O Brasil acorda querendo discutir a escalação da Copa como se ainda existisse alguma inocência possível no futebol. A gente fala de ponta-esquerda, volante e esquema tático com a mesma intensidade emocional de quem discute herança em velório. Neymar aparece em alguma manchete e metade do país reage como mãe de filho rebelde: “ele erra, mas tem um coração bom”. O problema é que o Brasil inteiro virou especialista em passar pano para homem emocionalmente adolescente. Enquanto isso, Virgínia posta mais uma fatia plastificada “bet” da felicidade e a internet analisa cada gesto como antropólogos estudando uma civilização perdida. Beijou um macaco depois do término com um homem negro? Sério?! O país entra em estado de emergência moral. Tem brasileiro que não consegue pagar o próprio plano odontológico, mas está sinceramente indignado com a fauna afetiva dos “influenciadores”. E talvez, esse seja o retrato mais honesto do país: um condomínio emocional bagunçado, onde todo mundo espia pela cortina a vida do vizinho enquanto a própria cozinha pega fogo. A discussão da escala 6×1 dura menos que um storie. A indignação brasileira hoje tem vinte e quatro horas úteis e um filtro bonito por cima. O sujeito trabalha seis dias por semana, pega ônibus lotado, vive cansado, mas encontra energia espiritual para comentar traição de famoso às duas da manhã. Não porque seja alienado, talvez porque sobreviver no Brasil tenha virado uma experiência tão exaustiva que acompanhar a desgraça alheia funciona como entretenimento terapêutico. O brasileiro já não quer vencer, que viralizar. Ninguém sonha mais em ser grande jogador, grande ator, grande escritor. Querem cortes de podcast chorando, frases prontas sobre autocuidado e uma câmera frontal validando a própria existência. O país virou um grande camarim com muita luz, maquiagem, ego e gente desmoronando em silêncio no banheiro onde tudo precisa virar espetáculo! A dor precisa performar, o amor precisa render “publi”, a opinião precisa humilhar, a felicidade precisa causar inveja e até a militância virou competição estética. Tem gente defendendo pauta social com a mesma delicadeza de um síndico ameaçando multar morador. No fundo, estamos todos cansados demais para aprofundar qualquer coisa, então simplificamos tudo em heróis e vilões. Neymar vira símbolo nacional da eterna imaturidade masculina, Virginia representa o capitalismo emocional de “gente como a gente” patrocinado e a Copa funciona como retiro espiritual coletivo com a internet inteira jogando como um tribunal onde ninguém é inocente, mas todos se sentem juízes! Provavelmente seja por isso que o Brasil viva em permanente estado de ansiedade performática. Todo mundo quer aparecer lúcido, vencedor, evoluído, interessante, mas basta cair o sinal do Wi-Fi para surgir o vazio. Sobra então, esse sentimento estranho de país interrompido, como se estivéssemos sempre esperando alguma coisa melhorar enquanto fazemos piada da própria tragédia, afinal, o brasileiro ri de tudo porque percebeu que, se levar tudo a sério, enlouquece antes do próximo boleto. Estamos em modo avião porque olhar pela janela dá medo, então seguimos assistindo stories enquanto o país pousa em turbulência.
A ESLOVÁQUIA E O PARAFUSO
O plano era perfeito: sair de Munique de trem até Viena, alugar um carro na estação central e seguir por autoestrada até Bratislava, para conhecer a cidade e almoçar. Depois, continuar por estradas secundárias até Visegrád e ter uma noite romântica, com jantar no deck de um navio ancorado no Rio Danúbio. A viagem até Viena foi perfeita. Trem confortável, quatro horas de contemplação. No aluguel do carro começaram os problemas. O veículo reservado não estava disponível. Depois de muita conversa, consegui um upgrade, com custo reduzido, para uma Volvo XC40 híbrida. Seguimos para Bratislava. A cidade é linda, com um boulevard exclusivo para pedestres, arborizado e cheio de bares e restaurantes com mesas ao ar livre. Passeamos pelo centro histórico e almoçamos de frente para a Catedral de São Martinho. Ao sair do estacionamento, notei um ruído, como se houvesse uma pedra presa nas ranhuras do pneu. Como o sensor de pressão não acusava vazamento, seguimos por uma estrada estreita, sem acostamento, à beira do Rio Danúbio. Na primeira oportunidade, parei para verificar. E veio o susto: um tremendo parafuso, com apenas a cabeça para fora. Pensei: “Dá para seguir até encontrar um posto”. Alguns quilômetros depois, o sensor acusou perda de pressão. Parei, e o pneu já estava murcho. O parafuso havia caído. Com o carro meio na grama, meio na estrada, procurei o sobressalente. Não havia. Achei apenas um pequeno compressor e uma lata de spray para estancar o vazamento. Instalei tudo e nada. O pneu não inflava. Tentei socorro com a locadora, mas meu telefone não completava ligações para a Áustria. Falei até com a filial dos Estados Unidos, sem solução. Estávamos numa estrada secundária, com pouquíssimo movimento. Pelo Google Maps, vi uma vila a 9 km. Dirigi a 30 km/h até lá, esperando encontrar um posto ou uma borracharia. Posto havia. Borracharia, não. A atendente, muito atenciosa, falava um pouco de inglês. Pedi o bico de calibragem para tentar localizar o furo. Foi quando vi que o estrago era grande. O spray não resolveria. Por sorte, o posto vendia um kit de reparo rápido, tipo espaguete. Consegui fechar o furo e encher o pneu. Seguimos viagem. Poucos quilômetros depois, o sensor voltou a acusar perda de pressão. Retornamos ao posto, recalibrei o pneu e seguimos. Sem novos contratempos, chegamos ao navio ancorado no Danúbio por volta das 21h30. O navio nada tinha de romântico. Era velho e malconservado. Perguntamos pelo restaurante. A resposta: já havia fechado e não havia nada para servir. Lá se foi o jantar romântico sobre o Rio Danúbio. Consegui duas cervejas e uma Coca-Cola. Com os petiscos que sempre levamos nas viagens, tivemos uma ceia improvisada. Para completar, ao me levantar pela manhã, uma das ripas do estrado da cama se quebrou. Saímos do barco-hotel e seguimos para Budapeste, vibrante e acolhedora. Mas essa é outra história. Até a próxima, amigos!
