Em 53 anos de Festival de Cinema de Gramado, pela primeira vez a sua vizinha mais próxima, hoje praticamente ligada por 6km de hotéis e estabelecimentos comerciais, vai estar representada na mostra competitiva. Na edição de 2025, que se iniciou na quarta-feira (13) e vai até o dia 23 de agosto, uma produção rodada em Canela, com elenco e direção de moradores da cidade, concorrerá ao Kikito na categoria Melhor Curta-metragem gaúcho.
Fuá – o Sonho, que será exibido no sábado (16) à tarde, no Palácio dos Festivais, irá também percorrer o circuito de festivais no Brasil e estará no YouTube.

Foto: Amallia Brandolff
Um cenário inédito
Quem conhece Canela e sua história poderia associá-la a muitos aspectos que serviriam de pano de fundo para um filme: seu desenvolvimento a partir do Caracol, a estrada de ferro, as hortênsias, os alemães e italianos que se misturaram com os serranos, e assim vai. Já um filme de temática indígena, com personagens reais em seu habitat num recanto de Canela, seria uma hipótese quase inimaginável.
Pois o curta-metragem Fuá – o Sonho tem como ambientação a comunidade indígena de retomada Kaingang Kógunh Mág, que se estabeleceu na área da Flona, mais conhecida como Floresta do Ibama, reivindicando a posse do lugar por ancestralidade, daí a denominação retomada nesta e em diversas outras ocupações de Kaingangs. Algumas cenas foram gravadas na área da retomada Gãh Ré, no Morro Santana, em Porto Alegre.

Gravação de cena noturna.
Foto: Amallia Brandolff
Alicerçado nos saberes ancestrais do povo Kaingang, o enredo de Fuá – o Sonho conta a jornada de uma menina da tribo que tem sonhos que a perturbam, sobre uma planta misteriosa de grandes poderes e seus significados tribais. Ela sente que esses sonhos podem ser um chamado. A protagonista, Fuá, preocupada também em encontrar a cura para um problema de visão da mãe, parte em busca de ajuda para entender o que há por trás destes sonhos, que talvez auxiliem na melhora da mulher.
O final do filme, que também levanta a questão da aculturação religiosa com a aproximação de igrejas para buscar fiéis entre os indígenas, deixemos que as plateias, do Festival de Cinema em diante, descubram. Narrado na língua Kaingang (o termo significa “gente do mato”), então legendado, o curta serve também de exaltação da participação feminina naquelas comunidades.
Gravação de cena noturna
A direção é compartilhada entre Viviane Jag Fej Farias (uma Kaingang da Kógunh Mág) e Amallia Brandolff, que dirigiu O Armário Interior. Amallia também é produtora executiva. No elenco estão Marcielly Fuá Salvador, Damiani Emi Vicente, Iracema Gãh Té Nascimento, Juliana Vem Fej Lopes, Estefani S. Lopes, Marlene Jog Gri Salvador e Marcio Kakupry Salvador. Uma “construção colaborativa” (nas palavras de Brandolff), Fuá – o Sonho contou com o auxílio da antropóloga Ana Elisa de Castro Farias e da líder espiritual Kujà Iracema Gãh Té Nascimento, que juntamente com Fernando Gomes construíram o roteiro. Lisi Berti contribuiu na preparação de elenco.
O projeto está sendo realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo.

Ao lado, a preponderância da mulher Kaingang em cena. Da esquerda para a direita: Juliana Vem Fej Lopes, Iracema Gãh Té Nascimento, Marcielly Fuá Salvador, Estefani S. Lopes, Damiani Emi Vicente e Marlene Jog Gri Salvador.
Foto: inventário audiovisual

Foto: inventário audiovisual

Fuá, ouvindo a sabedoria da Kuja Gãh Té…
Foto: Amallia Brandolff

… e buscando a força da natureza.
Foto: Amallia Brandolff

Iracema Gãh Té e Ana Elisa de Castro Farias.
Foto: Amallia Brandolff









