Há muitos anos, quando os termos em inglês não haviam invadido a nossa língua e nosso cotidiano, chamávamos somente de zombaria o ato de importunar sistematicamente uma pessoa, a ponto de causar sofrimento e levar à depressão. Ou chamávamos de comportamento agressivo o ato de exercer poder sobre alguém em situação física ou emocional desfavorável, gerando até humilhação. O mais “forte” (que pode ser um grupo) se sobrepondo ao mais “fraco”, em uma clara demonstração de sadismo, é fato que sempre existiu, muito antes de ser rebatizado com o anglicismo bullying.

Os mais atingidos por essas práticas, com efeitos muito prejudiciais, geralmente foram os adolescentes, e esse público não mudou. Juventude sem experiência, personalidades ainda em afirmação, imaturidade que não permite buscar instrumentos de revide, insegurança não percebida pelos pais, essas são apenas algumas das causas para um problema que agora aumentou de proporções pelo agravante de o bullying ser praticado também no meio digital. Muito além da escola, a opressão se multiplica nas redes sociais, por meio do chamado cyberbullying, mostrando que a Internet não entrou nas nossas vidas só para o bem.
Em Canela o bullying, vindo de onde for, já é tema discutido e combatido há um certo tempo, pois os sintomas, naqueles que o sofrem, tem sido cada vez mais detectados nas escolas, basta perguntar às direções e corpos docentes. Da mesma forma, nos consultórios de psicólogos e centros de assistência social. Também são dignas de aplausos as formas de ajuda originadas por grupos de profissionais que unem diferentes expertises em prol do combate a mais esse mal acentuado pelos “tempos conectados” em que vivemos.
O Nova Época exalta a iniciativa de um grupo que, por meio de quatro manifestações artísticas – teatro, dança, escrita criativa e desenho/artes visuais – começará em breve a levar para escolas um projeto de prevenção e enfrentamento ao bullying e ao cyberbullying com estudantes do Ensino Médio. “Like-se. Curta a si mesmo: arte e diálogo contra o bullying e cyberbuylling” é o nome da atividade que vai despertar a atenção de alunos na Escola Estadual de Educação Básica Neusa Mari Pacheco (CIEP), no bairro Canelinha e na Escola Estadual de Ensino Médio Danton Corrêa da Silva, no Centro, sob a coordenação da atriz e diretora Lisiane Berti.
O projeto Like-se prevê oficinas realizadas nas escolas em cada uma das quatro citadas áreas, além de rodas de conversa mediadas por psicóloga e estudantes de Psicologia. O processo culmina na produção de versão online de uma cartilha de prevenção e na realização de um concurso artístico estudantil de combate ao bullying e cyberbullying, contemplando as quatro linguagens trabalhadas.
A proposta integra expressão, informação e acolhimento, com o objetivo de fortalecer a autoimagem, a autovalorização e a convivência respeitosa no ambiente escolar e digital, pois bullying e o cyberbullying impactam negativamente o desenvolvimento socioemocional, a saúde mental, o rendimento escolar e o ambiente digital intensifica a violência, estendendo-a para além da escola.

O GRUPO que vai conduzir o “Like-se”
Foto: Paulo Fulcher
QUEM LEVARÁ A DISCUSSÃO PARA AS ESCOLAS
A execução do projeto se dará, na primeira fase (abril), na Escola Danton Corrêa, com as oficinas artísticas de Escrita Criativa com Lala Lodéa, de Teatro com Charle Oliveira e Rita Reis, de Dança com Lígia Fagundes e de Artes Visuais com o ilustrador, muralista, tatuador e designer João Pedro Bohrer, o Zota Pe. Serão dois dias de oficinas com as turmas, também com uma roda de conversa mediada pela psicóloga Stefânia Farofa de Moura.
A coordenação geral é da atriz e diretora Lisi Berti e o produtor é Pedro Campos.
LISIANE BERTI, DRAMATURGA
“Levar o projeto “Like-se: Curta a si mesmo” para dentro das escolas é, antes de tudo, abrir espaço para escuta e reconhecimento. A arte tem uma potência única de tocar aquilo que muitas vezes os alunos não conseguem dizer diretamente, ela cria pontes, dá forma às emoções e possibilita que cada jovem se veja e se compreenda no coletivo.
