Fogo no parquinho

Nos últimos anos, a XP Investimentos, outras corretoras e os bancos digitais democratizaram o acesso aos investimentos. Estratégias mais complexas, que antigamente eram privilégio de grandes investidores, tornaram-se acessíveis ao pequeno e médio investidor. Títulos públicos, privados e o acesso fácil aos ativos negociados em bolsa se tornaram corriqueiros para quem, até pouco tempo atrás, investia apenas em poupança, CDBs e fundos dos grandes bancos.

Uma geração inteira foi forjada investindo em ativos não muito rentáveis, mas que nunca oscilaram. A reta do gráfico de rentabilidade sempre apontava para cima. Mesmo em momentos de crise, a rentabilidade praticamente não balançava.

Hoje, muitos se aventuram em mercados onde os ganhos no médio e longo prazo normalmente superam o CDI. Porém, quando o mercado “estressa”, é sempre a mesma história: a maioria não está preparada para ver seu patrimônio oscilar.

Uma classe que ganhou destaque nos últimos anos foram os fundos imobiliários.

Se você gosta de receber dividendos, provavelmente gosta de fundos imobiliários. Afinal, quem não gosta de ver dinheiro pingando na conta todos os meses? Ainda mais quando esses rendimentos são isentos de imposto de renda para a pessoa física, observadas as regras atuais.

O problema começa quando a cota cai. E, em algum momento, ela vai cair. Fundo imobiliário é renda variável e, por mais incrível que pareça, renda variável varia.

Nas últimas semanas, os fundos imobiliários, e diversos outros ativos de renda variável, sofreram quedas relevantes. E aí aparece uma curiosa contradição do investidor médio.

É como gostar muito de um determinado produto e descobrir que ele entrou em promoção. A reação natural deveria ser aproveitar a oportunidade e comprar mais barato. No mercado financeiro, porém, acontece frequentemente o contrário. Quando o produto está caro, todo mundo quer comprar. Quando aparece a liquidação, muitos investidores querem correr para a saída.

Por quê?

Porque fomos educados, durante muitos anos, a pensar que investimento bom é aquele que não oscila. O CDI virou uma espécie de porto seguro. E, com juros elevados, essa estratégia realmente parece imbatível. Basta aplicar o dinheiro e acompanhar a rentabilidade subir mês após mês, praticamente sem sustos.

Mas existe uma pergunta que poucos fazem: e quando chegar a hora de reinvestir esse dinheiro?

O CDI de hoje não estará necessariamente disponível amanhã.

Quem está acostumado exclusivamente à renda fixa precisa entender que investir em outros ativos exige uma mudança de comportamento. Não basta olhar o rendimento mensal. É preciso aceitar que determinados investimentos vão oscilar no caminho, mesmo quando os fundamentos continuam bons.

Um Fundo Imobiliário pode ter bons imóveis, contratos sólidos e continuar distribuindo dividendos regularmente, enquanto sua cotação cai. A queda do preço não significa, automaticamente, que o imóvel deixou de existir, que o aluguel parou de ser pago ou que o fundo se tornou ruim.

Claro que nem toda queda é oportunidade. Existem fundos problemáticos, empresas endividadas e ativos que realmente perderam valor. Por isso, investir durante uma queda exige análise e conhecimento do que se está comprando.

Mas existe uma diferença enorme entre vender porque o ativo piorou e vender simplesmente porque o preço caiu.

Sempre lembro de uma frase que define o mercado financeiro como um lugar onde ocorre a transferência de riqueza dos impacientes para os pacientes.

Em momentos de juros altos, o mercado oferece uma escolha desconfortável: receber um retorno elevado em investimentos mais previsíveis ou aceitar alguma volatilidade para comprar ativos que podem se beneficiar quando o ciclo de juros mudar.

Não existe fórmula mágica. Se queremos os dividendos, precisamos aceitar que as cotas podem oscilar. Se queremos retornos maiores no longo prazo, precisamos conviver com algum desconforto no caminho. A evolução em todas as áreas de nossas vidas passa por momentos de dor e desconforto.

O investidor maduro não é aquele que nunca vê sua carteira cair. É aquele que consegue olhar para uma queda e perguntar: “O que ficou mais barato e continua fazendo sentido?”

Porque, no mercado, promoção de verdade raramente acontece quando todo mundo está tranquilo geralmente acontece quando tem fogo no parquinho!

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