Fotos: Acervo Pessoal
A navegação serviu para que se escrevesse grande parte da história do mundo. Conquistas e batalhas se deram pelo mar, tesouros foram levados, naufrágios chocaram, degradados foram exportados, canhões dispararam… tudo tendo como cenário marinheiros, corsários, piratas, pescadores, caravelas, navios de todos tipos, tamanhos e épocas. E estar a bordo também sempre significou a paz de percorrer estradas feitas de água. Por isso, em qualquer lugar que se vá, sempre tem alguém que gosta de navegar.

Luiz Ubiratan Gil é um canelense que, desde guri, tem interesse por barcos a vela. Pertence ao grupo que prefere o som do vento ao barulho do motor. Desde a época em que trabalhou no setor financeiro em Porto Alegre, na década de 1980, com o que ganhava lá começou a adquirir pequenos barcos, que levava para aprender o manejo nas praias do (lago?) Guaíba. Começou com um Laser, depois adquiriu modelos Hobie Cat, Day Sailer, Brumas (cabinados) e chegou a ter um O´Day 23. O aprendizado no Guaíba, onde participava de pequenas regatas, Bira Gil é mais um dos que tiveram (e têm) o privilégio de aprimorar na Barragem do Salto. Trazia seus barcos para cá e foi um dos fundadores do Clube Náutico do Salto, um empreendimento que envolveu esforços de um grupo de aficionados, seja de veleiros ou lanchas.

A amizade com Márcio Pinto Ribeiro fez avançar a trajetória de Bira como caçador de ventos. Ele fez parte da tripulação de Márcio, (também aviador), em duas viagens a bordo de um grande veleiro (de 58 pés), o Tuchaua 3, de Porto Alegre ao Rio de janeiro, jornadas de nove dias sem parar.

O nascimento do filho Martim, em 2002, iniciou um período em que Bira se afastou das navegadas. Mas em paixões genuínas dificilmentre se põe um ponto final, elas apenas hibernam. Dezoito anos depois, o retorno de Martim, após um período no exterior, e uma inspiradora palestra de Amyr Klink serviram para não só sacudir o navegador experiente e legalizado (Ubiratan é habilitado na Marinha como Arrais Amador), como para fazê-lo abraçar um projeto arrojado: construir seu próprio veleiro, em casa.

Sozinho, somente com Martim como ajudante. Primeiro passo: adquirir em 2020 o projeto, de um profissional gabaritado, de um bom modelo de veleiro, com cabine para abrigar quatro pessoas com conforto e tecnologia. O escolhido foi uma planta de Roberto Mesquita Barros, conhecido como Cabinho, um renomado designer naval brasileiro radicado na Austrália. Com o barco no papel, começava a luta de Bira para adquirir todos os materiais. Do compensado naval aos moitões, dos cabos às placas solares, das cunhas às velas, de Canela e de diversos locais (até da China) vieram os insumos.

Sem pressa, trabalhando somente quando estava inspirado (para não precisar refazer nada), Bira venceu o descrédito de alguns e, em quase cinco anos, construiu o Fair Play. Cada centímetro da estrutura do barco verde, de uma tonelada, com mais de seis metros de comprimento e 2,2 metros de largura foi montado e revestido no quintal de casa. Passou por vistoria, tem laudo de aprovação emitido por engenheiro naval e já está atracado, desde dezembro de 2025, no Salto. Por enquanto leva Bira, a família e amigos para velejadas curtas. Provavelmente irá um dia, no velho conhecido Guaíba, estufar as velas para ir mais longe.









