A Festa Colonial de Canela, que chega à 32ª edição, começou em 1993 com pouca estrutura, muita improvisação e um objetivo bem definido: criar uma oportunidade de renda para as famílias do interior. Na primeira edição, a chuva alagou o salão e os próprios produtores precisaram retirar a água com baldes e formas de pão. Há duas semanas, o Jornal Nova Época recuperou a trajetória da Festa Colonial desde aquela primeiro evento. Agora, voltamos a essa história por outro caminho, pela memória de quem participou das decisões, colocou a mão no trabalho e viu a iniciativa crescer e se transformar na vida das famílias rurais. Para compreender esse processo, porém, é preciso recuar um pouco mais. Durante a década de 1980, comunidades do interior de Canela já promoviam festas dedicadas aos colonos. Registros reunidos pelo historiador Pedro Oliveira, no livro Do Campestre à Cidade das Hortênsias, apontam eventos na Linha São Paulo, em 1984; Linha Amoreiras, em 1986; Linha Chapadão, em 1987; e Canastra Alta, em 1988.

FOTO de um estande de vendas da segunda Festa Colonial
Eram festas realizadas nas próprias comunidades, com feira do agricultor, exposições, leilão de produtos agrícolas, gastronomia, música e dança. Um cartaz de 1988 anuncia, inclusive, a VII Festa do Colono e a VII Feira do Agricultor, mostrando que essa movimentação vinha de anos anteriores. Em 1993, essas experiências comunitárias serviram de base para um novo formato, o de reunir diferentes localidades em um evento municipal, aproximando a produção do interior do público da cidade e do movimento turístico de Canela.

REPRODUÇÃO do cartaz da 7ª Festa do Colono da Linha Canastra Alta, em 1988
UMA OPORTUNIDADE PARA QUEM VIVIA DO CAMPO
Uma das pessoas diretamente envolvidas nesse processo foi Maria Madalena Capeletti Casola, extensionista rural e ex-chefe do escritório municipal da Emater/RS-Ascar em Canela. Durante muitos anos, ela acompanhou de perto famílias do interior em ações de organização, produção, capacitação e geração de renda. Também participou da articulação que deu origem à Festa Colonial de 1993. “A Festa Colonial surgiu para integrar as famílias rurais ao turismo local e, principalmente, como uma fonte de renda”, recorda ela. Foi com esse propósito que representantes de diferentes instituições e comunidades se reuniram no escritório da Emater. Participaram Reni Roque Oss, Deoni Casola e Maria Madalena Casola, pela Emater; Pedro Góis Viezzer, então secretário municipal de Agricultura e Desenvolvimento Econômico; Asilko Herrmann, representando o Sindicato dos Trabalhadores Rurais; além de integrantes das comunidades de Amoreiras, Bugres, Morro Calçado, Linha São Paulo, Linha São João, Chapadão e Quilombo. A ideia era criar um canal de comercialização para aquilo que as famílias já produziam nas propriedades.
A partir daquele movimento, os agricultores passaram a se organizar para ampliar a oferta. Geleias, derivados de cana-de-açúcar, pães, cucas, bolachas e embutidos começaram a ganhar espaço. Receitas guardadas dentro das famílias foram recuperadas. Nos fornos, além dos pães, eram preparadas galinhas recheadas e carnes, principalmente suínas. A sopa de agnolini e outros pratos da comida colonial também chegaram às mesas. “Os fornos não assavam apenas pães. Tinha galinha recheada, carne suína, sopa e a comida colonial sendo servida”, lembra Maria Madalena. Foi assim que o projeto começou a tomar forma no antigo pavilhão da Sonelli.
POUCO DINHEIRO E MUITA IMPROVISAÇÃO
A estrutura disponível estava longe da atual. O antigo pavilhão precisou ser preparado para receber produtores e visitantes. Pedro Góis Viezzer, que representava o Executivo municipal naquele processo, lembra que os recursos eram limitados. “A Secretaria tinha uma verba muito pequena. Conseguimos alguns patrocínios e tocamos o barco”, conta Viezzer. Outro desafio era convencer os próprios agricultores de que valia a pena participar. Eles estavam acostumados a plantar, criar animais e produzir alimentos, mas vender diretamente ao público em um evento era uma experiência nova para muitos. “Foi difícil convencer alguns agricultores a participar, mas eles foram convencidos e saíram contentes com o resultado, inclusive financeiro”, afirma Viezzer. A experiência de festas realizadas em outros municípios também serviu como referência. “A ideia veio de outros lugares que já realizavam a sua Festa Colonial. E por que Canela não fazia a sua?”, relembra ele. Além da estrutura e da busca por recursos, houve um trabalho de preparação das famílias para atender o público. Nesse processo, Pedro destaca a participação da esposa, Clélia Viezzer.“Ela fazia palestras para o pessoal sobre limpeza, higiene, modo de servir e apresentação”, recorda ele. A primeira edição da Festa Colonial no formato iniciado em 1993 foi realizada nos dias 27 e 28 de novembro e 3, 4 e 5 de dezembro. O cartaz daquele ano anunciava exposição de produtos agrícolas, artesanato e pequenos animais.
QUANDO AS FAMÍLIAS ENTRARAM NA FESTA
Entre os produtores que aceitaram participar estava a família de Luciana Livi Schmitt. Na época, ela e o marido eram jovens, tinham uma filha de três anos e viviam da produção de batata, cebola, feijão e milho. Também faziam alguns queijos para vender durante a semana e complementar a renda. Na Festa, o trabalho era coletivo. Pais, irmãos, marido e outros familiares dividiam as tarefas. “No começo, a gente participava em família. Não era cada um por si. Era todo mundo junto, trabalhando”, conta Luciana. Uns cuidavam dos fornos. Outros preparavam pães, cucas, pastéis e refeições. Não havia a estrutura individualizada que hoje caracteriza os espaços de comercialização. E então veio a chuva. “Choveu, o salão alagou e a gente tirava água com balde e até com forma de pão. Mas, por ser o primeiro ano, foi um sucesso”, recorda Luciana.

