a Gaucholândia teria alcançado sucesso, mas mostra que João apostava, em 1972, num caminho que se tornaria parte central da identidade turística da cidade.
Ao final da entrevista, Pedro deixou uma mensagem especialmente dirigida aos jovens: “Sejam criativos e tomem iniciativa”. A história de seu pai mostra que uma boa ideia também precisa de recursos, parceiros e pessoas dispostas a acreditar. A Gaucholândia não abriu seus portões. Ainda assim, quando parque temático era quase desconhecido no Brasil, João Kessler Coelho de Souza teve a ideia e deu o primeiro passo. O projeto ficou no papel, mas deixou uma marca concreta na cidade: a Rua Gaucholândia, na Vila Dante, mantém até hoje o nome daquele sonho que chegou cedo demais.

COMO ESTA REPORTAGEM FOI CONSTRUÍDA

PEDRO E VERA BEATRIZ

DIDA BERTOLUCI

A reportagem foi produzida a partir das entrevistas com Pedro Müller Coelho de Souza, Vera Beatriz Herrmann Coelho de Souza e Hilda Eloiza Alves Bertoluci. Também foram consultados desenhos, fotografias e documentos preservados pela família, dados do Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul de 1970, informações do IBGE e um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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