Durante quase quatro décadas, centenas de crianças atravessaram as portas da Academia Neusa Martinotto para aprender passos, coreografias e técnicas. Mas, para muitas delas, o que ficou não foi apenas a dança. Ficaram amizades, disciplina, confiança, memórias de palco, viagens, festivais e uma relação afetiva construída dentro de um espaço que se tornou parte da história cultural de Canela. Em 2026, a Academia Neusa Martinotto completa 37 anos de trajetória. Um tempo que atravessa gerações e acompanha as próprias transformações da cidade. Ao longo desse período, alunos cresceram, se tornaram adultos, tiveram filhos e hoje retornam levando uma nova geração para as aulas. Em muitos casos, a ligação criada com a dança nunca terminou. “Pra mim é muito orgulho saber que consegui transmitir o amor que tenho pela dança para muitas bailarinas e bailarinos”, resume Neusa. O que começou de forma simples se consolidou como uma das referências da dança na região, formando bailarinos, produzindo espetáculos e mantendo viva uma atividade cultural que atravessou mudanças econômicas, sociais e comportamentais ao longo de quase quatro décadas. A história começou antes mesmo da academia existir oficialmente. Ainda em São Francisco de Paula, Neusa dava aulas dentro da Escola José de Alencar. No fim daquele ano, uma apresentação organizada apenas para mostrar o trabalho desenvolvido acabou mudando o rumo da sua vida. “O sucesso foi tão grande que mães de meninas que nem estudavam ali vieram falar comigo para que eu montasse um espaço próprio”, relembra Neusa. A partir dali, veio a decisão de buscar formação fora da cidade, ela passou a se aperfeiçoar em ballet clássico, jazz e sapateado americano, entendendo que aquela paixão poderia se transformar em algo maior. “Foi ali que vi que uma paixão poderia se tornar algo além”, conta. DANÇARINOS formados por Neusa Martinotto brilham nos palcos Brasil aforaFoto: Nando Espinosa A ESCOLA QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES Com o passar dos anos, a academia cresceu junto com a própria cidade de Canela. Vieram os espetáculos anuais, os festivais, as apresentações e a construção de uma relação profunda com famílias que passaram a acompanhar a trajetória da escola geração após geração. Ao longo desses 37 anos, milhares de alunos passaram pela academia. Alguns seguiram carreira profissional na dança. Outros levaram a experiência artística para diferentes áreas da vida. Muitos simplesmente permaneceram ligados afetivamente ao espaço. Hoje, uma das cenas que mais emocionam Neusa acontece justamente nos reencontros. “Me emociona ver que deixei marcas positivas na vida delas e que muitas fizeram da dança sua profissão, ” afirma. Ela conta que ex-alunos ainda visitam a academia, acompanham espetáculos e levam os filhos para conhecer o lugar onde cresceram. “Já tenho filhas de ex-alunas fazendo aula conosco.” Mais do que ensinar técnica, a escola acabou criando vínculos humanos duradouros. Em uma cidade marcada pelo turismo e pelas transformações constantes, a academia se manteve como um espaço de permanência, convivência e formação artística. Ao longo da trajetória, grupos da academia participaram de festivais importantes da dança gaúcha, conquistaram premiações e ampliaram o reconhecimento do trabalho desenvolvido em Canela. Paralelamente, a escola também expandiu modalidades e linguagens, incorporando jazz, dança contemporânea, sapateado e outras expressões artísticas ao longo dos anos. RESISTIR FAZENDO CULTURA Manter uma escola de dança ativa durante quase quatro décadas exigiu persistência. Neusa fala sobre um caminho marcado por desafios financeiros, mudanças culturais e pela necessidade constante de defender o valor da arte. “Uma das maiores dificuldades foi perceber que a cultura ainda precisa lutar constantemente por reconhecimento,” lamenta. Ela destaca que muitas pessoas ainda enxergam a arte apenas como atividade complementar, quando, para muitos profissionais, ela representa trabalho, renda e transformação social. “Muitas pessoas ainda enxergam a arte apenas como hobby, quando, na verdade, ela é profissão, educação, transformação e sustento para muitas famílias,” ressalta Neusa. Os períodos de crise econômica, as dificuldades enfrentadas pelo setor cultural e até momentos em que continuar parecia impossível fazem parte da memória dessa caminhada. Ainda assim, a dança permaneceu como eixo central da sua vida. “Trabalhar com arte no Brasil nunca foi fácil. Muitas vezes precisamos lutar para mostrar que a dança é muito mais do que entretenimento”, diz Neusa. Ao longo desse período, Canela também consolidou sua vocação cultural e turística. E a academia acompanhou esse movimento, participando da formação artística de diferentes gerações da cidade. UM LEGADO QUE CONTINUA Ao falar sobre a trajetória construída, Neusa retorna diversas vezes à importância da família. Não apenas pelo apoio recebido nos momentos difíceis, mas porque a dança acabou se transformando em um legado familiar. “Minha família sempre foi à base de tudo,” resume ela. Hoje, a filha Priscila Martinotto trabalha ao lado da mãe na academia. O filho Fernando Martinotto também seguiu ligado à arte, atuando como produtor cultural na região. “Ver que aquilo que começou como um sonho se transformou em uma herança de amor pela cultura é uma das maiores conquistas da minha vida,” afirma Neusa. A ligação da família com a cultura também ganhou forma em outros projetos desenvolvidos em Canela, ampliando espaços voltados à arte e às manifestações culturais da cidade. Mesmo depois