ESTA NÃO É UMA COLUNA SOBRE POLÍTICA

Após o resultado do primeiro turno das eleições, o mercado financeiro fez o chamado rally. A Bolsa disparou, o dólar caiu e os juros futuros recuaram. Foi um movimento expressivo, que chamou a atenção não apenas pela intensidade, mas também pela velocidade com que os preços se ajustaram às novas expectativas.

Mas por que isso aconteceu?

Para mim, a resposta está na economia. Ou, pelo menos, é por essa lente que costumo enxergar o mundo.

Somos constantemente influenciados por vieses cognitivos, atalhos mentais que nos levam a interpretar as informações de acordo com nossas crenças e experiências. Como meu dia a dia é cercado por investimentos, dados e indicadores econômicos, tenho a tendência de procurar explicações nos números para quase tudo.

Às vezes, me sinto como o Dwight Schrute, da série The Office, que parece acreditar que seu trabalho como vendedor de papel é a atividade mais importante do mundo. A série é uma caricatura do ambiente corporativo, mas também retrata algo muito humano: a tendência de enxergarmos o mundo a partir da nossa própria realidade. Reconhecer isso é importante, inclusive quando falamos de economia.

Feita essa ressalva, voltemos aos números.

O mercado financeiro não olha apenas para o presente. Ele tenta antecipar o futuro. E, nesse caso, a leitura de parte dos investidores foi a de que o resultado eleitoral aumentou a possibilidade de uma mudança nos rumos da economia brasileira. A expectativa de maior controle dos gastos públicos, responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica ajudou a explicar o movimento.

É importante lembrar que estamos falando de expectativas, e não de certezas. O mercado também erra, exagera e muda de opinião. Mas existe uma razão para observarmos suas reações: elas nos ajudam a entender como os investidores enxergam o futuro do país.

E por que isso importa tanto?

Porque economia não é apenas um conjunto de números apresentados em relatórios. Inflação é a perda do poder de compra de quem vai ao supermercado. Juros elevados são prestações mais caras, investimentos adiados e empresas com mais dificuldade para crescer. Aumento de impostos sem uma contrapartida percebida pela população significa menos dinheiro disponível para quem já precisa fazer escolhas difíceis no orçamento familiar.

A economia é a vida real. E é justamente por isso que os números merecem atenção. O endividamento das famílias, as dificuldades enfrentadas pelas empresas e a trajetória da dívida pública são sinais que não podem ser ignorados. É claro que uma eleição não se resume à economia. Segurança, educação, saúde e valores pessoais também pesam na decisão de cada eleitor. Mas seria igualmente ingênuo imaginar que a situação econômica não influencia a percepção da população sobre os rumos do país.

O mercado não precisou esperar a posse de um novo presidente para reagir. Bastou a possibilidade de um cenário diferente para que investidores revisassem suas expectativas. Existe uma diferença entre esperar que tudo melhore e perceber que algo pode começar a mudar.

No dia seguinte ao resultado do primeiro turno, o mercado não estava comemorando uma economia que já havia melhorado. Estava reagindo à possibilidade de que ela pudesse melhorar. Ou, talvez, simplesmente à expectativa de que os problemas não continuassem se agravando no mesmo ritmo.

Isso não significa que teremos juros baixos, crescimento econômico ou contas públicas equilibradas amanhã. Muito menos que os problemas acumulados desaparecerão com uma eleição. O próximo ano deverá ser bastante difícil, independentemente de quem esteja no comando, uma possível recessão é algo provável. A economia não funciona na base do milagre, e os desequilíbrios acumulados levam tempo para serem corrigidos.

No fim das contas, não precisamos concordar com as escolhas políticas de ninguém para reconhecer que a economia cobra seu preço quando as decisões são equivocadas. A conta aparece nos juros, na inflação, no endividamento e, principalmente, no bolso de quem trabalha e produz.

Como enfatizei no título, esta não é uma coluna sobre política. É uma coluna sobre economia. E, às vezes, basta olhar para o comportamento do mercado para perceber que a expectativa de um caminho diferente já é suficiente para a percepção de melhora.

O mercado não faz campanha, não vota e não tem ideologia. Mas, quando milhões de reais mudam de direção em poucas horas, talvez valha a pena prestar atenção ao recado.

Por João Richa
Sócio da Black Investimentos
joao@escritorioblack.com.br

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