Oriundos de outros países, eles escolheram aqui como seu paradeiro e lugar para encontrar novas oportunidades de vida. Vieram de longe, fizeram escalas, experimentaram cidades, desceram ao sul do Brasil e acabaram subindo a Serra Gaúcha. Eles são os imigrantes, que ajudam a dar corpo aos quadros funcionais de empresas de Canela. Chegam com vontade de trabalhar, mostram o que sabem fazer e, se não for o caso, querem aprender novos ofícios. Só precisam de alguém que os ensine, não só novas profissões como essa tão difícil língua que é o português.
PEQUENO PANORAMA
Os trabalhadores oriundos de outros países que se tornaram canelenses são uma pequena amostra do universo de imigrantes contratados no Rio Grande do Sul, que em 2025 chegou à marca dos 53,6 mil, segundo dados levantados pelo Cadastro Gral de Empregados e Desempregados (Caged). Um aumento de mais de 20% em relação ao ano anterior, quando estavam registrados 42.637 profissionais. O fato de a Caxias do Sul das muitas fábricas ser apontada como a cidade que mais contratou formalmente indica que o setor da indústria é o de maior captação (cerca de 50%) dessa mão de obra. Em segundo lugar figura Porto Alegre, seguida de Erechim e os municípios do norte do Estado Passo Fundo e Marau. Os outros setores relevantes de atuação dos que chegam de longe são a agropecuária, o de serviços, o comércio e a construção. Para todos, há aumento de demanda por fatores como o envelhecimento da nossa população e a diminuição nos índices de natalidade. Em nível local, a hotelaria e a gastronomia puxam a frente nos atrativos para todos estes que, de anos para cá, se estabelecem em Canela e Gramado.
RETRIBUINDO COM DEDICAÇÃO PELA ACOLHIDA
Conversar com o chef Carlos Eduardo Martinez é obter uma visão de como as oportunidades de trabalho e melhor futuro movem as pessoa no mundo. Ele é um dos tantos entre milhares que se viram forçados a deixar a Venezuela pela deterioração da economia e ausência de perspectivas. País vizinho ao norte que somos, o Brasil tem se mostrado o destino mais hospitaleiro dentre as opções para essa massa de trabalhadores – hoje a Venezuela é o maior exportador de estrangeiros também para o nosso Estado.

Foto: Claiton Saul
Carlos Eduardo é um dos chefs do restaurante Piño Cozinha, um dos atrativos do hotel Jangal das Araucárias, unidade canelense da Rede Swan. Na sua terra natal (Valência, na região central e de forte tradição industrial), era chefe de segurança. Partiu acompanhado da esposa, há oito anos, e passou por diferentes lugares. O filho de Carlos e Reyitha nasceu aqui. Depois de dois anos em Boa Vista (Roraima), aceitou uma sugestão de tentar o sul, vindo a trabalhar em uma panificadora em Novo Hamburgo. Botava as mãos, então, no mundo da gastronomia, onde não era um completo desconhecedor porque cresceu ajudando a mãe, uma confeiteira. Nos cinco anos residindo em Canela, Carlos foi masseiro em pizzaria, conheceu a arte da fabricação do sushi em Gramado, trabalhou em galeteria em Canela, em restaurante sofisticado de carnes, passou pela cozinha do parque NBA e hoje coordena a cozinha de um dos turnos do Piño Cozinha.
Feliz por estar onde está, o venezuelano é agradecido pelas oportunidades que teve e nunca parou de se aperfeiçoar. Sofreu para aprender o português, vai fazer curso no Senac e considera Canela sua segunda casa. É muito grato pela acolhida e o reconhecimento pelo seu trabalho.
UM POUCO DA HOSPITALIDADE HAITIANA
A simpatia já é um cartão de visita de Serge Dorcelus, haitiano que também trabalha no restaurante do Hotel Jangal das Araucárias. Chegado ao Brasil no final de 2014, é pelo esforço pessoal, no entanto, que ele conquistou vaga onde está. Desde pequeno, no sul do Haiti, ajudava na lancheria da sua mãe e, lá, se tornou professor de matemática e ciências, ensinando por dez anos nas classes até o nono ano. Construir um futuro melhor no Brasil, no entanto, era uma possibilidade que Serge acabou abraçando. Contou muito também a busca pelo novo, a curiosidade, a vontade de saber como é a vida em um lugar tão longe e diferente do seu.

