Chega um momento em que as vidas delas adquirem mais um significado. Podem ser, já, mulheres felizes, mas se descobrirão radiantes. Podem estar inconscientemente buscando um novo sentido, e o descobrem pulsando em seus ventres. Podem receber a dádiva de se tornarem mães de maneira planejada ou pelo acaso, com ou sem companheiros ou companheiras para ajudá-las na criação. Podem gerar um filho em um lar repleto de amor e conforto ou em um ambiente não tão favorável. Podem, muitas, desafiar o calendário biológico e ver a barriga crescer tempos após o período da vida em que teriam uma gestação mais segura. Podem, se o passar dos anos ou o corpo não permitirem, praticar o ato sublime de adotar. Tudo elas podem, quando são mães. Aquele misto de ternura e força, aquela mão que acaricia mas se torna uma garra de leoa para proteger o filhote. Nas páginas a seguir, exemplos de mulheres que, após a maternidade, passaram a dividir-se em muitas, a nunca mais serem as mesmas.
LIÇÃO DE AMOR ATÍPICA
Liz Pimentel é uma paulista de Itapira que realizou, com o atual companheiro, o sonho de morar em Canela, depois de residir em diversos lugares do Brasil. É pedagoga, bacharel em Administração e Enfermagem, hoje trabalhando na saúde pública após aprovada em concurso. A história de Lizena é pontuada por dificuldades, desafios, provações até, mas também por alegrias de uma mulher vencedora. Escreveu uma bela obra, Se os olhos falam, em que conta na terceira pessoa muito do que viveu e como sobreviveu à violência doméstica e ao relacionamento abusivo. Uma autora que cria um livro que ajuda muitas mulheres a abrirem os olhos para o que realmente estão sofrendo entre quatro paredes e a darem a volta por cima, só podia ter o perfil e a força para criar um encantador casal de filhos atípicos.

Carolina, Liz e Felipe
Foto: Claiton Saul
Ela própria uma pessoa que se descobriu autista após muito tempo, Liz e o esposo Antonio chegaram em Canela trazendo Felipe e Carolina Lúcia, filhos do primeiro relacionamento dela. Felipe, o primogênito de oito anos, é autista com paralisia cerebral. Já Carolina é uma menina que demanda ainda mais cuidados, pois além da paralisia cerebral tem microcefalia. Os problemas de Carol, nascida após apenas 29 semanas de gestação, decorreram de uma infecção hospitalar, contraída durante o período na UTI neonatal, que a levou a uma parada cardíaca. “O futuro deles vai sempre depender de nós, pois as suas cabecinhas serão, de certa forma, sempre de crianças” diz Liz Pimentel. Mas nada que o carinho e uma dose de organização no dia a dia não façam tornar absolutamente normal. Cadeirantes, Felipe e Carolina são conduzidos, segundo os pais, com bastante dificuldade pelas calçadas de Canela, ainda muito precárias no que se refere à acessibilidade. Problema que aos olhos da comunidade passa despercebido, o deslocamento trabalhoso não impede a rotina das crianças, que frequentam a Escola Especial Rodolfo Schlieper e fazem terapias na Apae de Canela (também na de Gramado). “A gente até entende que algumas pessoas sintam por eles uma certa “pena” ao vê-los, mas a verdade é que a gente os aceita e ama como são, gostamos que os vejam e temos muito orgulho deles”. Se Liz é considerada, também, uma mãe atípica, muito mais que pelo autismo, que seja pelo amor incondicional que dedica a quem vive com ela.

A família completa
Foto: Arquivo Pessoal
ENTRE A LAVOURA E SER MÃE, UMA HISTÓRIA DE GERAÇÕES
Criada no mesmo lugar onde hoje cria a própria filha, a agricultora Patrícia Macedo de Oliveira, 40 anos, carrega na rotina do interior uma herança construída ao longo de três gerações de mulheres da família. A avó viveu nos Bugres, localidade em Canela, a mãe nasceu e cresceu lá e agora ela mantém viva uma relação com a terra que mistura trabalho, memória afetiva e tradição familiar. Para Patrícia, existe um significado especial em ver a filha Mel Oliveira Port crescer cercada pelas mesmas paisagens, costumes e experiências que marcaram sua infância. “É uma alegria e um orgulho muito grande poder criar minha filha no interior, no mesmo local em que eu vivi uma infância tão boa”, afirma ela. As lembranças estão diretamente ligadas à vida na lavoura. Quando pequena, acompanhava diariamente os pais no trabalho, ao lado da irmã. Enquanto os adultos cuidavam da produção, as meninas improvisavam brincadeiras em acampamentos montados perto da plantação.

