O Rio Grande do Sul respira tradição. Seja no compasso do pezinho, no chimarrão que aquece e une, no hino entoado com peito aberto — desde cedo o gaúcho aprende a carregar consigo símbolos que emocionam, seja no campo, na cidade ou em qualquer canto do mundo. Nossa cultura não é apenas bela: ela encanta, acolhe, abre portas e corações a quem nos visita. Os gaúchos são conhecidos como um povo hospitaleiro e com alma generosa que transcende fronteiras. Mas a Semana Farroupilha não pode ser apenas celebração. Precisa ser reflexão. O 20 de Setembro nos recorda que bravura é importante, mas não é suficiente. Como canta o nosso hino: “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Virtude, no Rio Grande do Sul significa responsabilidade, solidariedade e visão de futuro.
O Estado deu provas recentes de força. Em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,9%, puxado pela agropecuária, que avançou 35% com safras expressivas de soja, milho, arroz e trigo. Depois de anos de estiagens e da maior catástrofe climática que assolou nosso território, foi um respiro que reforça a vocação produtiva do Rio Grande. Mas também nos lembra de que dependemos demais do campo — e que precisamos diversificar, industrializar, inovar e ampliar nossa base econômica para que o futuro seja mais seguro.
Seja na indústria criativa, no turismo que encanta milhões ou na tecnologia que floresce em universidades e startups, há virtudes gaúchas a serem cultivadas. Virtudes que unem bravura a inteligência, tradição a inovação. É hora de avançar além da lembrança heróica. Virtude hoje significa preservar os rios, cuidar das cidades, apoiar quem mais precisa, apostar em educação e na ciência. Significa agir para que os filhos e netos herdem um Rio Grande mais justo, sustentável e próspero.
E o que cada gaúcho pode fazer? No campo, preservar o solo e diversificar culturas. Na cidade, cobrar planejamento, zelar pelos espaços públicos e movimentar a economia com trabalho, empreendedorismo e inovação. No cotidiano, praticar solidariedade e valorizar a produção local. Na política, exigir transparência e compromisso. Cada um de nós precisa assumir seu papel e tomar a frente do desenvolvimento, porque o futuro do Rio Grande do Sul não virá apenas de governos, mas da soma das atitudes de seu povo.
A Semana Farroupilha é orgulho, é memória, é identidade. Mas também precisa ser promessa. Que neste 20 de Setembro cada gaúcho, de todas as querências, do campo e da cidade, se veja não só como guardião de uma história, mas como protagonista de um futuro. Que façamos jus ao hino: sejamos virtude viva, para que o Rio Grande do Sul siga sendo modelo a toda terra.
DIA A DIA “AGAUCHADO”

Pedro Oliveira, 72 anos, pesquisador, fala com simplicidade sobre a sua ligação com o Rio Grande do Sul e o tradicionalismo. Questionado sobre o que sente em ser gaúcho, resume. “A palavra sentimento já diz tudo, sentir! Posso me sentir gaúcho com ou sem pilcha, em qualquer lugar e em qualquer época do ano.” Ele conta que sua ligação com o tradicionalismo nasceu em casa, como uma verdadeira herança dos pais e dos irmãos mais velhos, que lhe transmitiram esse amor pelas tradições. Sobre o 20 de Setembro, lembra que já viveu intensamente essa data, quando exercia cargos no Movimento Tradicionalista e participava da programação oficial em Canela, no Estado e até fora dele. “Já comemoramos no Rio de Janeiro, certa vez”, recorda o historiador.
No dia a dia, Oliveira afirma que sua vida é “agauchada”, com ou sem bombacha. “Está nos hábitos, na culinária, na literatura e também nas pesquisas que publico no jornal Nova Época, especialmente na coluna Folcloreando”, conta ele. “Levo a tradição nos livros e jornais que escrevo e nas viagens, de bota e bombacha em países como Uruguai, Argentina, Chile, Estados Unidos e até na Antártida”, destaca o Oliveira.
Embora não tenha filhos, diz que transmite o tradicionalismo nas escolas, nos DTGs e, principalmente, aos leitores do jornal. “É assim que mantenho viva a chama da cultura gaúcha”, conclui Oliveira.
DESDE OS 18 ANOS CULTIVANDO OS VALORES DO RIO GRANDE

