O valor social da memória
Há valores facilmente quantificáveis, em geral expressos por números que comunicam de imediato. E há valores significativos e não menos importantes, mas cujos resultados não podem ser tomados metricamente. O Memorial Canela, que em breve chegará ao seu quarto ano de existência – e este é um dado objetivo -, atua com ambos tipos de valores, mas, especialmente, nos de efeitos que se estendem no tempo, porque se refletem na sociedade para além do imediato.
Antes de abordarmos estes últimos, vale discorrer um pouco sobre os primeiros. Vamos chamá-los de valores objetivos. São as iniciativas descritas por números, como os quatro virtuais anos de existência, a dezena de saídas de campo para absorção de experiências, os três eventos multitemáticos anuais que trouxeram luz a temas ligados à história, ao patrimônio e, portanto, à cultura; e os 18 eventos temáticos que, realizados em seis edições a cada ano desde 2024, revivem por meio de depoimentos as vivências da nossa terra octogenária e da gente que nos deixou como legado a Canela da atualidade. Acrescentem-se a essas atividades as cerca de 50 audiências com as autoridades locais e teremos, enfim, um relato aproximado do quanto o Memorial tem feito desde 2023, quando surgiu como iniciativa independente e plural.
Mas a esses dados facilmente quantificáveis estão relacionadas – e isso não é tão visível assim – importantes consequências cuja percepção precisa ser lembrada à coletividade e, em especial, aos seus representantes. A valorização da memória inclui efeitos admiráveis, mas de quantificação subjetiva. São valores simbólicos que, embora não enumeráveis como os valores objetivos, se inserem na vida comunitária por meio das lembranças trazidas à luz nos encontros da e com a memória, nos comunicados regulares sobre o calendário histórico local, nas correspondências às autoridades sobre fatos relevantes, na transmissão do conhecimento acumulado, na guarda de acervos, objetos e informações relacionados à história municipal – entre outras contribuições que o Memorial Canela tem compartilhado nessa sua ainda curta existência.
A memória é importante elemento constituidor de repertório coletivo que é um dos pilares do pertencimento e da identidade que, se espera, estejam presentes em cada comunidade. Canela é um espaço cujas origens ocupacionais estão nos povos originários e nos movimentos migratórios que se sucederam e se sucedem; cujas origens administrativas remontam há 100 anos – em dado, aliás, trazido à luz pelo Memorial desde o final de 2025 e, registre-se, admiravelmente absorvido pelas autoridades e pelos meios educacionais municipais -; cuja economia tem passado por diferentes ciclos econômicos; cuja cultura tem se construído nos alicerces da diversidade em permanente constituição.
Da combinação entre valores objetivos e esses valores simbólicos, nos quais o Memorial se movimenta como vocação natural, surge a memória social. Assim, a cada iniciativa que o Memorial promove, se está colocando um tijolo na construção coletiva da identidade canelense, que nos cumpre emular, fazendo das raízes locais e das histórias individuais os principais patrimônios a serem transmitidos às atuais e futuras gerações. Ainda que não seja quantificável, esse é um valor social de imenso significado e que como tal precisa ser compreendido.
Nikão Duarte, jornalista, assessor de imprensa (voluntário) do Memorial Canela.




