Há cidades que nasceram de serras, outras de rios. Canela nasceu do palco. Durante décadas, as cortinas do teatro se abriram para revelar mais do que cenas, mostravam o coração latente de uma comunidade que se reconhecia em cada aplauso, em cada improviso, em cada história contada sob a luz simples de refletores antigos, os “sapões” do Teatrão. Na última sexta, dia dez, com o lançamento do livro A História do Teatro de Canela, esse coração voltou a bater, mesmo que em outro ritmo. As páginas reuniram artistas, produtores, técnicos, professores, alunos, nomes e vozes que fizeram e fazem da arte uma forma de existência.

Ler essas lembranças foi como abrir um velho camarim: o cheiro de maquiagens, das madeiras velhas do lugar, os figurinos guardados com afeto, o som distante das risadas e bastidores, as cadeiras com acessórios, os espelhos com luzes ligadas. Há algo profundamente humano em revisitar o passado, não por saudosismo, mas porque recordar é afirmar quem fomos, e portanto, ainda somos. O passado, quando registrado, não é apenas uma relíquia; é um espelho. E é nesse reflexo que nasce a autoestima de um povo, como aconteceu nos anos noventa em Canela com a chegada dos grandes festivais de teatro e teatro de bonecos.
Mas o que fazemos com esse legado imaterial hoje? A nostalgia é um perfume bonito, mas não pode ser casa permanente. O desafio é transformar lembrança em impulso, que o registro do que fomos não seja só monumento, mas combustível. Que inspire novos projetos, novos festivais, novas vozes que também queiram dizer “eu estive aqui, e fiz parte dessa história”, como ouvimos nos depoimentos emocionados no lançamento do livro.
Canela nasceu dos palcos, e deles herdou o dom de transformar o cotidiano em cena. Mas não basta admirar o passado como quem olha uma fotografia amarelada: é preciso soprar o pó da lembrança e deixá-la pulsar no presente. O teatro não é apenas memória, é movimento. Porque lembrar, sem agir, é deixar a história adormecer. Viver o legado é permitir que o passado nos inspire a continuar criando, para que Canela não apenas recorde o que foi, mas encene, a cada dia, o que ainda pode ser. Eu acredito que Canela pode ser muito, pela sua força e envolvimento comunitário. E você?









