SUPERAR LIMITAÇÕES É SER EFICIENTE NA VIDA

Essa é a frase de ordem, escolhida pela Apae Brasil, de uma grande campanha de mobilização e conscientização sobre a importância da inclusão e participação das pessoas com deficiência, seja intelectual, seja física e motora, no trabalho e na sociedade. A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla – instituída pela Lei federal nº 13.585, de 2017 – que se iniciou na sexta-feira (21) no Brasil, e cujo engajamento de Canela será expressivo por meio de atividades programadas até o dia 28 de agosto, mais uma vez irá provar que cada pessoa que tem limitações merece ter sua dignidade respeitada e seu potencial reconhecido e valorizado.

Deficiência não define, oportunidade transforma, inclua a nossa voz!
Foto: Imagem do Magnific

Dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais. O levantamento dimensiona um desafio que se apresenta de diferentes formas em cada município.

A programação da Semana da Pessoa com Deficiência é organizada pela Secretaria Municipal de Assistência, Desenvolvimento Social, Cidadania e Habitação e a Secretaria de Educação, Esporte e Lazer, em parceria com a Associação Canelense de Pessoas com Deficiência Física (ACPDF), a Associação de Pais e Amigos dos Autistas (AMA) da Região das Hortênsias e a nossa tradicional Apae.

O Nova Época conversou com dirigentes e voluntários dessas três associações muito atuantes na comunidade canelense na promoção do incentivo de pessoas com deficiência a superarem dificuldades no desenvolvimento, se integrarem na sociedade e assumirem protagonismo em suas ações, combatendo o preconceito do capacitismo.

A SATISFAÇÃO DE VER AS PESSOAS ANDANDO NO CENTRO

Dieter Webber (in memoriam) foi figura fundamental na criação da ACPDF
Foto: ACPDF

Criada em 2007, regulamentada com CNPJ e com estatutos revistos e aprimorados, a Associação Canelense de Pessoas com Deficiência Física (ACPDF) surgiu da iniciativa de um pequeno grupo de amigos, cadeirantes, que há quase 20 anos reconheciam pessoas, em situação semelhante à deles, que tinham grande dificuldade em circular pela cidade. Pessoas quase isoladas em seus bairros por um motivo que passa despercebido para muitos de nós, mas para elas é crucial: acessibilidade e condições de movimentar as cadeiras de rodas nas calçadas. Foi uma primeira demanda de tantas outras que cercam a vida dos deficientes físicos. Dieter Webber (primeiro presidente), Larri Rottmann e Jonas Ludwig de Oliveira, fundadores da
ACPDF, tinham muito trabalho pela frente. Precisavam (como até hoje) de ajuda, seja em aprendizado, seja em recursos. As iniciativas foram surgindo de imediato, como a de alertar para a existência de leis que regulamentam sobre acessibilidade e os direitos dos deficientes, hoje tornadas cientes para todos.
Demandas básicas dos cadeirantes passaram a ter, com a existência da ACPDF, um acompanhamento além daquele da Assistência Social, como a obtenção de cadeiras de rodas. “As pessoas mais humildes não tinham acesso, precisavam de orientação e ajuda”, declara Jonas Ludwig, referindo-se à época em que não havia por parte do governo estadual nenhum programa que disponibilizasse as cadeiras. Hoje há um fundo que as custeia, desde que seguidos os procedimentos legais, como o encaminhamento do pedido através das Unidades Básicas de Saúde.
Outras conquistas foram se sucedendo, no âmbito local, como surgimento em 2012 de lei municipal regulando assuntos pertinentes como a disponibilidade de vagas de estacionamento para cadeirantes. Foi instituído o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. A acessibilidade no transporte público, com a introdução dos elevadores para acessar os ônibus, foi comemorada, inclusive estendida para a frota da Cia. Citral.

ESPORTE PARA TODOS

Jonas Ludwig, Carlos Guilherme da Silva e Cláudio Hausmann
Foto: Imagem do Magnific

