
Faz um certo tempo que este convite chegou para me juntar ao Nova Época. As recusas anteriores se deram por conta de projetos que eu já havia assumido e exigiam de mim total dedicação. Agora, mais uma vez, a Marina reiterou que gostaria de ceder a mim a coluna de gastronomia do Nova Época. Tenho familiaridade com a editoria, pois nestes mais de 25 anos de carreira, boa parte deles foi escrevendo sobre o que chega às mesas da nossa Serra Gaúcha, tornando-a tão especial.
Desta vez aceitei, pois hoje me permito transformar aquilo que por muito tempo foi meu ofício, o de repórter, agora em um prazeroso hobby. A escrita para mim é, sobretudo, autoconhecimento e um quadro em branco, sendo pintado por palavras. Não aquelas geradas por IA (elas servem muito bem a outros propósitos), mas sim por palavras que são sentidas antes de ocupar seu posto em cada história.
A partir de agora, sabores e histórias serão contadas aqui de forma despretensiosa. Meu convite é para que sente à mesa comigo, vamos degustar juntos cada palavra.

Camarão, brie e contos de Clarice Lispector
Histórias são capazes de dar sentido aos sabores ou seria o contrário? Não há nada mais delicioso que folhear as páginas de um livro enquanto saboreamos algo que apreciamos ou então queremos descobrir. Da mesma forma, os sabores que advêm de receitas são, na verdade, histórias de vários gêneros sendo escritas por quem as prepara.
Para mim, livros e pratos se entrelaçam como em uma dança harmoniosa. E foi exatamente assim que aconteceu durante a minha visita ao consagrado Empório Canela. A casa, vizinha da Catedral de Pedras, tem 18 anos e preserva de forma genuína elementos de aconchego e afeto.
Depois de percorrer os olhos pelo cardápio e a escolha ser feita – risoto de camarão, brie, brócolis e raspas de limão -, fui em busca da leitura que iria compor meu momento de deleite. Queria saborear um livro que me levasse pelo tempo, apresentando personagens e cenários que a minha imaginação haveria de construir em detalhes. E assim foi: retirei da prateleira o maravilhoso Laços de Família, da consagrada Clarice Lispector, um livro que teve sua primeira edição em 1960, e fui saborear o risoto.

Ingrediente surpresa: “As Time Goes By”
Naquela noite cheguei cedo e escolhi uma mesa de forma aleatória, sem saber que, na verdade, horas depois estaria frente a frente com Alex Bessa, experiente músico, tecladista, compositor e produtor que já trabalhou com nomes como Rita Lee. Propus a ele que escolhesse uma música que combinasse com o livro e o prato escolhidos. E foi aí que Alex trouxe “As Time Goes By”, canção imortalizada no filme Casablanca (1942). Diante de tanta nostalgia, só faltava escolher a sobremesa: encerrei com o clássico Crocante de Nozes.