DELÍCIAS do interior são protagonistas durante o evento
Foto: Divulgação
Financeiramente, o resultado inicial ainda era modesto, mas representava uma renda que antes não existia. “No início, a renda era pequena, mas ajudava. A gente já pensava ‘no ano que vem tem a Festa Colonial e vai entrar um dinheirinho’”. Com os anos, a participação das famílias se transformou. Algumas atividades se individualizaram, novos produtos surgiram e parte daquela produção doméstica ganhou estrutura comercial.
No caso de Luciana, a Festa também esteve ligada ao início de uma nova etapa. “Foi através da Festa Colonial que eu comecei a fazer a minha agroindústria”, afirma ela. Hoje, a Derivados da Serra trabalha com massas frescas e caseiras e outros produtos. Na Festa Colonial, a família também comercializa bolinhos de batata recheados e batata frita. Luciana não esconde que permanecer na agricultura, décadas atrás, exigiu insistência. “Eu fiquei na agricultura de teimosa, porque naquela época a gente não tinha expectativa nem as oportunidades que existem hoje”, afirma.
A CULTURA TAMBÉM GANHOU ESPAÇO
A movimentação criada em torno da Festa também estimulou iniciativas culturais nas comunidades. Naquele período, um desafio lançado pelo então prefeito Günther Siegfried Schlieper mobilizou a Emater, as secretarias de Educação e a de Desenvolvimento para a formação de um grupo folclórico alemão em Canela. Professores da Escola Balduíno Boelter e integrantes da comunidade da Linha São Paulo aceitaram a proposta. Nascia o grupo folclórico Balduíno Boelter, com orientação de um instrutor chamado Dieter, cedido pela Casa da Juventude de Gramado. As roupas femininas foram confeccionadas pela agricultora Ivanir Livi, com participação importante de Clélia Viezzer.

GRUPO Folclórico Balduíno Boelter da Linha São Paulo
Foto: Divulgação
“Durante a primeira Festa Colonial foi formado um grupo folclórico lá na Linha São Paulo. Ele se apresentou diversas vezes na Festa e permaneceu por alguns anos em atividade”, relembra Pedro Góis. O grupo acrescentava à Festa uma representação cultural construída dentro das próprias comunidades rurais. Uma festa muito diferente daquela de 1993.
HOJE, A ESTRUTURA É OUTRA
A 32ª edição será realizada de 17 de julho a 2 de agosto, com 17 dias de programação na Praça João Corrêa e em outros espaços do Centro. A programação reúne shows, apresentações culturais, teatro, desfiles, Jogos Coloniais, feira de artesanato e atividades distribuídas ao longo da semana. Entre as novidades estão o espetáculo Retratos e o quadro Allegria Della Colonia. O desfile Raízes da Terra, as apresentações folclóricas e a programação musical também integram a edição. A estrutura cresceu. O público se multiplicou. Os produtos se diversificaram. Agroindústrias passaram a ocupar espaços que, no começo, eram divididos por famílias inteiras. Mas a geração de renda, motivo que levou aquelas pessoas a sentarem em torno de uma mesa em 1993, continua presente.
A GERAÇÃO QUE FICOU
Essa continuidade pode ser encontrada em muitas das famílias que atravessaram as diferentes fases da Festa Colonial. Filhos e netos passaram a trabalhar ao lado de quem esteve nas primeiras edições. Alguns assumiram propriedades. Outros deram sequência às agroindústrias ou encontraram novas formas de permanecer no campo. Na família Livi Schmitt, essa história é representada por Vanessa Livi Schmitt. Ela tinha três anos na primeira edição. “Participar da Festa Colonial faz parte da minha história desde a infância. Eu cresci acompanhando a minha mãe e vendo de perto o trabalho da nossa família”, conta Vanessa. Atualmente, Vanessa trabalha ao lado da mãe na agroindústria Derivados da Serra e também atua na lavoura. A escolha pelo campo acabou envolvendo toda a própria família. “Meu esposo deixou o trabalho que tinha na cidade para trabalhar comigo no campo e na agroindústria. Foi uma decisão importante para a nossa família, ”afirma Vanessa.

MÃE E FILHA: Luciana e Vanessa Livi Schmitt
Foto: Divulgação
PARA VANESSA, ESSA CONTINUIDADE TEM NOME
“Para mim, sucessão rural é dar continuidade ao que recebemos da nossa família e criar condições para que as próximas gerações também possam permanecer no campo,” afirma ela. Hoje, o filho acompanha a família. Em outra época e em condições muito diferentes, ele começa a conhecer a mesma Festa que Vanessa conheceu quando tinha três anos. A trajetória dos Livi Schmitt é uma entre tantas que ajudam a contar essa história. Em muitos espaços da Festa Colonial, quem hoje está atrás do balcão cresceu vendo pais e avós ocuparem aquele mesmo lugar.
Em 1993, o desafio era criar uma oportunidade de renda para as famílias do interior. Trinta e três anos depois, parte do resultado pode ser visto na continuidade de famílias que seguem produzindo, em atividades que passaram de uma geração para outra e em jovens que ainda encontram no campo uma possibilidade de futuro. Essa permanência também beneficia Canela, porque mantém ativa a produção local, preserva conhecimentos construídos nas comunidades e sustenta uma parte importante da identidade que o município apresenta a moradores e visitantes.
PROGRAMAÇÃO:
https://canela.com.br/eventos/festa-colonial/