Outro exemplo de amor ao gauchismo, de reverência à pilcha chama-se Luiz Kerschner. Aos 65 anos de idade, é o atual patrão do CTG Querência. Com emoção, narra o orgulho que sente em ser gaúcho, em cultivar as tradições do Rio Grande do Sul. “É uma emoção que carrego no peito, é viver com respeito, coragem e amor pela cultura, é ter a chama da tradição sempre acessa”, resume.
Kerschner descobriu que o tradicionalismo seria uma das suas paixões aos 18 anos quando trabalhou na construção de uma cancha de tiro de laço. Frequentou fandangos, rodeios, cavalgadas, integrou brevemente a invernada artística e, ao longo dos anos, ocupou funções até chegar à patronagem. Hoje, dedica-se a reestruturar e resgatar o Querência, sempre com apoio da comunidade. Neste 20 de Setembro, estará à frente do Desfile Farroupilha, da recepção aos tradicionalistas com bóia campeira e baile, além da extinção da Chama Crioula, em parceria com a Prefeitura e a Associação Tradicionalista.
No cotidiano, cultiva o chimarrão, o churrasco de domingo, a música gaúcha, o respeito e a palavra dada. “Gosto da música gaúcha, do churrasco de domingo, as coisas simples e amizades sinceras que carregam nossa identidade”, frisa Kerschner.
Sua família acompanha de perto, filhos e netos já participaram de invernadas, entreveros e prendas, e sua filha também auxilia como instrutora. Ele procura transmitir os valores do tradicionalismo. “Sempre gostei da nossa cultura, quando vim do Interior aos 18 anos logo comecei a auxiliar no CTG, depois comecei a participar dos bailes e assistir aos rodeios, ( gostava de acampar ). Com o passar do tempo trouxe minha filha mais velha para participar da invernada artística, depois os guris , fazendo parte então dá invernada social, tomando a cada dia mais gosto e amor pelo tradicionalismo”, ressalta Kerschner.
TRADICIONALISMO COMO MODO DE VIDA

Diego da Rocha Santos, 43 anos, designer gráfico, fala com emoção sobre sua ligação com o tradicionalismo. “Ser gaúcho é carregar no peito a força da tradição, a honra da palavra e o orgulho de pertencer a uma terra que respira cultura. É sentir-se parte de uma história que não se apaga, com a responsabilidade de manter viva a chama herdada dos nossos antepassados”, afirma Santos.
Esse amor nasceu ainda na infância, convivendo com a família no CTG Querência, onde aprendeu que o tradicionalismo é um modo de vida. “Foi ali que percebi que o tradicionalismo não é apenas um costume, mas um modo de viver e de se relacionar com a história e os valores do nosso povo”, lembra ele.
Para o 20 de Setembro, planeja celebrar com a família no Desfile Farroupilha, seguido da bailanta no CTG até a extinção da Chama Crioula. “Para mim, é um dia de vivenciar intensamente a tradição e o orgulho de ser gaúcho”, diz Santos.
No cotidiano, ele mantém costumes como o chimarrão, o churrasco, os rodeios, o laço, o cavalo e os fandangos. A herança é transmitida à filha Pietra, incentivada a valorizar a cultura e o respeito. “Acredito que o maior legado é ensinar pelo exemplo. Busco mostrar à minha filha Pietra a importância da cultura, do respeito e da valorização da nossa história, para que ela também se reconheça como parte dessa herança”, ressalta ele.
Santos recorda também um “causo” marcante, quando, ainda menino, escapou de uma vaca brava graças à coragem da mãe que pulou à frente do animal. “É um “causo” que revela não só a coragem, mas também o instinto de proteção e amor que se encontram no seio da família gaúcha”, frisa Santos. Sua trajetória sempre esteve ligada ao CTG Querência, onde participou das invernadas mirim, juvenil e adulta, foi posteiro em todas, primeiro Guri Farroupilha da entidade e hoje integra a Invernada Campeira e preside o Conselho de Vaqueanos.









