Enquanto as bombas explodem do outro lado do mundo, aqui o café segue sendo passado todas as manhãs. Crianças vão para a escola, influenciadores ensinam receitas de bolo de cenoura no Instagram e o algoritmo nos empurra promoções daquilo que supostamente tem a ver com nossas “preferências”. O noticiário até interrompe a programação com imagens de prédios desabando, mas logo depois volta a falar do reality show da vez, da nova série de streaming, da previsão do tempo para o fim de semana.
A frase de Martin Luther King ecoa como um sussurro incômodo: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” E o silêncio, hoje, tem muitas formas. Vem disfarçado de indiferença, de cansaço, de “não é problema meu”. Vem no rolar automático do feed, vendo tragédias e memes com o mesmo nível de distração, no olhar que desvia, na desculpa de que já há sofrimento demais para dar conta.
Enquanto isso, a hipocrisia vai se empilhando como entulho emocional. Nos primeiros dias, todo mundo posta bandeiras, faz textão, troca a foto de perfil. Mas basta o próximo escândalo de celebridade, a nova tendência de dança, ou alguma polêmica doméstica para o interesse morrer de tédio. O ser humano tem essa habilidade cruel de se desapegar rápido, de enjoar até da própria comoção. Enquanto aqui a gente cansa de sentir, lá do outro lado crianças enterram seus brinquedos junto com os irmãos, mulheres gritam por socorro que nunca chega, e famílias inteiras viram estatísticas em gráficos que ninguém mais lê.
De um lado, o mundo em chamas. Do outro, a vida seguindo como se nada estivesse pegando fogo. A distância entre os dois parece confortável, até segura. Mas talvez, um dia, a fumaça chegue até aqui. E quando chegar, talvez já tenhamos perdido a capacidade de escutar, de reagir, de sentir. Porque o perigo maior nunca foi o barulho das bombas. Foi, e sempre será, o silêncio dos bons.









