ÓPERA ANITA LEVA AO PALCO MÚSICA, MEMÓRIA E A HISTÓRIA DE CANELA

Produção da Sonarte inspirada na vida de Anita Franzen Corrêa reúne cerca de 80 artistas e transforma personagens e episódios da cidade em música e teatro.

No dia 17 de outubro, a Ópera Anita terá sua apresentação experimental no Teatro Municipal de Canela. Com início às 15h e destinada a convidados, a montagem, construída desde 2022 une música e teatro em uma obra inspirada na vida de Anita Franzen Corrêa.

A Sonarte surgiu em 2006, em São Leopoldo. Violinista e bacharel em Música, Mauro Gomes deixou a rotina das orquestras profissionais para concentrar seu trabalho no ensino e criou o Projeto Sonarte. Em 2010, um projeto de educação musical o trouxe a Canela. No Centro Social Padre Franco, conheceu Angélica Gomes, que já trabalhava com música e crianças na cidade. Os dois se casaram em 2012 e fizeram da construção da Sonarte em Canela também um projeto de vida.
Um encontro ajudou a definir os rumos da instituição. Em 2014, Camila Krause Corrêa assistiu a uma apresentação da Sonarte na Casa de Pedra e, ao final, procurou Mauro. Ela o convidou a desenvolver atividades no Grande Hotel Canela. Vieram concertos, ensaios e eventos que deram visibilidade ao trabalho e aproximaram novos apoiadores.

Alunos e integrantes da Sonarte reunidos durante o Dia do Aluno, realizado no Grande Hotel Canela
Foto: Divulgação

Entre eles, Mauro fala com especial gratidão de Idemor Piva (in memoriam). O empresário tornou-se conselheiro e benfeitor, ajudou alunos e, em 2016, presenteou a instituição com a sede própria. Seu nome permanece na Camerata de Cordas Idemor Piva. Ao recordar por que tantas pessoas abraçaram a Sonarte, Mauro relaciona essa aproximação à simplicidade com que ele e Angélica conduziram o trabalho e aos vínculos construídos com a comunidade.

A Sonarte também enfrentou momentos difíceis. Durante a pandemia, quando a continuidade da instituição chegou a ser ameaçada, o apoio de pessoas próximas foi decisivo para manter o trabalho. Foi nesse mesmo período que Mauro aprofundou suas pesquisas sobre Anita Franzen Corrêa e encontrou uma personagem que, em sua avaliação, permanecia menos conhecida que os homens da família. “Eu me apaixonei pela história dela”, conta.

Hoje, a Sonarte reúne cerca de 150 alunos, aproximadamente 80% de Canela. Atua como mantenedora da Academia de Música Palmyra Colombo, da Sonarte Ação Social e da Sonarte Eventos. Com o apoio de parceiros, a ação social permite oferecer bolsas a crianças e jovens para os quais o custo da formação musical pesaria no orçamento familiar.

DA GRATIDÃO NASCEU UMA ÓPERA

A pesquisa de Mauro revelou uma Anita que ele queria levar ao palco; a gratidão ajudou a transformar a ideia em ópera. Mauro e Angélica queriam retribuir à família Corrêa e ao Grande Hotel o espaço e o apoio oferecidos à Sonarte desde 2014. Em 2022, cerca de oito anos depois do início dessa relação, Mauro apresentou a proposta aos familiares de Anita, recebeu autorização e começou a construir o libreto.

A composição ficou a cargo de Bruno Silva de Araújo, músico canelense formado pela Sonarte. A escolha seguia uma intenção de Mauro: ter na criação da obra um músico formado dentro da instituição e ligado à cidade retratada no libreto.

DOS 15 ANOS DE ANITA À VIDA ADULTA

A narrativa parte dos 15 anos de Anita. A preparação do aniversário apresenta uma jovem criada em um ambiente familiar marcado pela música. A partir dali, ela amadurece diante do público. A trama acompanha o encontro com Danton, o casamento, a família, o Grande Hotel e as perdas enfrentadas ao longo da vida.

São dois atos e 22 cenas. Três alunas da Sonarte interpretam Anita em diferentes fases. Toda em português, a obra utiliza o formato Singspiel, alternando partes cantadas e faladas. Personagens reais convivem com figuras ficcionais, enquanto a vida da protagonista se cruza com acontecimentos da história de Canela.

A chegada do trem a Canela ganha um dos núcleos ficcionais da ópera. A cena é contada com humor a partir de uma família formada por um ébrio, sua mulher Carminha, uma fofoqueira atenta ao que acontece ao redor, e a filha do casal, que tenta colocar algum equilíbrio entre os dois. O personagem reaparece no segundo ato, décadas mais tarde, durante as comemorações dos 50 anos do Grande Hotel, em 1966. Já transformado, ele agradece a Anita e Danton pela ajuda recebida por sua família. O que começa como uma passagem pitoresca acaba ligado à preocupação com o social da protagonista e à sua atuação benemerente, como a criação da Sociedade Canelense de Amparo à Infância e Indigentes (SCAI).