de 37 anos, Neusa ainda fala sobre futuro. “Sonho em continuar formando não apenas bailarinos, mas pessoas mais sensíveis, confiantes e felizes através da arte”, destaca ela. Talvez seja justamente essa a dimensão mais profunda da trajetória construída pela academia. Mais do que formar bailarinos, ela ajudou a construir memórias afetivas, relações humanas e experiências que permaneceram na vida de muitas famílias canelenses. Foto: Divulgação ENTREVISTA NE – Quando você olha para trás e vê 37 anos de academia, qual sentimento aparece primeiro? Neusa – “Orgulho. Pra mim é muito orgulho saber que consegui transmitir o amor que tenho pela dança para muitas bailarinas e bailarinos nestas décadas” NE – Muitas gerações passaram pela academia. O que mais te emociona ao reencontrar ex-alunos hoje? Neusa – “Me emociona saber que fiz parte positiva da vida deles e que deixei lembranças especiais.” NE – Como sua família participou dessa trajetória? Neusa – “Minha família sempre foi
A PASSOS LARGOS
UMA CARREIRA QUE AVANÇA A PASSOS LARGOS Em outubro de 2017 falamos aqui na página sobre a conquista do bailarino canelense Márcio Casara, que havia sido escolhido para uma bolsa na escola Opus Ballet, Centro Internazionale Danza e Spettacolo, na Itália, ao vencer, na sua categoria (Júnior 2, Técnicas Contemporâneas), uma edição do Festival Bento em Dança. Para viabilizar a ida ele batalhou, recebeu auxílio através de arrecadações de amigos e embarcou no ano seguinte.Passados mais de cinco anos, é com satisfação que passamos as novas sobre a carreira daquele então quase menino que, em 2018, aos 16 anos embarcou para Florença. O que poderia ter sido um período curtíssimo de duas semanas acabou se estendendo por um ano, pois gostaram da performance de Márcio, que conta: “Lá, eu era um dos únicos bolsistas da escola e eles me ajudaram muito com a minha adaptação logo que cheguei, visto que eu era novo no país e ainda estava me estabilizando”.Finda a estada na Opus, as amizades criadas e a chegada de canelenses em Firenze foi importante para Casara repartir custos de moradia e se manter na Itália. Decidindo procurar uma academia especializada em ballet clássico, fez audição para a Ópera de Roma e a Ukrainian Ballet Academy, em Milão. Com talento de sobra, Márcio foi aceito por ambas e optou pela academia ucraniana. Hora de mudar de cidade, hoje ele está radicado em Milano. Na Accademia Ucraina di Balletto, hoje o canelense tanto se dedica ao ballet puro quanto está no elenco de espetáculos clássicos tradicionais em preparação, como o Quebra-nozes, Branca de Neve e o Lago dos Cisnes. No próximo mês começa uma série de apresentações pela Itália, depois alargada para outros países.Ambientando-se no dia a dia de uma academia de dança de origem e costumes tão diferentes dos nossos, Márcio convive com muitos alunos ucranianos e russos. “Meus professores são todos ucranianos e por mais rigorosos que sejam quando se trata da dança, nos ajudam muito como bailarinos. Na preparação física, alimentação, preparação para audições e tudo mais”, diz ele. Mais: “eles falam italiano mas com os alunos que são ucranianos ou russos eles acabam falando russo, então acabamos aprendendo algumas palavras de russo”, ele brinca. Com a guerra dos dois países, constata muitas vezes o sofrimento dos professores: “Como são todos ucranianos, eles acabam não tocando muito no assunto da guerra mas é muito triste ver que o país ao qual eles costumavam voltar todos os anos pra visitar a família está sendo constantemente atacado. Toda semana nos mostram vídeos das suas casas sendo destruídas pelos ataques na Ucrânia, ou de algum familiar que não conseguiu vir pra cá e que acabou se machucando”.Vida que segue seu curso, mesmo muito longe de casa (em 2022 passou o Natal em Canela), Márcio Casara fala com a família quase diariamente por vídeo chamada. Alimenta, para o futuro, o desejo de passar ao menos uma temporada em uma companhia brasileira, para dançar um pouco pelo seu país e estar mais perto da família.Sobre o nosso manancial artístico. Márcio complementa: “Acho que o Brasil é um país muito rico quando se trata de artistas e as pessoas não têm ideia da quantidade de bailarinos brasileiros talentosos que tem aqui fora”.Hoje sabemos que entre eles, e de primeiríssima linha, ao menos um é de Canela. Márcio Casara ensaiando na Academia Ucraniana em Milão Defronte à Royal Ballet School, em Londres, onde fez curso de duas semanas As centenárias instalações da Academia Ucraniana de Ballet, em Milão A performance premiada em Bento Gonçalves em 2017, que lhe abriu portas DE KOMBI NO MUNDO – XIV Kombi Vinil é o nome da Kombi de Julio Marques da Costa e Márcia Ribeiro da Costa. O nome lembra saudosismo vintage, mas a perua modelo Karat deles, devidamente regularizada como Motor Casa, é só modernidade. Mecânico de aviação aposentado, o paulistano Julio foi implantando na Kombi 2008 soluções tecnológicas que a tornam única, como uma segura e funcional abertura de teto sanfonada, além do aparato elétrico e itens de conforto como chuveiro e box de lona que instalam e retiram.Em Canela, pernoitando no pátio da Havan (sempre à disposição das Kombis e motor homes), nos disseram que estavam na estrada desde 6 de dezembro, partindo de Curitiba, onde moram. Às vezes as filhas, de 20 e 16, acompanham alguma viagem. Pela primeira vez na Região das Hortênsias, já percorreram os litorais de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. A próxima jornada será de 9 mil quilômetros pela BR 101, partindo do marco zero em Touros, Rio Grande do Norte.