8 de março e 365 de silêncio

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No dia 8 de março ele acorda gentil. Compra flores, posta foto, escreve “minha rainha, meu alicerce”. Diz que respeita, que admira, que apoia. À noite brinda às mulheres fortes, de preferência as que não falam alto demais. No dia 9, a mão volta a ser argumento e voz vira sentença. O corpo dela, território disciplinável. Se facilitar, apanha com a flor que ele mesmo deu. Porque a homenagem dura 24 horas, mas o pacto masculino, 365 dias.

Eles não precisam combinar. Não existe ata, não há grupo de mensagens chamado “Proteção aos Nossos”. Ainda assim, funciona. Um desembargador olha para uma menina de 12 anos e enxerga consentimento. Outro homem balança a cabeça, compreensivo. Um jogador se sente à vontade para dizer que mulher não deveria apitar jogo, e não é sobre futebol, nunca é sobre futebol. É sobre território. É sobre quem pode mandar, sobre quem pode falar e sobre quem deve baixar os olhos.

Uma freira aparece morta dentro do próprio convento. Silêncio espesso. Notas cautelosas. Cuidado com as palavras. Sempre cuidado com as palavras quando o suspeito é homem. A instituição respira fundo, protege o nome, protege a imagem e claro, protege a si mesma. Porque antes de proteger mulheres, protege-se o sistema. E o sistema tem sobrenome masculino.

Eles dizem que são casos isolados, mas curiosamente os casos isolados sempre se parecem. Sempre têm a mesma estrutura: ele erra, ela exagera. Ele se excede, ela provoca. Ele é promissor, ela é problemática. Ele tem futuro, ela tem reputação a perder. Não é que o sistema falhe. Ele funciona exatamente como foi desenhado. Ensina meninos a não chorar e homens a não ceder. Ensina que desejo masculino é impulso incontrolável e dor feminina é drama. Ensina que a reputação dele vale mais que o trauma dela. Ensina que entre eles sempre há um entendimento silencioso: hoje eu te defendo, amanhã pode ser minha vez.

No dia 8 de março eles aplaudem. Nos outros dias, explicam, justificam, absolvem, arquivam, fazem piadas em grupo e desacreditam em coro. E quando alguém diz “nem todo homem”, é verdade. Nem todo. Mas sempre há homens suficientes para sustentar o pacto. Sempre há homens suficientes para transformar violência em opinião, abuso em mal-entendido, estupro em interpretação. O problema nunca foi a falta de flores, mas o excesso de silêncio. É o destino delas que incomoda. Flores nas delegacias, deixadas depois que a ocorrência já foi registrada tarde demais. Flores nas portas das casas onde os vizinhos “não sabiam de nada”. Flores nas igrejas que pedem calma, prudência, silêncio. Flores nos tribunais onde a infância é debatida como tese. Flores nos velórios. Porque quando a violência termina em sangue, e tantas vezes termina, a flor reaparece. Não como gesto de amor, mas como tentativa de absolvição simbólica. Uma coroa branca, uma fita dourada, um “sentimos muito”.

Se querem mesmo homenagear mulheres, que comecem rompendo o pacto, queimando o clube, rasgando o estatuto invisível, denunciado o amigo, confrontando o colega, desmentindo o irmão. Até lá, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, seguirá sendo vitrine, e os outros 365 dias, bastidores de violência!

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