“A paisagem muda, as pessoas mudam, as necessidades se transformam, mas o trem segue adiante. A vida é o trem, não a estação.”
(William Rafael Dimas)
A primeira imagem que lembro gravada na minha memória, acho que deveria ter uns dois anos, é eu olhando para fora da janela de um trem, lá fora muito verde passando. Depois descobri que foi durante uma “viagem”, no colo da minha mãe, no nosso trem… esse, criado pela bravura de João Corrêa, que transportou gente e cargas para cá de 1924 (três anos após ter chegado a Gramado) a 1963. Sou um remanescente, então, dos que sacolejaram, uma vez que seja, no meio de transporte que elevou Canela de patamar.
Marcos Vinícios, um primo meu falecido há alguns anos atrás, me contou certa feita que uma das imagens mais tristes que ele presenciou foi, após decretado o encerramento das viagens da locomotiva para Canela, vê-la passar – como sempre, nos fundos da casa dele – uma última vez, de retorno, com homens carregando-a com os próprios dormentes. Ela pateticamente estava indo embora e levava a estrada. Vai que se arrependesse e resolvesse voltar, resfolegando baforadas de carvão? O governo que encampou a linha férrea não podia correr esse risco. Tinha que cumprir a desdita de nos afastar pra sempre do trem, que, se mantido e logicamente modernizado, nos traria hoje muitas benesses, principalmente para o turismo.
Mas a crise de muitas décadas que levou ao ocaso do transporte em trilhos no RS não se abateu só sobre a Serra Gaúcha. Hoje o nosso Estado, se ainda possui uma das maiores malhas ferroviárias do Brasil, com aproximadamente 10% dos cerca de 30 mil quilômetros do país, tinha mais da metade dela desativada ou suspensa em 2022. Vieram as enchentes de 2024 e a situação piorou. Atualmente, restam 921km em operação. Nos últimos 28 anos, encolheu 75%. E ninguém garante que estarão em funcionamento em fevereiro de 2027, quando termina o contrato atual da ANTT com a empresa Rumo Malha Sul, que tem a concessão para operar o modal ferroviário.
Falo hoje sobre crise dos trens porque, se já não recebe um, ao menos na memória nossa cidade cumpre o dever de homenageá-los. Tudo bem que aquele tombado no Mundo a Vapor sempre reconstituiu um acidente ocorrido em Paris, mas é trem, e trem para nós é história local inclusive nas máquinas a vapor criadas pelos saudosos Omar e Benito Urbani. E tem a Estação Campos de Canella, cuja iniciativa da Novalternativa fez reavivar muito do glamour daquele exato local de encontros e despedidas.
Agora, a Estação conhecida como a Rua Coberta de Canela contará com uma atração permanente para os visitantes, a exposição “Memória sobre Trilhos”. Com produção de Adriana Guimarães e Liliana Reid, a mostra é composta por diversos painéis com textos breves, ilustrações e fotos relacionados à história do trem, além de um QR Code com informações adicionais. O mundo do trem tem, então, uma bela amostra nesta exposição, do âmbito mundial ao local. Dando ênfase, é claro, à construção da estrada de ferro que ligava Porto Alegre a Canela, fundamental para o desenvolvimento social e econômico da região.
Para as produtoras, a exposição tem por objetivo ser um memorial sobre o trem, compartilhando conhecimentos. “Queremos que o público revisite essa trajetória que atravessa continentes, molda civilizações e deixa marcas profundas no Estado, até chegar ao coração de Canela”, explicam. A realização é da Novalternativa Incorporadora e Estação Campos de Canella, com produção do Almanaque de Canela, com apoio do Grande Hotel Canela, família Corrêa, Marizabel Viezze e Eyes Soluções.



Painés que reavivam tempos de apitos, chegadas, partidas e expectativa de progresso.








