Nelson Rodrigues criou uma expressão que atravessou décadas: a “síndrome de vira-latas”. A expressão surgiu após a derrota da seleção brasileira de futebol para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã. Para ele, a perda do título não ocorreu apenas por fatores técnicos, mas porque os próprios jogadores e a torcida brasileira entraram em campo sentindo-se inferiores aos europeus. O termo ganhou vida própria, como costuma acontecer com as palavras que encontram o caminho da boca alheia.
Canela, como tantas cidades, também parece atravessar esses dias de palavras aceleradas. Há uma inquietação no ar, nos grupos de whatsapp pessoas opinam, questionam, defendem, atacam, interpretam. E isso, em si, não é necessariamente ruim, afinal uma cidade viva precisa conversar. A crítica é parte da vida pública, o questionamento é saudável, a discordância é necessária. O problema começa quando toda crítica passa a ser tratada como ofensa e toda discordância como inimigo.
Talvez seja aí que devêssemos lembrar da origem daquela expressão de Nelson Rodrigues, para pensar sobre o que fazemos com as palavras que herdamos. Porque existe uma diferença entre utilizar uma expressão para provocar uma reflexão e utilizá-la para diminuir alguém. A palavra pode ser a mesma. A intenção, não. Somos responsáveis pelo que falamos (deveríamos ser), especialmente quando falamos em público, diante de muitas pessoas ou ocupando um lugar de autoridade. Quanto mais alto o lugar de onde vem a voz, mais longe ela chega.
Uma frase dita numa mesa pode morrer entre quatro paredes. A mesma frase, dita de um púlpito, de um microfone ou de uma posição de autoridade, pode ganhar pernas, braços e uma vida própria. O problema é que as palavras, depois de lançadas, não aceitam muito bem o arrependimento, não há botão de desfazer. Por isso a elegância continue sendo uma qualidade tão subestimada. Elegância não é concordar com todo mundo, não é abrir mão das convicções. É saber que é possível responder sem humilhar, compreender que uma crítica não precisa ser uma agressão.
No fim, quem sabe, exista uma síndrome muito mais comum do que a dos vira-latas, a síndrome de acreditar que toda palavra que sai da nossa boca continua sendo nossa. Uma ilusão! Não continua. Depois que é dita, a palavra ganha o mundo. E nesse mundo atual todos nós estamos precisando urgentemente reaprender a ouvir, antes de responder, de acusar e de transformar uma pergunta em ataque e uma discordância em guerra.
Nelson Rodrigues conhecia como poucos a tragédia humana, provavelmente dissesse hoje que o problema nunca foi ser “vira-lata”, há vira-latas de uma dignidade admirável e cães de pedigree capazes de morder a própria sombra. O problema está naquilo que fazemos quando recebemos uma voz, um microfone ou simplesmente um grupo de WhatsApp. Que mundo estamos ajudando a construir com as palavras que escolhemos dizer?