Uma iniciativa que orgulha a Associação é a ênfase que a entidade está dando para a prática de esportes e atividades físicas junto ao público com limitações físicas. Há em Canela grupos de cadeirantes que jogam basquete (já competiram em Caxias do Sul, ficando em terceiro lugar), vôlei sentados, bocha e praticam o ciclismo adaptado. O basquete e o ciclismo inclusive fazem parte da programação da Semana da Pessoa com deficiência (veja no página 5).
Muitas são as pessoas, políticos, vereadores, profissionais liberais e entidades a quem a ACPDF agradece o apoio nesses anos todos. Mas seria importante se as empresas canelenses se conscientizassem de que podem fazem destinação de verbas, para a Associação, dedutíveis do Imposto de Renda a pagar.
“Nossa maior luta atual é para conseguirmos, junto à Prefeitura, uma área para instalarmos uma sede”, diz Jonas. Será a concretização material de um sonho. A outra parte, referente às ações, a ACPDF tem cumprido.
A direção da Asssociação hoje é composta pelo presidente Larri Rottman , vice-presidente Cláudio Rodrigo Hausmann, 1° Secretário Carlos Guilherme Rocha da Silva, 2° Secretário Fernanda Pimel Maciel, 1° Tesoureiro Jonas Ludwig de Oliveira e 2° Tesoureiro Antonio de Oliveira.


ASSOCIAÇÕES EM PROL DA INCLUSÃO E DO VIVER BEM


O AMOR JÁ COMEÇA NO NOME

Foto: Divulgação

Lares onde há um filho autista vivem uma realidade, em grande parte, diversa. Perspectivas de vida se alteram pela consciência de que aquela criança, depois adolescente, depois adulto, sempre vai demandar, além de carinho, cuidados especiais e redobrados. A partir do diagnóstico de que receberam um filho com deficiência intelectual, os pais, nas palavras da mãe de autista Thais da Cunha Souza, precisam inverter a ordem da vida. “Nós precisamos morrer depois deste filho que vai depender de nós para sempre”, diz ela.
Os pais de filho atípico precisam ser orientados, qualificados para tal realidade, pois não é tarefa fácil e pode gerar crises. Eles podem se sentir frustrados e incapazes, não só de responder à altura o desafio de integrar o filho na sociedade e fazê-lo feliz, como de prover o alto custo dos atendimentos e eventuais medicações que ele precisa. Mas nada que não se supere com o genuíno amor de mãe e pai. Na Semana da Pessoa com Deficiência, a AMA – Associação dos Pais e Amigos dos Autistas da Região das Hortênsias engajou-se na programação com o propósito de divulgar sua causa de auxiliar na missão de acolher, orientar e ser um braço direito das famílias atípicas da Região das Hortênsias. A AMA foi criada em junho de 2017 pela primeira presidente, Ângela Perotto. Ao longo dos anos, a Associação enfrentou desafios mas tem colhido bons resultados. Desde o inicio trouxe profissionais, como neurologista e psiquiatra, para conversar os pais. Thais da Cunha Souza, a atual presidente – a vice-presidente é Karine Tatiane Conceição -, detalhou ao Nova Época as dificuldades estruturais do sistema de saúde em relação a um atendimento mais eficaz aos autistas, com suas necessidades especiais. Boa vontade não falta, o que falta é recursos para oferecer os profissionais mais indicados.
Um grande feito da AMA, há anos atrás, foi conseguir, procurando o Ministério Público, que o município contratasse um neuropediatra para atuar principalmente em diagnósticos e medicação, um dos pedidos mais frequentes por parte dos pais de autistas. Hoje essa contratação está em fase de renovação. A reativação do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, já com a participação da AMA, também foi uma ação muito positiva. Thais enaltece a presença, hoje, de um psiquiatra atendendo no CAPS de Canela, que muito tem se dedicado às crianças.
Relatando novamente deficiências preocupantes, a presidente da AMA cita a falta atual de investigação neurológica para diagnóstico precoce e a emissão de laudo conclusivo, por falta de neuropediatra, para 56 possíveis casos de autismo em crianças em fase pré-escolar. Em se confirmada a incidência do autismo após a investigação, essas crianças não podem ser encaminhadas a uma escola regular municipal sem o acompanhamento de um(a) monitor(a), na chamada inclusão. Os monitores, que segundo Thais estão nas escolas municipais em número inferior ao necessário, são importantíssimos para a criança autista porque com eles ela cria vínculo, se apega. Então, se uma monitora muda de função ou escola, a criança até então assistida por ela sente a falta e muitas vezes não volta para a escola, fazendo com que a mãe fique em casa, perca dias de trabalho e isso pode gerar consequências. A importância do diagnóstico precoce, então, é inegável, pois ele é a linha de partida para o tratamento.
A destacar como forte impulso para a Associação foi a designação de uma emenda impositiva, em 2024, de parte do então vereador Marcelo Savi, no valor de R$ 50 mil. Em enquete junto aos mais de 200 cadastrados (entre pais e profissionais), decidiu-se pelo emprego da verba em atividades para as crianças e em qualificação para pais e professores.