Na construção do libreto, Mauro procurou colocar Anita no centro da narrativa. Ela não surge simplesmente como esposa de Danton Corrêa. É sua vida que conduz a ópera, passando pela juventude, família, atuação comunitária, perdas e amadurecimento. Ao falar sobre essa escolha, Mauro amplia o olhar para outras mulheres que, como Anita, assumiram responsabilidades na família, no trabalho e na comunidade, mas nem sempre receberam a mesma atenção nos registros de seu tempo.

Na ópera, a perspectiva se inverte: Danton passa a fazer parte da narrativa de Anita.

UMA PRODUÇÃO FEITA POR MUITAS MÃOS

A montagem mobiliza crianças a partir dos seis ou sete anos, jovens, cantores, atores e músicos profissionais, com forte participação de artistas locais. A orquestra de câmara reúne alunos avançados da Sonarte e músicos com formação ou atuação profissional.

Mauro Gomes assina o libreto e a regência; Bruno Silva de Araújo, a composição; Angélica Gomes responde pela direção artística; Lisiane Berti, pela direção de palco; e Jamile da Rosa, pela direção de produção.

Das 22 cenas concebidas, 21 serão levadas ao palco na apresentação experimental em outubro. O objetivo é testar orquestra, canto, interpretação, iluminação e movimentação de palco e identificar os ajustes necessários para uma futura montagem completa.

O trabalho tem cobrado intensidade de Mauro, que traduz o tamanho do desafio com humor: “Se me perguntarem se está sendo difícil, eu diria que envelheci 20 anos.”

A continuidade dependerá da captação de recursos para novos ensaios, figurinos, cenografia e estrutura.

SEMANA CULTURAL A PARTIR DE 2027

Mauro considera a ópera Anita uma ruptura para a Sonarte. O processo aproximou a instituição de novos músicos, artistas e parceiros e já deu origem a outra iniciativa: a Semana Cultural Sonarte, que deverá ser realizada anualmente, sempre na terceira semana de outubro, com a primeira edição prevista para 2027.

A proposta é reunir exposições, palestras, workshops, recitais e shows, aproveitando também as relações estabelecidas durante a construção da ópera.

“A ópera é a vida encenada”, resume Mauro. Enquanto trabalha para levar a montagem completa ao público, a Sonarte já projeta para outubro de 2027 a primeira Semana Cultural Sonarte.


CANELA E A TRADIÇÃO DE CIDADE DO TEATRO

VEJA E SINTA O PERFUME

No lançamento da obra de Lisiane Berti “A história do teatro de Canela”, em outubro de 2025, um especialíssimo grupo de amigos, acostumado aos palcos de Canela, sentiu voltar uma antiga empolgação.

Como foram protagonistas de algumas das situações retratadas no livro e na exposição, naquela oportunidade Julio e Leticia Dias, Sandra Mahra, Moisés de

Souza e Lisi Berti lançaram a ideia, para Tiago Melo, de voltarem à cena, em algum projeto com profundidade. Ele seria o diretor. “Só se for para encenar Nelson Rodrigues”, disse a eles Tiago, em tom de brincadeira. Vinte e quatro horas depois, a conversa virou um pacto. Nascia ali O Perfume, um espetáculo em que Tiago Melo é responsável, além da direção, pela concepção geral.

Tiago tem décadas de atividade na cena cultural de Canela, nos grupos teatrais e nas escolas. Lançada e aprovada a ideia, em menos de uma semana o diretor já tinha a peça escolhida, sendo elaborada “na cabeça” e com elenco formado, faltando então convidar algumas pessoas. Aos cinco citados (que estavam na conversa no lançamento do livro) viriam a se juntar Rita Reis, Charle Ávila, Catina Basei, e Magno Schuch, escolhidos a dedo por Tiago.

NAS FOTOS, o cuidado nos ensaios
Foto: Paula Vinhas

Da repetida leitura que fez dos 105 contos de “A vida como ela é”, de Nelson Rodrigues, Melo pinçou cinco e fez adaptações e inclusões.

Na criação das histórias de O Perfume ele foi designando personagens para cada ator do grupo, inclusive observando o biotipo de cada um. “Se o personagem é mais velho, eu quero um ator ou atriz mais velho”, diz ele. O mesmo vale para gordo ou magro, bonito ou não. “Não basta só o talento, eu busco o perfil também”, complementa.

NELSON RODRIGUES GOSTARIA DE ASSISTIR

Essa releitura de obras de Nelson Rodrigues, afirma Tiago Melo, é sobre comportamento humano. Mostra situações com as quais nos deparamos, então muitos na plateia irão se identificar. Livre adaptando, Tiago não teve receio em citar ou incluir instituições (como uma religiosa) que não fazem parte do texto original. Nas palavras da assessoria de divulgação, “mais do que contar histórias, o espetáculo convida o espectador a reconhecer em cada personagem aspectos da própria condição humana.”

