UM FATO A SER LEMBRADO

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Uma data histórica, quando não lembrada, cai no injusto balaio do esquecimento. É para resgatá-la, dar-lhe a devida importância, que em cada lugar existem os preocupados com a memória. Em Canela, um dos cidadãos que se sobressaem na pesquisa das nossas raízes é Marcelo Wasem Veeck (49), funcionário público municipal que estuda fatos dos antepassados tendo com ponto de partida a curiosidade, desde menino, sobre o que fizeram seus próprios ancestrais*. Marcelo lamenta o fato de, em 2024, a comunidade canelense não ter comemorado à altura o centenário da instalação da linha do trem que chegou aqui e foi um dos maiores vetores do nosso desenvolvimento.

Mas um fato marcante vai, em grande parte por iniciativa de Marcelo, merecidamente ser homenageado no dia 2 de março: os 100 anos da criação de Canela como Distrito de Taquara. Muito se fala e a cada 28 de dezembro se festeja a nossa Emancipação Política, ocorrida em 1944. No entanto, ela foi o passo seguinte da grande arrancada que significou nos tornarmos um distrito, 18 anos antes. Deixávamos de ser aquele povoado, muito distante, completamente dependente do município-sede, a imensa Taquara. Sermos promovidos a distrito significou o nascedouro da administração pública em Canela. Passamos a ser uma sub-intendência. Ensejou iniciarmos a implantação da estrutura de uma pequena cidade.

CIDADÃOS presentes na instalação do Sexto Distrito de Taquara, com sede em Canela, em 14/3/1926. Na primeira fila, da esquerda para a direita (a partir do 6º): Major Nicoletti, Cel. Diniz Martins Rangel, João Manoel Corrêa, Cel. João Corrêa Ferreira da Silva, Henrique Muxfeldt, Alfredo Rangel e o juiz Dr. Júlio Casado, entre outros.
Foto do livro: Canela por Muitas Razões

O PORQUÊ DO 6º DISTRITO

Nos idos de 1926, conta Marcelo Veeck, o 5º Distrito de Taquara já existia há cerca de 30 anos e a ele pertenciam Gramado e Canela. A chegada do trem, em 1924, aflorou a necessidade de maior autonomia para as localidades que, a partir de então, se desenvolveriam com grande rapidez. Transportando cargas e passageiros, o trem traria riqueza. Pessoa de livre trânsito no Palácio Piratini, João Corrêa Ferreira da Silva era amigo do então governador (entitulava-se presidente, à época) Borges de Medeiros e começou a gestionar por mudança na localização da subintendência. Como a sede do 5º Distrito era na distante Linha Bonita, em Gramado, também a figura do Major José Nicoletti, subintendente, assumiu protagonismo naquele episódio.
Era ponto pacífico que, quanto mais perto tudo estivesse da linha do trem, melhor. Não atendendo à solicitação de João Corrêa de trazer a subintendência para o Campestre Canella (em troca Nicoletti ganharia umas terras) Nicoletti transferiu então a sede, da Linha Bonita, para Gramado. Criado o impasse, o coronel João Corrêa fez valer o seu peso na política estadual (era correligionário de Borges de Medeiros no Partido Republicano Riograndense), sua influência junto ao governador e o fato de a maior autoridade no 5º Distrito, o intendente em Taquara, ser seu filho mais velho, João Manoel Corrêa, o Janguta. “A solução veio através da força da caneta de Janguta, que dividiu o 5º Distrito, dando origem ao 6º, cuja subintendência passou a ser em Canela”, diz Marcelo Veeck.

A sede da 6ª subintendência foi instaurada na Rua Dona Carlinda, ao lado do local onde hoje está a Prefeitura de Canela. Curiosidade: na mesma construção, um espaço para a cadeia. Começou a ser implantado um aparato de serviços públicos. Passamos a contar com delegado e delegacia, um cartório de registros, uma paróquia própria (a de Nossa senhora de Lourdes) e até um grande clube social e esportivo, o Serrano. Assumindo importância como provedora de energia elétrica para lugares distantes, em Canela já se planejava a construção da usina hidrelétrica da Toca, obra custeada pela Intendência de São Leopoldo, cujas fábricas já necessitavam de muita energia. A inauguração da usina aconteceu em 1929.