O Nosso Hospital Agoniza
No último dia 11 de março, a ACIC realizou sua reunião-almoço mensal com foco no Hospital de Caridade de Canela. O palestrante foi o senhor Cezar Chaves, novo diretor-interventor da instituição. Infelizmente, o quadro desenhado por ele – confesso que não para minha surpresa – segue cada vez mais preocupante. Canela possui um hospital que carece de alvará sanitário definitivo desde 2003. Para quem não está familiarizado com a área, esse documento é o atestado de conformidade de todas as normas e procedimentos de um estabelecimento de saúde. Em minha clínica, por exemplo, a renovação deve ser anual, sob pena de interdição das atividades. Em termos simples: nenhum estabelecimento de saúde deveria operar sem esse licenciamento, mas não é o que ocorre em nossa cidade. Essa irregularidade gera uma série de entraves ao fluxo de caixa. A ausência do alvará impede que o hospital participe de licitações para vender serviços de tomografia computadorizada a outros municípios da região, por exemplo. Também inviabiliza a instalação de novas unidades, como a ala de psiquiatria – um serviço de alto valor agregado que traria alívio financeiro à instituição. O fato é que o hospital hoje drena uma parte considerável do orçamento municipal: cerca de R$ 3,4 milhões mensais. Considerando que o orçamento anual da prefeitura para a saúde é de aproximadamente R$ 80 milhões, estamos falando de quase metade dos recursos destinados a uma instituição que, pela letra fria da lei, sequer poderia estar funcionando.Penso que o município precisa tratar como prioridade absoluta o fim da intervenção e o repasse da gestão a uma instituição de saúde capaz de assumir, reformar e tornar o hospital orçamentariamente viável. Continuar “empurrando o problema com a barriga” só aumenta o abismo e torna a situação cada vez mais irreversível.
SAIREMOS MAIS FORTES!
Hoje escrevo minha primeira coluna após o início desta tragédia que se estabeleceu sobre o nosso estado. Impossível imaginar que viveríamos um desafio ainda maior do que vivemos na pandemia de COVID 19, mas estamos vivendo! Apesar de todo o temor que nos abate com essa enchente horrorosa, confesso que estou otimista. Sei que passaremos por uma crise terrível, que teremos uma tarefa de reconstrução gigantesca. Entretanto, o despertar do povo gaúcho e a sua reorganização em função deste acontecimento é marcante e definitiva. A partir do momento em que nos demos conta da gravidade da situação, um movimento espontâneo aflorou e se espalhou entre a grande maioria das pessoas. Mesmo sem saber muito bem o que fazer, nos organizamos e iniciamos, da forma que podíamos, um processo de, naquele primeiro momento, sobrevivência. Cuidando dos nossos irmãos desabrigados, resgatando pessoas, animais, estruturando abrigos e tentando também entender o que se passava. Eu jamais vou esquecer a cena que presenciei ao chegar a Igrejinha e Três Coroas. O cenário de destruição, sujeira, lodo e a perplexidade das pessoas. Chegávamos nas casas e as pessoas tentavam, sozinhas ou em pequenos grupos, limpar uma quantidade inimaginável de lodo, restos de móveis e eletrodomésticos, latas, garrafas, tudo! Não precisamos de muito tempo para entender o que precisávamos fazer e vimos que era limpar, limpar e limpar. Iniciamos por casas e depois nas escolas, postos de saúde, tudo. Hoje a situação está longe do ideal, mas as pessoas já conseguem vislumbrar um futuro. Suas casas estão limpas e já começam a receber as primeiras doações. Isso tudo em um trabalho voluntário, onde cada um, dentro de suas possibilidades, doa seu tempo, sua força física, intelectual ou psicológica. Temos ainda um longo caminho pela frente. A imensa maioria dos lares afetados aqui no Rio Grande do Sul, segue debaixo de água ou impossibilitados de serem limpos, ocupados ou reconstruídos. Também precisamos recuperar a infra estrutura de estradas, hospitais, postos de saúde, escolas. Temos de cuidar dos negócios para que as pessoas tenham emprego e dignidade. O nosso turismo também precisa ser retomado aqui em Canela e Gramado, mas isso demanda que saiamos desta calamidade inicial. Entretanto uma certeza eu tenho. Não sei se em dois, dez ou vinte anos, mas olharemos para esses dias e perceberemos que vivemos um ponto de virada. Seremos uma sociedade mais próspera, mais humana, mais unida e melhor. Nosso estado nunca mais será o mesmo, nossos filhos nunca mais serão os mesmos. E isso me conforta e me faz seguir em frente.
