A renda fixa não é fixa… e tem risco!

Na última semana, duas grandes empresas brasileiras de setores diferentes anunciaram pedidos de recuperação extrajudicial: Raizen e Grupo Pão de Açúcar. A Raizen, empresa controlada pela Cosan e pela petroleira anglo-holandesa Shell, possui uma rede de mais de 8 mil postos de combustível no Brasil, dentre outros negócios ligados a etanol e cana de açúcar. O Grupo Pão de Açúcar, apesar de não operar no Estado do Rio Grande do Sul, é uma das maiores redes de supermercado do Brasil, com faturamento anual de mais de R$ 20 bilhões.

Pois bem, o cenário de altas taxas de juros por um período prolongado aliado a erros na condução dos negócios, fez com que o endividamento de ambas as companhias ficasse insustentável sem um aporte de capital dos sócios e/ou renegociação dos passivos com credores. A recuperação extrajudicial, diferentemente da recuperação judicial, é um processo negociado de maneira “amigável” entre devedor e credores (bancos, fundos de investimentos, pessoas físicas e jurídicas detentoras de debêntures, CRAs e CRIs), sendo mais rápido, flexível e menos oneroso. Normalmente o processo envolve o alongamento de prazos de pagamento, a redução das taxas de juros, um desconto no valor do principal e/ou a conversão da dívida em ações da empresa.

Apesar de ainda não haver detalhes sobre esses dois casos de recuperação extrajudicial, uma coisa é praticamente certa: os credores terão parte de seus ganhos diminuídos, impactando marginalmente suas carteiras de investimento. Aqui entra o trabalho do assessor ou consultor de investimentos: se a exposição a essas empresas foi bem calibrada (1-2% do portfólio, por exemplo), o ajuste será quase imperceptível e recuperado em pouco tempo pelo restante da carteira. Até porque uma boa seleção desses títulos faz com que fiquemos de fora da maior parte dos casos de empresas que apresentam problemas.

Nesse momento, alguns clientes nos questionam se vale à pena correr o risco de emprestar recursos para grandes empresas privadas, ou se não é melhor focar em títulos do governo (em teoria os mais seguros do mercado) ou emitidos por bancos, onde se conta com a garantia do FGC. Na nossa visão, podemos e devemos fazer as três coisas. O retorno excedente que ganhamos em títulos de crédito privado costuma compensar perdas muito eventuais nessa classe de ativos.

O importante, como mencionado anteriormente, é saber diversificar a carteira dos clientes em diferentes empresas, setores e indexadores (pré-fixados, atrelados ao CDI ou indexados à inflação), garantindo um retorno de médio e longo prazo sólido e com baixas flutuações nos mais variados cenários. Afinal, os ciclos econômicos no Brasil tendem a ser rápidos e de grande magnitude, portanto apostar as fichas em apenas uma estratégia não é recomendável.

Eventos como os que aconteceram na última semana nos fazem refletir sobre diversas questões ligadas a risco e retorno das diferentes opções de investimentos disponíveis no mercado. Contudo, nos faz refletir principalmente sobre o perfil de cada investidor e sua tolerância não apenas a flutuações no portfólio como um todo, mas na parcela de renda fixa da carteira. Fica claro, portanto, que muitos investidores ainda não compreenderam que a renda fixa não é fixa…e tem risco! Contudo, se investirmos de maneira disciplinada e responsável, seremos recompensados por essa tomada de risco com maiores retornos ao longo do tempo.


Ricardo Ludwig
Sócio administrador
ricardo@escritorioblack.com.br
@rcludwig

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