A CONTA CHEGA PARA TODOS

Terminada a eleição, começa outra disputa: a da realidade econômica. Durante a campanha, sobram promessas, discursos e soluções aparentemente simples para problemas complexos. Depois da apuração, porém, a economia volta a fazer o que sempre fez: cobrar a conta.

A reeleição do atual modelo de governo provocou uma reação imediata nos mercados. No primeiro pregão após o resultado, a Bolsa brasileira despencou quase 14%, enquanto o dólar disparou mais de 12%. Foi uma demonstração clara de que as expectativas sobre os próximos quatro anos mudaram, especialmente em relação à condução das contas públicas.

É importante entender que o mercado não vota, não tem partido e não precisa gostar de um presidente. Ele reage às expectativas. Se os investidores acreditam que o governo gastará mais do que pode, que a dívida continuará crescendo e que faltará disposição para corrigir os desequilíbrios fiscais, exigirão uma remuneração maior para financiar o país.

E é aí que começa o problema. Porque, ao contrário do que muitos imaginam, a conta não fica restrita aos grandes investidores.

Quando o governo gasta persistentemente mais do que arrecada, precisa buscar recursos para financiar essa diferença. Uma dívida maior e a desconfiança sobre sua trajetória podem pressionar os juros, dificultar a queda da inflação e encarecer o crédito. O resultado aparece no financiamento do carro, nas parcelas do imóvel, no capital de giro das empresas e até naquele pequeno negócio que precisa de dinheiro para continuar funcionando.

O Brasil já convive com uma dívida bruta próxima de 83% do PIB e uma taxa Selic de 13,75% ao ano. Não estamos falando de um problema distante ou de uma discussão exclusiva entre economistas. Estamos falando de um país que compromete uma parcela enorme de seus recursos com juros e que precisa encontrar uma maneira sustentável de equilibrar suas contas.

Mas existe uma diferença importante entre os efeitos dessa situação sobre as pessoas.

Quem possui patrimônio diversificado, investimentos e reservas financeiras geralmente tem mais alternativas para se proteger. Pode ajustar a carteira, aproveitar oportunidades e até encontrar ganhos em determinados cenários de juros elevados.

Já o empresário que precisa contratar funcionários, comprar mercadorias e financiar sua operação não tem a mesma liberdade. Se o crédito fica caro, os consumidores perdem poder de compra e os custos aumentam, ele precisa tomar decisões difíceis. Adia investimentos, reduz despesas, contrata menos ou repassa preços.

E a classe média? Essa costuma ficar espremida no meio do caminho. Paga impostos, enfrenta juros elevados, financia seus bens e ainda precisa fazer o próprio planejamento financeiro para garantir o futuro. Não tem os privilégios de quem vive de grandes patrimônios, mas também não consegue simplesmente transferir todos os aumentos de custos para outra pessoa.

O curioso é que, durante as campanhas, quase todo mundo parece concordar que é preciso melhorar a vida da população. A divergência aparece quando chega a hora de discutir como fazer isso e, principalmente, quem vai pagar.

Políticas sociais são importantes. Crescimento econômico também. Mas nenhum país consegue sustentar indefinidamente despesas crescentes sem receitas compatíveis, produtividade e responsabilidade fiscal. Ignorar essa relação não elimina o custo. Apenas transfere a conta para outro momento, normalmente com juros maiores e menos opções.

A eleição terminou. Agora, independentemente de quem cada um tenha escolhido, existe uma pergunta que deveria interessar a todos: qual será o plano para fazer o Brasil crescer sem continuar empurrando seus desequilíbrios para o futuro?

Porque o mercado pode até reagir em um único pregão. A dívida, porém, não desaparece no dia seguinte. E, quando a conta chega, ela não pergunta em quem você votou.

Por João Richa
Sócio da Black Investimentos
joao@escritorioblack.com.br

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