GESTÃO DO HOSPITAL DE CANELA
Esta semana tivemos o desprazer de acompanharmos mais uma operação policial envolvendo o Hospital de Canela. Devo confessar a vocês que não me surpreendi. Não que eu soubesse ou suspeitasse de algum dos envolvidos, pelo contrário. Na verdade, eu não me surpreendi pois, apesar do discurso externo da administração municipal, de que a intervenção está sendo algo diferente, na verdade não passa de mais do mesmo. A politização do hospital não é algo novo. Na verdade ela é um problema de décadas em Canela e que passa por governos de vários partidos. Infelizmente todos sucumbem a tentação de manter o controle político do hospital. Para os políticos, que raciocinam muito pensando no voto, fica muito cômodo ter o controle do hospital. As pessoas tendem a associar a solução de seus problemas a uma pessoa, especialmente na saúde. Elas não tem o entendimento de que o SUS é publico e que temos direitos iguais perante ele. Acontece que, invariavelmente, os agentes políticos se valem de uma “liberação” de exame, de um telefonema agilizando uma consulta, de um contato que facilite uma internação, etc. Isso rende votos e capital político. Por isso essa dificuldade de largar o “osso”! Sabemos que esse tipo de facilitação é ilegal e, quando comprovada, gera operações policiais e punições aos agentes políticos. Por isso essa recorrência de escândalos dentro do hospital. Enquanto os governantes não profissionalizarem a administração do Hospital, isso irá seguir, infelizmente. A solução da intervenção, que deveria ser provisória, se tornou permanente em Canela. Posso atestar isso, pois faço parte do Conselho Fiscal do Hospital. Nunca ouve um plano para sanear o hospital e entregar ele de volta para um ente privado. A intervenção apenas facilitou a injeção de recursos e removeu controles e mecanismos de auditoria das contas do Hospital de Canela. Torço para que agora nosso prefeito mude o foco do e passe a realmente buscar o saneamento do hospital e sua profissionalização na gestão. A política dentro do hospital pode ser um benefício temporário, mas no longo prazo destrói a credibilidade dos governantes.
FELIZ DIA NOVO!
Nas festas de fim de ano eu sumo. Minha bateria social termina e junto com isto uma melancolia toma conta da minha pessoa. Datas comemorativas são de uma lindeza total, mas no meu dia a dia já não ocupam espaço. Talvez a maturidade tenha me ensinado a comemorar a beleza de todos os dias. Talvez as perdas tenham me ensinado a valorizar cada segundo.Aniversário, dia do pai, dia da mãe, Páscoa, Natal e Ano Novo transformei em boas lembranças, que procuro resgatar diariamente. Desde a hora em que acordo, até a hora que durmo eu busco celebrar o fato de continuar respirando, me movimentando. Eu celebro as alegrias e as tristezas. Respeito cada fase. Contemplo as lágrimas e os sorrisos. Tudo têm sua razão de existir na vida. Não comemoro datas. Comemoro o respirar.Nos últimos vinte dias me permiti uma pausa, depois de quase 15 anos sem férias. Confesso que o plano desejado foi quase um desastre. Percebi que parar e descansar é assunto sério e precisa também de planejamento. Como parar? Como descansar? O que se faz? Apenas dormi, me alimentei, cuidei do jardim, li livros e assisti séries e filmes. Não vi pessoas. Até na natação dei um tempo.Não sei dizer se isto é o mais adequado, mas estes dias, onde estive totalmente fora do mundo, consegui prestar na maneira como eu respiro e como enxergo o universo ao meu redor. Existe um caos ali fora, mas existe também a beleza no meu entorno. Quando mantenho minha casa limpa, e cuido do jardim, é a beleza que busco. A harmonia, que é absorvida pelos olhos, fortalece meu espírito, e assim recomponho uma respiração que foi abalada por sucessivas crises de ansiedade no último ano.Mágoas, decepções acontecem nos dias comuns e viram gigantes nas datas comemorativas. Não se esquece a dor, mas se transmuta aquilo que machuca. Devolvo a agressividade dos atos em silêncio e cuido dos meus ferimentos. O ano de 2024 está começando no calendário. No meu espírito ele recomeça todos os dias, com sol ou cerração. A possibilidade de respirarmos pausadamente é que faz tudo ser novo. Feliz dia novo!