Um movimento ainda discreto começa a redesenhar o perfil de Canela. Nos últimos meses, a cidade passou a concentrar investimentos e iniciativas voltadas à saúde, à longevidade e ao cuidado continuado — um conjunto de projetos que, somados, indicam a formação de um novo segmento econômico na região. O caso mais recente é a transformação do tradicional Oásis Santa Ângela, que, após 55 anos de atuação sob responsabilidade das Irmãs Filhas de Santa Maria da Providência, passa a ter nova gestão e um novo modelo de operação. Fundado em 1968 e em funcionamento desde 1972, o Oásis foi por décadas uma referência regional no acolhimento de idosos. O encerramento das atividades filantrópicas, anunciado no início de 2026, marcou o fim de um ciclo. O espaço será transformado na Casa Vallena, empreendimento voltado à moradia assistida e à reabilitação. Instalado em uma área de aproximadamente 4.500 metros quadrados, em um terreno de cerca de sete hectares na RS-235, o complexo passará por um processo de modernização.

COMPLEXO Casa Vallena terá 4.500 m² com investimento que pode chegar até a R$ 10 milhões
Foto: Divulgação
À frente da operação está o médico ortopedista Marcelo Weber, coordenador do projeto Casa Vallena. Foi ele quem confirmou ao Nova Época a previsão de investimento entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões, a capacidade projetada para até 100 pessoas e a estimativa de geração progressiva de cerca de 50 empregos. “Vamos trazer para a Serra Gaúcha um ecossistema de longevidade focado no ‘envelhecimento bem-sucedido’, unindo assistência médica de alta performance a um atendimento individualizado”, destaca Weber. “A capacidade projetada é para até 100 pessoas, podendo variar conforme o grau de exclusividade e personalização solicitado pelos hóspedes” acrescenta o especialista. A proposta combina residência assistida, com possibilidade de permanência contínua ou temporária, e atendimento clínico integrado, com foco em reabilitação e acompanhamento multidisciplinar.
Ainda não há definição sobre valores de mensalidade, modelo de convênios ou enquadramento regulatório. “As adequações e reformas necessárias têm previsão de aproximadamente três meses. A abertura oficial dependerá também da obtenção das licenças e autorizações necessárias”, observa Weber. “Não estão previstas alterações estruturais significativas. O projeto contempla um retrofit completo, com melhorias de fachada, reformas internas, nova mobília, modernização dos ambientes e implantação de sistemas de segurança voltados ao cuidado do idoso” acrescenta ele.
A gestão informa que pretende avaliar parcerias e discutir formas de manter algum nível de compromisso social com os municípios. A mudança representa uma inflexão no perfil do serviço. O Oásis operava com caráter assistencial. A nova proposta segue um modelo privado, com estrutura voltada à permanência, recuperação funcional e atendimento personalizado. Esse formato — conhecido como residência assistida — tem ganhado espaço no país à medida que cresce a população da melhor idade e aumenta a demanda por estruturas que integrem moradia, cuidado e qualidade de vida. “Ainda não há definição de valores, pois existem muitas variáveis relacionadas ao grau de assistência, hospedagem, reabilitação e necessidades individuais de cada hóspede.
A transição do Oásis encerra uma história construída ao longo de mais de cinco décadas e abre uma nova fase, marcada por outro modelo de cuidado, outra lógica de operação e um novo perfil de atendimento. Mais do que a transformação de um espaço, Canela começa a observar a formação de um setor que pode ganhar relevância nos próximos anos.
DEMANDA ORIUNDA DE CANELA
A transformação do Oásis não ocorre de forma isolada. Em Canela, outras iniciativas recentes ajudam a compor um cenário novo, ainda em formação. Um dos exemplos é o Residencial Lar Tulipas, que iniciou sua atuação no município após identificar uma demanda local relevante por serviços de cuidado ao idoso. Antes da abertura da unidade, a instituição realizou um levantamento com famílias da cidade e constatou uma situação recorrente. “Verificou-se uma preocupação significativa das famílias em relação ao cuidado de seus idosos. Muitos relataram que seus familiares encontram-se atualmente em instituições localizadas em outras cidades, o que gera dificuldades decorrentes da distância e da rotina de trabalho, limitando a frequência de visitas”, explica a administradora Josiane Scherer.

RESIDENCIAL Lar Tulipas
Foto: Divulgação
A unidade tem capacidade para cerca de 20 moradores e atende diferentes graus de dependência, com predominância de idosos com maior autonomia. O modelo prioriza a convivência coletiva e a integração, com acompanhamento contínuo e rotina estruturada.
A equipe inclui visita médica semanal, atendimento de enfermagem, cuidadores 24 horas, acompanhamento nutricional, fisioterapia, atividades cognitivas e físicas, além de programação social e passeios ao longo do ano. “A maior parte da demanda atual é oriunda de Canela, o que reforça a importância da oferta de serviços locais especializados”, salienta Josiane.
Esse dado local reforça que a demanda por cuidado continuado não depende apenas de novos empreendimentos de maior porte. Ela já existe dentro da comunidade, impulsionada pelo envelhecimento da população e pelas mudanças na dinâmica familiar.
ACOMPANHAMENTO CONTÍNUO
Ao mesmo tempo, a cidade também recebe investimentos que ampliam a base de atendimento em saúde. O Hospital Pompéia Pryme, em construção, deve elevar a capacidade de serviços médicos da região, com estrutura voltada à média e alta complexidade.
Inserido em um projeto mais amplo, o hospital se conecta a iniciativas que envolvem moradia, bem-estar e acompanhamento contínuo, incluindo propostas voltadas ao público sênior. Esse conjunto de serviços começa a desenhar uma rede onde diferentes etapas do cuidado — do atendimento hospitalar à permanência e à reabilitação — passam a coexistir no mesmo território. A soma desses movimentos não permite afirmar, ainda, que Canela já seja um polo consolidado de longevidade. Mas aponta para uma mudança de direção.
Com a presença de hospital, residenciais assistidos e estruturas de reabilitação, a cidade começa a reunir serviços que se complementam e podem transformar a saúde e o cuidado ao idoso em um novo eixo de desenvolvimento.
O impacto tende a ir além da área médica. A geração de empregos especializados, a atração de profissionais da saúde, a movimentação de serviços e a valorização urbana são efeitos diretos desse tipo de investimento.
Outro reflexo possível é o fortalecimento do turismo de saúde. A Serra Gaúcha já é reconhecida como destino turístico. Com a ampliação da oferta de serviços médicos e de cuidado, passa a atrair também pessoas que buscam recuperação, acompanhamento ou permanência prolongada. Esse público- tende a permanecer mais tempo na cidade e gerar impacto econômico contínuo.
O ENVELHECIMENTO AVANÇA E MUDA A ECONOMIA
Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil chegou a 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população. Em relação a 2010, esse grupo cresceu 56%.No Rio Grande do Sul, o processo é mais avançado. Dados do Governo do Estado, com base no Censo 2022, mostram que havia 115 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, índice superior à média nacional.