Patrícia tem apoio familiar para criar a filha Mel
Foto: Arquivo Pessoal
“Guardo lembranças maravilhosas das brincadeiras e das artes que aprontávamos”, recorda Patrícia. Outra figura marcante foi a avó, que mesmo já idosa mantinha uma pequena lavoura próxima de casa. Plantava diferentes culturas e demonstrava orgulho pelo cuidado com a terra. Apesar das mudanças trazidas pelo tempo, Patrícia acredita que parte da essência da vida no interior permanece a mesma. Ela cita o sossego, a tranquilidade e o prazer de colher o próprio alimento como valores que continuam presentes no cotidiano das famílias agricultoras. Ao mesmo tempo, reconhece as transformações que facilitaram a vida no campo ao longo das gerações. “Hoje temos energia elétrica, acesso à internet, carro para deslocamento e para escoar a produção. a vida melhorou bastante.”
Conciliar maternidade, trabalho e os cuidados da casa seguem sendo um dos grandes desafios. Patrícia afirma que a rede de apoio da família faz diferença para manter a rotina organizada, especialmente com o apoio do esposo e dos pais. Entre os ensinamentos herdados da mãe e da avó, ela destaca a fé, a dedicação ao trabalho e a esperança no futuro. “Ter fé sempre, trabalhar com dedicação e acreditar que o melhor ainda está por vir.” Na visão dela, as mulheres têm papel central na preservação das tradições do interior. São elas que compartilham receitas, experiências, saberes e hábitos que atravessam gerações dentro das famílias. “A mulher se desdobra entre o trabalho, o amor e o cuidado com a família. Isso aparece no cheiro da comida, no cuidado com a casa, nas flores do pátio e na forma de acolher as pessoas”, resume Patrícia.
ELAS ENSINAM PELO EXEMPLO
A MATERNIDADE QUE TRANSFORMOU O JEITO DE CUIDAR
Renata Rossato Sarmento Issi, 40 anos, técnica em enfermagem, pós-graduada em Saúde Estética e atualmente no último mês da graduação em enfermagem, divide a rotina entre os atendimentos na área da saúde, a criação das três filhas, os estudos e o envolvimento em ações sociais. Para ela, foi justamente a maternidade que mudou a forma como passou a enxergar as pessoas e o próprio trabalho. A rotina intensa poderia facilmente transformar os dias em uma sequência automática de compromissos, mas Renata diz que encontrou na maternidade um aprendizado constante sobre empatia, acolhimento e respeito às diferenças. Com apoio da família e do marido, conseguiu construir uma dinâmica em que as filhas, Catarina e Aurora, também participam das ações solidárias promovidas por ela. “Os envolvimentos em causas sociais normalmente incluem elas. Elas são bem participativas e já têm esse espírito de solidariedade, de dividir”, conta Renata.

Filhas acompanham Renata nas suas ações sociais
Foto: Arquivo Pessoal
Segundo ela, pequenos gestos do cotidiano mostram que os ensinamentos acabam sendo absorvidos pelas meninas. Frequentemente, elas pedem para ajudar colegas da escola com materiais, roupas ou outras necessidades. Na profissão, a maternidade também trouxe mudanças profundas. Renata conta que se tornou mais sensível e mais humana diante das histórias que encontra nos atendimentos de Emergência. Aprendeu, principalmente, a evitar julgamentos precipitados. “Eu percebi que me tornei muito mais sensível, com um olhar acolhedor, de não julgar as pessoas”, afirma.
Uma experiência vivida ainda no período em que trabalhava na Emergência hospitalar marcou definitivamente sua trajetória. Durante o atendimento a uma criança com ferimentos graves, a equipe suspeitou inicialmente de agressão familiar. Depois, descobriram que os pais tinham limitações intelectuais e que a criança havia sofrido um acidente após cair de um cavalo na zona rural de Canela. Renata lembra que saiu daquela situação profundamente abalada por ter julgado a família antes de compreender a realidade completa. Desde então, transformou o episódio em um aprendizado pessoal e profissional. “Eu me senti extremamente envergonhada por ter pensado mal daquele pai e daquela mãe. Prometi que nunca mais iria julgar alguém em qualquer situação”, relata. Hoje, afirma que tenta transmitir às filhas aquilo que considera essencial na convivência humana: respeito, empatia e ausência de preconceitos. “Cada pessoa tem sua história, suas dores e sua realidade. A gente não precisa concordar com tudo, mas precisa respeitar”, opina Renata. Entre plantões, estudos, maternidade e ações sociais, ela segue construindo uma rotina em que o cuidado ultrapassa a profissão e passa a fazer parte da forma como escolheu viver e educar as filhas.
PARA FILHOS ESPECIAIS, MÃES ESPECIAIS
A gramadense Daiane Mewius é protagonista de uma história tão cheia de dificuldades quanto de amor. Sozinha mas com Deus, ela criou as filhas Gabrielle e Luana e hoje dedica-se de maneira ainda mais integral ao filho Gean, de oito anos, por se tratar de uma criança especial. Desde o nascimento de Gean, há oito anos, autista, portador de Síndrome de Down e com problema no coração, a vida dessa mãe, na localidade de Linha Nova, passou a ser diferente. Ajudada (como podiam elas) pelas filhas, o cotidiano passou a ser feito de consultas, exames, agulhas, medicações e internações. “Ver o Gean, tão pequeno, sendo furado tantas vezes, enfrentando dores que nenhuma criança deveria enfrentar, foi uma das maiores dores da minha vida como mãe. Cada internação levava junto um pedaço do meu coração”, diz Daiane.