Apenas 18 anos após a ascensão a distrito, Canela se tornou município, um fato digno de nota. A pujança da economia, a força de trabalho das colônias alemãs, dos italianos que vieram para se dedicar principalmente ao comércio, dos luso-brasileiros que aqui transitavam e a ligação com as atividades agro-pastoris de São Francisco de Paula foram molas propulsoras. “Foram a gênese da nossa emancipação política”, pontua Marcelo Wasem Veeck.

João Manoel Corrêa

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS WASEM VEECK

O patriarca da família Veeck, que era do ramo da lapidação de pedras, veio da Alemanha em 1826 e instalou-se em São Leopoldo. O bisavô de Marcelo, depois de viver no Vale do Caí, escolhe em 1912 estabelecer-se no Caracol – à época, o nascedouro de Canela.

Marcelo Wasem Veeck

É no Caracol que se unem as duas ascendências de Marcelo, os Veeck e os Wasem – estes últimos, também originários da Alemanha. Eles ocuparam o Campestre Canella e, em 1872, passaram a ser proprietários de grande porção de terras devolutas no Caracol, onde o trabalho na terra foi difícil e encontraram uma cascata maravilhosa.

CRIADO EM 2 DE MARÇO, INSTALADO DOZE DIAS APÓS

Na transcrição da Ata da Sessão de Instalação do 6º Distrito de Taquara consta data e hora: “Aos quatorze dias do mês de março de 1926, às 10 horas, em prédio de propriedade do Sr. Danton Corrêa, próxima da estação da Estrada de Ferro, no Canella (…)”. A família Corrêa, então, acolhia a Sessão de Instalação do 6º Distrito, na figura principal de João Corrêa Ferreira da Silva, que presidiu a Sessão e foi o primeiro signatário da Ata com 99 nomes. Presenças ilustres foram o Intendente Municipal de Taquara, João Manoel Corrêa (de apelido Janguta), o coronel Diniz Martins Rangel e o Dr. Fernando Pereira. Henrique Muxfeldt foi nomeado para o cargo de subintendente do 6º Distrito de Canela.

A lembrança do evento

A Instalação sacramentava o Ato nº 309, de 2 de março de 1926, portanto essa deve ser considerada a data histórica. Neste primeiro Livro de Atas oficial de Canela – para nossa sorte digitalizado porque o exemplar físico está em local não sabido -, constam assinaturas de cidadãos cujos sobrenomes são os de muitas famílias que têm até hoje descendentes aqui. Citando alguns: Carlos F. Spindler, Hellmut Schmitt, Oscar Bauer, Rudi Schlieper, Antonio Gallas, Pedro da Silva Nunes, Adalberto Wortmann, Aristides e Manuel da Silva Reis, Luiz Wender, Manoel Wasem, Alzemiro Medeiros, Carlos Jung, Roberto Carlos Veeck, João Francisco da Rosa e Gentil Amaral Pacheco. A última assinatura é a de Danton Corrêa da Silva.

Também estavam presentes personalidades da vizinha Gramado (entre essas, o Major José Nicoletti e Augusto Daros), da região e um profissional da imprensa de São Leopoldo, Martin Fischer.

Páginas da Ata de Instalação do 6º Distrito

UM DIA PARA LEMBRAR

Na segunda-feira, 2 de março, a comunidade está convidada para um dia intenso de comemoração do surgimento do Distrito, programação que se inicia às 8 horas, no Paço Municipal. Em ação simultânea com as escolas municipais, serão hasteadas bandeiras e executados os hinos oficiais.
Nas escolas Rodolfo Schlieper, Professora Diva Pedroso da Cunha e Cônego João Marchesi acontecerá o plantio de caneleiras, alusivo ao centenário. No Espaço Sicredi da Rua João Pessoa, às 8h30min, Marcelo Veeck vai liderar uma roda de conversa sobre este acontecimento de 2 de março de 1926 e que ele conhece nos seus pormenores. Além do público em geral, algumas turmas de nossas escolas estarão presentes.

A Câmara de Vereadores, por sua vez, realizará Sessão Solene às 19 horas nas dependências do Grande Hotel Canela, local de valor histórico e contemporâneo de muitos dos acontecimentos ligados ao 6º Distrito e à Canela emancipada. A Sessão contará com apresentação do estudante José Milton da Silva Martins, da EMEIEFE Rodolfo Schlieper.

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