A cortina não está mais emperrada. O pó do camarim foi mexido, os espelhos voltaram a refletir rostos em transformação e os corredores do teatro voltaram a estalar sob os passos de quem chega para o ensaio. Há atores aquecendo, marcações no chão, figurinos esperando corpos e textos ganhando vida entre a coxia e o palco. Canela voltou a ensaiar, porém o questionamento inicial seria : estamos ensaiando uma temporada ou apenas mais uma apresentação?
Porque começar, a gente sabe! Começa-se com entusiasmo, com salas cheias, projetos nascendo, atores descobrindo personagens e plateias ocupando cadeiras. Depois vem a rotina, o calendário, os custos, a falta de espaço, a dificuldade de manter público, a vida que chama para outros trabalhos. E muitos ensaios, que começaram com o terceiro sinal tocando forte, acabam perdendo a força antes mesmo de chegar à estreia.
Por isso, o movimento que se percebe agora merece mais do que aplauso, merece continuidade. As turmas de montagens teatrais encerram seus processos com 72 alunos subindo ao palco com quatro peças, mais duas obras de Teatro Musical da Start Artístico e novos atores entram em cena de 26 a 30 de agosto no Teatro Municipal. O Perfume, inspirado em Nelson Rodrigues, aproxima artistas de diferentes gerações com direção de Tiago Melo, misturando experiência e descoberta na mesma luz, que fará sua estreia e curta temporada de 23 a 27 de setembro no Esporte Clube Serrano. Em outubro, a VI Maratona de Monólogos – Em Cena ELAS, retoma uma história que ficou sete anos fora do palco, focando na formação do artista da Serra Gaúcha e valorizando o trabalho das mulheres nas Artes. São acontecimentos diferentes, mas pertencem à mesma pergunta: o que precisamos fazer para que o teatro deixe de ser acontecimento e passe a ser permanência?
Acredito que a resposta esteja justamente em transformar ensaio em hábito, espetáculo em calendário, público em comunidade e artistas em movimento. Uma cena teatral não se sustenta apenas com quem sobe ao palco. Precisa de quem produz, divulga, financia, ensina, registra, assiste e volta. Precisa de espaços adequados com o mínimo de estrutura, políticas culturais, formação e, sobretudo, de uma cidade que reconheça o teatro como parte de sua identidade e não apenas como uma atração ocasional.
Canela voltou a ensaiar. Agora é preciso descobrir se teremos fôlego para permanecer em cartaz. Porque quando uma cidade olha para o seu teatro, ela olha para sua história! Que história queremos contar agora?