Daiane e Gean
Foto: Arquivo Pessoal
Também foi muito difícil para ela ter quer ficar longe das meninas em vários momentos. Muitas vezes precisou estar no hospital com o menino enquanto seu coração pedia que ela estivesse abraçando também Gabriela (hoje com 14 anos) e a Luana (20). Descobrir que Gean tinha um problema no coração foi mais um choque para a família. Vieram novos medos, novas preocupações e mais desafios. As medicações eram caras, os tratamentos cansativos e os dias difíceis pareciam intermináveis. O preconceito entrou na lista dos percalços a superar, com os abomináveis bullyings e julgamentos frios de um ser inocente. Daiane aprendeu a ser forte, para proteger, para ensinar, para lutar e para mostrar ao menino que ele nunca será menor por ser diferente. “O Gean nos ensinou sobre coragem, sobre alegria nas pequenas coisas, sobre amor verdadeiro e sobre nunca desistir. Cada sorriso dele, depois de uma fase difícil, cada conquista, cada abraço apertado faz tudo valer a pena” (Daiane).
Segundo Daiane, ser mãe atípica é aprender a enxergar o mundo com outros olhos todos os dias. Entre terapias, medos, cansaço e dúvidas, existe também um amor que não conhece limites. Um amor paciente, corajoso e cheio de esperança. Ser mãe atípica não define apenas uma condição. Define coragem, dedicação e um amor que supera qualquer barreira. Porque, por trás de cada criança especial, existe uma mãe extraordinária fazendo o impossível todos os dias com amor no coração.
APÓS SEIS FILHOS, ELA TEM MUITA VIDA PELA FRENTE
Ser mãe de seis filhos (cinco mulheres e um homem), começando aos dezesseis, não só apressou o amadurecimento da canelense Nádia Diogo Cardoso como desenvolveu, nessa mulher valente, o amor profundo que a faz manter-se ligada a todos aqueles que gerou. Nádia separou-se do marido, pai de todos os seis, após o nascimento da última da prole, Vitória. Assumiu integralmente a criação da família e orgulha-se, não só pela índole dos seus, como pela maneira como todos batalharam para progredir nos estudos e nas suas profissões. Larissa é bióloga, com Mestrado em Portugal e hoje mora com marido e filha na Espanha. Graziela é professora formada em Geografia, assim como Laura é professora de Ciências. Marilídia, a primogênita, é motorista de van escolar e Rafael, que cursa faculdade a distância, também transporta alunos, da rede municipal.

Foto: Arquivo Pessoal
Após a separação, Nádia, que era do lar, viu-se na condição de ter que buscar lugar no mercado de trabalho. Nada impossível para uma mulher tão ativa, que chegou a ter os seis filhos sob o mesmo teto. Boa cozinheira em casa, teve esse talento aproveitado em um restaurante localizado entre Canela e Gramado, onde permaneceu por dez anos (e onde é chamada às vezes para fazer um extra). Nádia também terminou o Ensino Médio (então chamado Segundo Grau). Diferentemente das outras mães retratadas nessas páginas, ela hoje, morando só, carrega o orgulho de ter bem encaminhado as filhas e o filho. Acompanha uma menina à tarde, filha da amiga Aneline e se dá ao luxo de passar três meses do ano com Larissa, na Europa. Merecido prêmio para quem sempre pensou primeiro nos filhos.

Nádia (bem ao centro) na formatura da filha Graziela
Foto: Arquivo Pessoal









