Nas últimas duas colunas, falei sobre um problema que vem atingindo os investidores nos últimos dois anos de juros nas alturas: a ansiedade de ver uma carteira montada para o longo prazo perder, no curto prazo, para qualquer fundo “mequetrefe” do bancão.
Como já falei aqui, meu papel como planejador financeiro é fazer com que, no meio de toda essa turbulência, o cliente mantenha a calma e siga o plano definido, entendendo que essa fase vai passar e que, no futuro, colheremos os frutos das decisões tomadas hoje.
Mas o excesso de informação, assunto da última coluna, gera uma ansiedade descomunal. Um imediatismo sem tamanho e um medo constante do que o futuro pode trazer. Já perdi as contas de quantas pessoas vi presas em jaulas que elas mesmas construíram, enquanto a chave está no bolso delas.
Tenho tirado algumas horas da minha semana para ter conversas, do meu ponto de vista, libertadoras com os clientes. Pessoas que muitas vezes têm bons salários, construíram um patrimônio respeitável, conseguem investir valores todos os meses e, ainda assim, continuam sofrendo com o curto prazismo.
Então faço perguntas simples: “Onde você está hoje e aonde quer chegar? Quanto esforço realmente falta para isso?”
Muitas vezes, a resposta é um silêncio de quem nunca parou para fazer essa conta.
E é justamente aí que entra uma das partes mais importantes do meu trabalho: o planejamento financeiro. Essa talvez seja a conta mais importante que existe. Mais importante do que escolher qual ação comprar, qual CDB rende mais ou se a Selic vai subir ou cair.
É a conta que mostra não apenas onde você quer chegar, mas principalmente onde você já chegou. E, muitas vezes, essa distância é muito menor do que imaginamos.
Em muitos casos, o dinheiro que a pessoa já acumulou comporta exatamente a vida que ela diz querer viver, ou pelo menos boa parte dela. Ela já chegou lá. Em outros, ainda não chegou, mas o caminho já está muito bem trilhado. O problema é que ela não sabe disso.
E, por não saber, continua estressada com o curto prazo, preocupada com cada oscilação da carteira, se privando de coisas que gosta e adiando a vida, como se ainda estivesse muito distante do objetivo. Isso acontece com frequência quando o planejamento financeiro é realizado.
A conta que deveria ser ensinada nas escolas é relativamente simples: liberdade financeira não é apenas o tamanho do seu patrimônio. É o quanto esse patrimônio rende acima da inflação, o famoso juro real, comparado com o quanto você gasta.
Se suas retiradas cabem dentro do juro real, o dinheiro pode nunca acabar: você vive dos frutos sem “comer a árvore”. Se gasta mais do que isso, está “comendo a árvore”, e é questão de tempo até ela não dar mais frutos.
Por isso gosto de traçar dois planos: o do “dinheiro infinito”, em que não comemos a árvore, e o “Morra sem nada”, inspirado no livro de mesmo título de Bill Perkins, em que comemos a árvore de forma planejada ao longo do tempo, aproveitando ao máximo o esforço feito durante a vida para acumular aquele patrimônio.
No final, quem decide é o cliente.
Muitas vezes ele não precisa de mais dinheiro, nem se estressar tanto com o andamento da carteira. Precisa apenas visualizar essa conta. Saber quanto já acumulou, quanto ainda precisa acumular e, principalmente, perceber que o caminho já percorrido pode ser muito maior do que imaginava.
A liberdade dele pode estar ali o tempo todo, escondida atrás de uma pergunta que ele nunca tinha feito.
Isso é mais comum do que se imagina. Pessoas brilhantes, profissionais e empresários de sucesso que cuidam do próprio negócio, mas nunca rodaram a planilha da própria vida financeira.
É a conta mais barata que existe. Pode mudar o jeito de aproveitar o que lhe resta de vida. Não saber o resultado dessa conta pode custar muito caro.




