A Educação de Canela inicia 2026 com um dado objetivo: o orçamento. A área contará com R$ 126,2 milhões, valor que corresponde a 29,48% do orçamento municipal e representa a maior destinação de recursos entre as pastas da administração. Esse montante sustenta o funcionamento da rede municipal, incluindo salários e encargos, alimentação escolar, transporte, manutenção das escolas e programas educacionais. Os números colocam o município em uma posição de estabilidade financeira na área educacional. A rede opera com recursos garantidos e com capacidade de planejamento anual, condição que permite manter políticas públicas em andamento e acompanhar seus resultados de forma mais consistente. Nos últimos anos, a principal mudança estrutural foi a consolidação do ensino em tempo integral. O modelo ampliou a permanência dos alunos na escola e reorganizou a rotina das famílias, além de incorporar atividades complementares ao currículo. A adoção desse formato exigiu reorganização administrativa, ampliação de serviços e aumento de custos permanentes, hoje absorvidos pelo orçamento da Educação. Os dados de desempenho mostram diferenças entre as etapas de ensino. Os anos iniciais do Ensino Fundamental apresentam resultados mais estáveis, enquanto os anos finais concentram as maiores dificuldades, com avanços mais lentos na aprendizagem. Essa diferença aparece nos indicadores oficiais e reforça a necessidade de ações direcionadas a essa etapa da rede. A Educação Infantil também segue como ponto de atenção, especialmente no que diz respeito à oferta de vagas em um modelo que prioriza o turno integral.

TOLÃO assume mais uma vez a Educação
Foto: Marina Gil
Mudança na secretaria
É nesse cenário que assume a Secretaria de Educação, Esporte e Lazer o vice-prefeito Gilberto Tegner, o Tolão (PDT). Ele sucede a professora Maria Gorete Rodrigues da Silva. Com trajetória consolidada na administração pública municipal e passagens anteriores pela área da Educação, Tolão retorna à secretaria conhecendo a estrutura da rede, os limites orçamentários e os desafios históricos do setor. A mudança ocorre em uma secretaria organizada, com políticas em curso e orçamento definido. O foco da nova gestão passa a ser a condução dessas políticas, a definição de prioridades e o acompanhamento dos resultados. É a partir desse cenário que se delineou a entrevista exclusiva com o novo secretário. Ao longo da conversa, ele detalha as prioridades imediatas da gestão, como a reposição de profissionais por meio de concurso público, a qualificação do ensino em tempo integral e as adequações estruturais da rede. Também aborda os desafios dos anos finais do Ensino Fundamental, o uso responsável dos indicadores educacionais e a ampliação do atendimento na Educação Infantil.
Entrevista – Gilberto Tegner
NE- Ao assumir a secretaria, qual é o ponto da rede municipal que mais exige atenção imediata da gestão?
Tolão – Ao assumir a secretaria, a principal atenção da gestão está na estruturação da rede, especialmente na reposição de profissionais, na organização do turno integral e na estrutura física das escolas. A primeira medida é a realização de concurso público para garantir professores e profissionais concursados, com vínculo estável em todas as escolas. A qualidade do ensino depende não apenas da formação, mas também da estabilidade funcional. Não é possível manter a rede funcionando permanentemente com convocações temporárias e horas extras.
Outro ponto imediato é a contratação dos oficineiros do turno integral. Esse modelo exige atividades diferenciadas, e esses profissionais precisam iniciar o trabalho junto com o começo do ano letivo, para que todo o período seja aproveitado pelos alunos. Por fim, há a estrutura das escolas. Com a conclusão da implantação do turno integral em todas as escolas municipais urbanas, ainda existem obras e adequações necessárias para que todas estejam plenamente preparadas para esse modelo.
NE – O senhor retorna à Secretaria de Educação em um contexto diferente de outras passagens. O que mudou na Educação de Canela e o que ainda permanece como desafio histórico?
Tolão – Ao comparar o momento atual com experiências anteriores, é possível perceber uma mudança profunda no tamanho e na complexidade da rede. No início dos anos 1990, a Educação Infantil ainda não estava plenamente integrada à política educacional. As creches eram vinculadas à área social e mantidas com recursos próprios do município. Nos anos 2000, a Educação Infantil passou a integrar a Secretaria de Educação, mas o financiamento federal, por meio do Fundef, atendia apenas o Ensino Fundamental. A partir de 2017, com o Fundeb, o cenário mudou e permitiu maior estruturação do sistema.
Nesse mesmo período, Canela iniciou a implantação do ensino em tempo integral, o que elevou o nível de investimento e responsabilidade da rede. Onde antes havia poucas creches, hoje o município conta com quase 20 escolas de Educação Infantil próprias, além da ampliação do atendimento para maternais e berçários.
O desafio histórico continua sendo conciliar expansão, financiamento e qualidade. A cidade cresce, a demanda aumenta e é preciso planejar novas escolas, como nos bairros Santa Terezinha e São Lucas, sem perder o foco na qualidade do ensino.
NE – O ensino em tempo integral se consolidou como política estruturante nos últimos anos. O que esse modelo entregou até aqui e o que ainda precisa melhorar?
Tolão – O ensino em tempo integral em Canela é resultado de uma construção histórica da qual o município tem orgulho. Ele ampliou o tempo de permanência das crianças na escola e cumpre hoje uma função social importante, oferecendo acolhimento e organização para as famílias.
O grande desafio agora é qualificar esse tempo, para que ele cumpra plenamente também a sua função pedagógica. Isso envolve não apenas estrutura física, mas também investimento em professores e oficineiros preparados para desenvolver atividades que despertem o interesse dos alunos.
Em 2025, o município avança na implantação do oitavo ano em turno integral nas escolas urbanas e, no próximo ano, essa etapa será concluída. A partir disso, o foco passa a ser a melhoria contínua da proposta pedagógica.
NE – Os indicadores educacionais mostram resultados mais consistentes nos anos iniciais. Como o senhor avalia a situação dos anos finais do Ensino Fundamental?
Tolão – Os desafios enfrentados nos anos finais não são exclusivos de Canela. Eles refletem gargalos presentes em todo o país. De forma geral, os resultados dos anos iniciais costumam ser superiores aos dos anos finais, e há também dificuldade na transição para o ensino médio.
Nos anos finais, o aluno passa a ter mais professores, mais autonomia e um universo maior de interesses, o que pode gerar dispersão. O principal desafio é manter o foco e o vínculo dos estudantes nessa etapa, fortalecendo o acompanhamento pedagógico e a relação da escola com as famílias.
NE – A Educação infantil segue sendo uma demanda sensível para as famílias. Como enfrentar a ampliação de vagas mantendo a qualidade?
Tolão – Canela está muito próxima da universalização do atendimento na Educação Infantil. As filas variam ao longo do ano por conta de nascimentos e migração, mas no início do ano letivo a demanda costuma ficar próxima de zero, do Berçário ao Pré-2. O município adota um modelo que combina escolas próprias e escolas conveniadas, o que tem permitido atender a maior parte da demanda. Está no horizonte da gestão recuperar estruturas como a Creche Tio Beto – Escola de Educação Infantil Adalberto Wortmann, no bairro Canelinha, além de ampliar convênios sempre que necessário.









