Ainda em clima da Expert 2025, realizada em São Paulo no mês passado, sigo refletindo sobre um tema que me chamou muita atenção: o impacto da inteligência artificial (IA) nos investimentos e no mercado de trabalho. Quem já utilizou esses programas da forma correta sabe do que falo: a IA reduz drasticamente o gap de conhecimento entre especialista e leigo. Essa transformação já está mudando a relação entre assessores, gerentes e clientes. Não vejo a IA como ameaça às profissões, mas como uma nova era que exige adaptação. Reagir com “ludismo” — como aqueles que destruíam máquinas na Revolução Industrial — certamente não é a saída.
Dias atrás, li um estudo da Microsoft que reforça essa percepção. A empresa analisou 200 mil interações com o Copilot (o “ChatGPT” da Microsoft) e listou as 40 profissões mais expostas à inteligência artificial generativa. O resultado surpreende: não são os empregos manuais que correm maior risco, mas sim boa parte da elite educacional e intelectual.
No topo do ranking estão intérpretes, tradutores e historiadores. Em seguida, professores universitários, jornalistas, escritores, cientistas políticos e até matemáticos. Profissões que exigem anos de estudo, mas que dependem justamente de síntese, interpretação e produção de conteúdo — áreas em que a IA já mostra desempenho impressionante.
Não à toa, empresas americanas como Amazon e IBM vêm cortando vagas e congelando contratações, alegando ganhos de produtividade. Jensen Huang, CEO da Nvidia, resumiu com a frase que intitula esta coluna: “Você não vai perder seu emprego para a AI, mas para alguém que sabe usá-la.”
O detalhe mais inquietante é que a maioria das profissões em risco exige diploma universitário: analistas de mercado, planejadores financeiros, revisores, apresentadores de rádio, desenvolvedores web. Já ocupações manuais, antes vistas como menos complexas, aparecem entre as menos afetadas: bombeiros, pedreiros, borracheiros, instaladores, técnicos de ar-condicionado, cuidadores de idosos.
A lógica é clara: por mais sofisticada que seja, a IA não carrega uma pessoa para fora de um prédio em chamas nem conserta um motor na estrada. Essas funções exigem presença física, improviso e empatia em situações imprevisíveis.
Outro dado interessante: os investimentos em data centers nos Estados Unidos já superaram os gastos com escritórios comerciais. O símbolo da era da IA não é mais o analista no cubículo com café na mão, mas sim o servidor rodando 24 horas por dia. Enquanto empregos de escritório encolhem, o pedreiro que ergue o prédio e o eletricista que resfria as máquinas seguem indispensáveis.
A conclusão da Microsoft converge com as projeções do Bureau of Labor Statistics dos EUA: o setor de saúde e cuidados pessoais deve liderar a criação de vagas na próxima década. Uma tendência explicada pelo envelhecimento da população, mas também pelo fato de que profissões ligadas ao cuidado humano seguem imunes à automação.
O recado é direto: o diploma ainda tem valor, mas deixou de ser escudo. Virou ferramenta — e pode virar sucata se não for bem utilizado. Para nós, que atuamos no mercado financeiro, não adianta lutar contra a IA: precisamos aprender a usá-la como alavanca. Repito isso toda semana aos meus sócios na Black Investimentos.
Empatia, relacionamento e proximidade com o cliente serão cada vez mais valorizados, pois olhar alguém nos olhos e criar confiança nenhuma máquina consegue fazer, ainda…









