Em 2025, completamos uma década de polarização política no Brasil. Desde 2015, com as manifestações pela saída do PT do poder, que culminaram no impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016, o país vive um conflito incessante. Lulistas e antipetistas, muitos dos quais posteriormente se alinharam à figura de Jair Bolsonaro, mergulharam em uma polarização tão intensa que, hoje, a posição política de uma pessoa importa mais do que suas ideias, sugestões ou comentários. Basta identificar sua preferência política para que um lado imediatamente adote seu discurso e o outro o demonize.
O problema de discutirmos pessoas em vez de ideias é que os indivíduos, por natureza, falham, erram, mudam de opinião ou abandonam suas convicções. Pior ainda é quando fingem ser algo que não são, enganando milhares ou até milhões de pessoas. Transformar figuras como Lula e Bolsonaro em personificações de campos políticos faz com que seus seguidores mais fanáticos adotem a noção de infalibilidade do ‘mito’. Essa armadilha atingiu primeiro a esquerda, pois, apesar de negado por seus apoiadores mais fervorosos, Lula foi condenado por corrupção (com a sentença posteriormente anulada por questões técnicas), com diversas evidências contra ele.
Agora, Bolsonaro enfrenta um processo em que seus atos estão sendo escrutinados. Essa escalada resultou em sanções dos Estados Unidos ao Brasil, com ele e seus filhos causando prejuízos econômicos ao país em uma aparente tentativa de chantagear autoridades para obter anistia. Em outras palavras, o país inteiro é prejudicado para proteger Jair Bolsonaro. Apesar dessa leitura evidente dos fatos, comprovada por áudios e conversas agora públicas, os seguidores bolsonaristas insistem em negar o óbvio, pois admitir erros seria reconhecer a falibilidade do ‘Mito’ – apelido que, não por acaso, foi dado a Jair Bolsonaro.
Essa dinâmica resulta em um sequestro de ideias, tanto da esquerda quanto da direita. A personificação de Lula e Bolsonaro impede o surgimento de novos líderes, a discussão de problemas e soluções e promove uma defesa cega e doentia dos eventuais métodos escusos adotados por ambos. Embora esse fenômeno ocorra em outros países, como os Estados Unidos, é no Brasil que ele se manifesta de forma mais intensa.
Não sei se verei o Brasil livre dessa dualidade, mas acredito que, sem o surgimento de novos ‘mitos infalíveis’ como Lula ou Bolsonaro, o país poderá amadurecer, prosperar e, quem sabe, construir uma sociedade mais tolerante e desenvolvida em termos econômicos e sociais.