OS PROJETOS DA AMA

Em 2026 a Associação deu o start para projetos sociais intensificando o atendimento efetivo ao público atípico, oferecendo suporte, desenvolvimento e inclusão para as crianças e famílias. O Casa Mais Leve é voltado à capacitação de pais, professores, cuidadores e profissionais da área da saúde. Realizado em sete encontros, gerou inclusive certificado de 40 horas (a cargo da Uniaselvi) para professores e registrou 170 inscrições. Foi ensinado às famílias como ter um lar mais tranquilo, como estimular a criança. O Som que Une é um projeto, conduzido pela empresa Pró Música em suas dependências, que introduz a música como forma terapêutica e de desenvolvimento. Criança em Movimento é o terceiro projeto, desenvolvido pelo professor Paulo César, trabalhando a coordenação motora através de atividades lúdicas, fundamentais para crianças autistas que possuem dificuldades motoras. Como os projetos ocorrem enquanto houver verba, a AMA precisa da ajuda de todos na arrecadação de fundos. Outra emenda impositiva da Câmara de Vereadores de Canela, de autoria de Felipe Caputo, está em andamento e o valor será investido na continuação do projeto Criança em Movimento.
As reivindicações da AMA não cessam, há preocupações constantes em relação aos cerca de 500 autistas que residem em Canela. Diagnósticos precoces, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos são carências a suprir. Muitas famílias não conseguem custear os tratamentos e acompanhamentos. A Associação busca recursos também na sociedade por meio de promoções e junto ao empresariado, assim como está aberta à participação ativa de simpatizantes.

A APAE

Uma instituição com 55 anos de atividade no seio da comunidade canelense dispensa apresentação. O apoio e participação da Apae na Semana da Pessoa com Deficiência engrandece o evento. Fomos conversar com a presidente, Noeli Stopassola Soares, nas novas instalações da Associação para nos inteirarmos das atividades e necessidades de uma estrutura tão grande. Primeira mulher a comandar a Apae de Canela, Noeli começa listando as atividades e oficinas que se desenrolam no local: educação física, Departamento de Tradições Gaúchas, teatro, música, dança, artesanato (com professor voluntário), horta e jardinagem, artes plásticas (artistas compartilham seus talentos), mídias sociais, culinária e práticas de convivência com assistidos e mães. Os atendimentos clínicos ocorrem nas áreas da psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, estimulação precoce e psicopedagogia. Há também atividades de academia. A presença do Rotary Clube de Canela nas diretorias da Apae de Canela, nesses anos todos, tem sido uma constante, por diversas vezes algum rotariano esteve à frente da instituição ou no conselho. O clube de serviço vai promover, em 11 de setembro próximo, o Hambúrger Solidário, com toda renda revertida para a Apae.

SEJA UM APAEXONADO

A nossa Apae recebe hoje cerca de 230 assistidos, de diversas faixas etárias (a partir de bebês de três meses). Um atendimento de tal magnitude significa um custo elevado, hoje a Apae necessita de R$ 110 mil, por mês, para se manter em funcionamento, montante que preocupa porque não há previsão de ser arrecadado na totalidade nos próximos meses.
Aproveitando a Semana da Pessoa com Deficiência, a Apae lança a campanha Apaexonado. A ação busca a adesão de mais pessoas e empresas da comunidade no que tange à arrecadação de recursos e efetiva participação nas atividades em prol da Apae. O lançamento acontecerá nas dependências da Apae, na terça-feira, 25 de agosto, às 18h. Toda a comunidade está, mais que convidada, conclamada a participar. A campanha representa amor, inclusão, compromisso e união de pessoas que acreditam que, juntas, podem transformar vidas.

PROGRAMAÇÃO DA SEMANA

Neste sábado, dia 22, às 10h, será realizado um passeio ciclístico adaptado, com saída do posto de pedágio do Salto. Na segunda-feira, dia 24, a Câmara de Vereadores realizará uma sessão dedicada ao tema, às 19h. Na terça-feira, dia 25, haverá palestra com o médico psiquiatra Dr. Vinícius, no Sicredi, às 18h. Na quarta-feira, dia 26, a partir das 13h30min, será promovido um jogo de basquete adaptado na quadra da Escola Municipal João Alfredo Corrêa Pinto. A programação termina na quinta e na sexta-feira, dias 27 e 28, na parte da manhã, com oficinas para os alunos do Ensino Fundamental, na sede da Apae.

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