Foto: Paula Vinhas

O Perfume será encenado em Canela no período de 23 a 27 de setembro, no Clube Serrano. A escolha de um local não convencional, para o diretor, se deve ao desejo de deixar o público muito próximo da cena, absorvendo cada detalhe das interpretações, sentindo os aromas, em um espetáculo imersivo, no formato semi-arena. As tramas se desenrolam em uma espécie de corredor, com elementos como escadas e paredes. O ambiente, portanto, não poderia ser grande. “Pensei até no Teatrão de Canela, mas colocando a plateia também em cima do palco” disse Tiago, que desistiu daquele lugar. O Serrano se mostrou perfeito.

Preparem-se, leitores, para assistir teatro de pura qualidade. Os ensaios estão acontecendo desde janeiro, a produção é esmerada. A lotação é só de 120 espectadores. De Canela, o grupo – que está completamente envolvido com o projeto – pretende partir para o Estado e, se der, para o país. Moderno na concepção e na linguagem, o Perfume, se assistido por Nelson Rodrigues, provavelmente causaria nele surpresa e admiração, declarou Tiago Melo, sem falsa modéstia.

SAIBA TUDO:

Direção & Concepção Geral: Tiago Melo; Elenco: Rita Reis, Charle Ávila, Lisi Berti, Catina Basei, Sandra Mahra, Julio Dias, Magno Schuch, Moisés de Souza e Leticia Dias; Produção & Técnica: Elias da Rosa; Comunicação Oficial: Ursula Schilling; Patrocínio: Arôme de Capelin, Parque do Caracol. Realização: Cia Lisi Berti; Ingressos: no link da bio.


“A CIDADE QUER TEATRO”, AFIRMA LISIANE BERTI

Durante cinco dias, alunos dos cursos de Montagem Teatral e Musical ocuparam o palco (foto à direita) em Canela para apresentar ao público os espetáculos desenvolvidos ao longo da formação. A programação reuniu diferentes montagens, envolveu 72 alunos somente no curso de teatro e levou mais de mil pessoas à plateia. Para a diretora e atriz Lisiane Berti, a resposta mostrou a disposição de artistas e público para retomar uma relação mais intensa com o teatro na cidade. “Minha impressão é de uma enorme satisfação e, principalmente, de um sentimento de que o teatro realmente renasceu”, avalia ela “A cidade quer teatro!”, acrescenta. A participação ganhou ainda mais significado diante das dificuldades enfrentadas durante a programação. Houve dias de mau tempo, inclusive com granizo e, na avaliação de Lisiane, o próprio teatro apresentava condições inadequadas para receber uma agenda daquela dimensão. Ainda assim, as apresentações aconteceram e o público compareceu. Para ela, o desafio agora é transformar essa retomada em um movimento permanente.

Foto: Paula Vinhas

O próximo compromisso será a 6ª Maratona de Monólogos. Nesta edição, o Em Cena ELAS coloca as mulheres no centro das apresentações, valorizando suas histórias, vozes e interpretações. Lisiane espera casa cheia e trabalhos capazes de provocar, emocionar e surpreender o público. A experiência acumulada nas edições anteriores também revelou atores que encontraram no monólogo uma oportunidade para mostrar outras possibilidades em cena.

Lisiane lembra de alunos que chegaram tímidos ou inseguros e descobriram, diante do público, recursos que eles próprios desconheciam. Para ela, a Maratona cumpre também esse papel: desafiar intérpretes e revelar à cidade a produção teatral que existe em Canela. Ainda: “Acho que a Maratona também tem esse papel: revelar talentos, provocar artistas e mostrar para a própria cidade que tem gente fazendo teatro, com qualidade, coragem e vontade de estar em cena”.

SOZINHO DIANTE DA PLATEIA

Lisi Berti não considera que o monólogo exija necessariamente um ator mais completo, mas entende que algumas habilidades precisam ser desenvolvidas de maneira particular. Sem outro intérprete para dividir a narrativa e a energia da cena, cabe ao ator sustentar a atenção da plateia, dominar texto e ritmo e transitar por diferentes estados.

Nesse formato, explica, a relação também muda. Se em uma montagem com elenco a troca acontece entre os atores, no monólogo ela se estabelece diretamente com quem está assistindo. “O público passa a ser quase um parceiro de cena”, comenta.

Paralelamente ao trabalho de formação e às produções teatrais, Lisiane vive uma experiência diferente a convite da Sonarte. Na Ópera Anita, atua como diretora artística do elenco de atores, em uma montagem que exige integrar interpretação, música, canto, cenografia, iluminação, figurino e movimentação de palco. Para ela, é um trabalho que combina organização e precisão com sensibilidade. “A ópera é uma linguagem que reúne várias artes ao mesmo tempo. Como diretora de palco, preciso estar atenta a todas essas camadas e fazer com que elas aconteçam juntas, no tempo certo, para que a narrativa chegue ao público com clareza e emoção”, resume Lisiane.

Entre alunos que começam a descobrir o palco, atores que assumem sozinhos uma apresentação e novas produções em andamento, Lisiane identifica um cenário de renovação. Depois de ver novamente o teatro ocupado por artistas e espectadores, o objetivo, segundo ela, é fazer com que esse movimento tenha permanência. É Canela resgatando sua aptidão às artes cênicas.

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