O que acontece quando as luzes do palco se apagam e a cortina se abre (quando ela funciona) é mais do que uma simples encenação. É um ato de fé! E neste último fim de semana, o palco estava cheio de uma fé vibrante, de uma certeza de que a arte tem o poder de nos transformar. Três obras clássicas foram os veículos dessa transformação. A plateia, interessada e sedenta por arte, assistiu, perplexa, à qualidade impressionante de trabalhos de conclusão de montagens teatrais, que uniu a experiência de atores que já trabalham com arte à coragem de estreantes.
O Teatro Municipal de Canela (nosso velho “teatrão”), naqueles três dias, foi a prova viva de que a arte é a voz que grita quando as palavras se calam. A encenação de “Bailei na Curva”, de Júlio Conte, nos transportou por uma jornada nostálgica e sensível sobre as mudanças da vida a partir do golpe militar e o quanto nossas feridas ainda sangram. Em seguida, “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, explorou as profundezas da vaidade e da corrupção da alma humana com uma montagem estética e surrealista. Por fim, “A Casa de Bernarda Alba”, de Federico García Lorca, nos mergulhou na repressão e na força inabalável das mulheres que buscam a liberdade permeada pela força da poesia de Lorca. Essas histórias, atravessaram o público com suas próprias verdades, ressoaram por uma sala que, por algumas horas, se tornou um refúgio para a beleza, a dor e a reflexão.
Nem mesmo o frio foi capaz de afastar o público apaixonado. As pessoas não só compareceram, mas voltaram ao teatro para assistir as outras obras, e após cada apresentação, permaneceram para participar dos debates que se seguiram. A disposição em discutir as obras e suas temáticas, em compartilhar impressões e reflexões, demonstrou que o teatro ali era mais do que um espetáculo; era um ponto de encontro para a troca de ideias e a construção de um pensamento crítico. Tão necessário nos tempos das “trocas de likes”.
Tudo isso nos faz lembrar de algo fundamental: a importância de espaços públicos equipados e preparados com o mínimo de estrutura e de políticas públicas que funcionem. Afinal, é nesses lugares que a magia acontece, que o talento é cultivado e que as vozes, antigas e novas, encontram seu eco. É lá que o teatro rompe a “bolha” do entretenimento e se torna uma poderosa ferramenta de transformação social, uma celebração da liberdade e da criatividade humana.
Que o sucesso desses espetáculos seja um lembrete para todos nós: o teatro não é apenas uma arte, é uma necessidade! E a sua sobrevivência, assim como a nossa, depende da sua valorização. Aproveito para parabenizar meus 60 alunos e as 1.089 pessoas que foram ao teatro no último fim de semana. Seguimos!