Quando aliamos práticas artísticas a rodas de conversa mediadas por uma psicóloga, ampliamos o espaço de acolhimento com responsabilidade e profundidade. Não se trata apenas de informar sobre bullying e cyberbullying, mas de provocar reflexão, empatia e consciência sobre o impacto das nossas ações no outro. Em um tempo em que as relações também acontecem no ambiente digital, é urgente criar espaços seguros onde os jovens possam dialogar, se fortalecer e desenvolver um olhar mais gentil sobre si e sobre o outro.”
STEFÂNIA MOURA, PSICÓLOGA
“Fiquei muito feliz em fazer parte do projeto Like-se, pois o tema é importantíssimo, e infelizmente o bullying e cyberbullying ainda estão presentes na comunidade escolar, em todos os lugares. Os impactos do bullying e cyberbullying são extremos, então o objetivo é “psicoeducar” os alunos e a equipe escolar diante desse fenômeno prejudicial. A escola é para ser um ambiente acolhedor, de transformações positivas na vida dos sujeitos. E não um ambiente traumático.
Alguns assuntos que serão debatidos nas rodas: *Recursos para que as escolas consigam manejar cada caso adequadamente. *Como identificar rapidamente tal crime. *O que consta no ordenamento jurídico atualmente. * Como buscar esses direitos? isso vai ajudar de verdade? Afinal, quais são esses direitos? Quais os deveres frente a isso tudo? Conhecimento é tudo, então é nossa obrigação conscientizar e fortalecer as escolas e os jovens frente a esses desafios.”
RITA REIS, ATRIZ
“A proposta da oficina é trabalhar o teatro como espaço para experimentar as máscaras sociais presentes no ambiente escolar. Por meio de jogos de olhar, intenção e construção de personagem, os alunos exploram comportamentos do dia a dia e refletem sobre como se posicionam diante do outro. A vivência culmina na criação de cenas curtas inspiradas em situações de bullying, abordando o conflito e possibilidades de transformação.
Minha contribuição parte da compreensão de que o pertencimento começa no próprio sujeito. Ao olhar para si com mais presença e segurança, o jovem amplia sua capacidade de escolha e de relação com o outro, encontrando no teatro um espaço sensível para experimentar novas formas de estar no mundo.”
ZOTA PE, DESIGNER
“Minha oficina visa mostrar uma ferramenta não só de combate contra o bullying mas de autoconhecimento e autoestruturamento. Os alunos serão apresentados a diferentes tipos de estilos de artes gráficas, indo das charges e tirinhas até os memes atuais, irão construir usando como base suas referências pessoais que vem desde textos literários, ditos populares, músicas, etc.
O objetivo não é induzi-los a fazer uma produção rebuscada nem cheia de técnica, é mostrar que é um caminho onde podemos organizar pensamentos e conhecimentos para enriquecer nossas estruturas emocionais.”
LÍGIA FAGUNDES, DANÇARINA
“Participar do projeto “Like-se, curta-se a si mesmo” é, para mim, uma oportunidade de usar a dança como ferramenta de escuta, expressão e transformação dentro do ambiente escolar. Ao abordar o bullying, estamos falando de relações, de como os corpos convivem, se aproximam ou se afastam — e é justamente nesse território que a dança se torna uma linguagem muito potente.
Na oficina “Corpo, espaço e pertencimento”, convido os alunos a vivenciarem, através do movimento, diferentes sensações presentes no cotidiano escolar, como exclusão, tensão, aproximação e acolhimento. A proposta não é apenas falar sobre esses temas, mas senti-los no corpo, reconhecê-los e, a partir disso, refletir sobre suas próprias atitudes e relações com o outro. Acredito que quando o estudante se percebe no corpo — ocupando um espaço, sendo visto e respeitado — ele também começa a desenvolver empatia. E é nesse processo que a dança contribui não só para a formação artística, mas para a formação humana. Fazer parte desse projeto é reafirmar o papel da arte como um caminho possível para construir ambientes mais sensíveis, conscientes e acolhedores dentro das escolas.”