Foto: Claiton Saul
Serge Dorcelus veio para cá, sozinho. O custo da viagem foi (e é) altíssimo, em valores de hoje uma passagem de ida e volta significa em torno de R$ 10 mil. Seu primeiro destino no Rio Grande do Sul foi Canoas, onde trabalhou como pintor. No início não sabia uma palavra sequer em português e para se comunicar usava muito sinais e gestos. Alguns colegas haitianos em Canoas, que não conseguiram progredir na comunicação, se obrigaram a tentar a sorte em outros países. “Aqui, além do trabalho, é preciso que a pessoa seja inteligente para sobreviver, por causa do idioma. Se você não entender o que lhe dizem, ninguém vai lhe contratar”, diz Serge, que não frequentou aulas, aprendeu por absoluta necessidade. Para tal, no início ele optou por conversar (no caso, tentar) somente com brasileiros, para que a imersão no idioma fosse mais eficaz. Saindo de Canoas por sugestão de amigos haitianos que estavam na Região das Hortênsias, nosso entrevistado começou a trabalhar no mundo da hospitalidade em um lugar com DNA para tal, como Canela. Não foi difícil conseguir uma vaga neste setor, quando chegou aqui, porque veio em época de alta temporada, com necessidade de muita mão de obra. Mais importava, antes da experiência, a desenvoltura. E valeu muito, diz Serge sem modéstia, “vir de um lugar onde o povo é naturalmente hospitaleiro”.
Saudade é uma palavra, somente do português, que Dorcelus aprendeu na prática. Sente falta dos seus parentes e sabe que, visitá-los, exige uma economia de recursos proibitiva para quem mora de aluguel com família. Serge consegue hoje, para sua felicidade, viver com as duas filhas (a mais nova nasceu aqui) e a esposa, haitiana, que colabora com a economia doméstica trabalhando como costureira, cozinheira e confeiteira. Levando uma vida com propósito e vivendo um cotidiano de cinto apertado onde sobra pouco no fim do mês, mesmo assim a família deste haitiano em Canela envia seguidamente, por pouco que seja, alguma ajuda financeira para o seu país. Grupos de WhatsApp de conterrâneos se mobilizam para isso, não importando muito saber quem vai receber as doações. Estão cientes que serão famílias mais necessitadas do que eles aqui. Legítima solidariedade de quem cultua suas raízes.
ELES ESCOLHERAM VIVER AQUI
Estado que há muitas décadas acolhe imigrantes, o Rio Grande do Sul vive uma nova etapa de sua história migratória. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostrados na página anterior estampam o crescimento da presença de trabalhadores estrangeiros no mercado formal. Esse movimento, que é perceptível no cotidiano de várias cidades gaúchas, além de na força de trabalho de Canela, tem nos últimos anos a peculiaridade de mostrar que as origens dos imigrantes são bem diversas daqueles europeias que vieram para cá no século XIX.
Agora são novos fluxos vindos da América Latina, Caribe e África. Venezuelanos, haitianos, senegaleses e nigerianos, para citar quatro procedências expressivas aqui. Há também cubanos e, pela proximidade, argentinos, uruguaios e paraguaios atuando em diversos setores.
O que muda é a origem, o motivo é o de sempre: pessoas que deixam seus países, muitos em crises humanitárias, em busca de trabalho e estabilidade. Os dados mostram que esse fato não é casual, mas parte de um processo de integração ao mercado formal. Diferentemente da percepção de todos, associa imigração à informalidade, a maioria desses trabalhadores está inserida em empregos com carteira assinada, contribuindo diretamente para a economia, para o consumo e para a arrecadação.
O IMIGRANTE QUE ENXERGA LONGE
Na rua João Pessoa, em Canela, há uma pequena concentração de lojas cujas fachadas identificam a procedência de seus proprietários: a África. Nos últimos quinze anos, inseriram-se plenamente na via mais movimentada da cidade e o fato mostra o tino comercial de nigerianos e senegaleses, africanos que correspondem a uma grande fatia dos imigrantes que se tornaram canelenses e ocupam vagas no nosso mercado de trabalho. Fomos conversar com um senegalês que mostra grande empreendedorismo através da instalação de lojas voltadas ao comércio de produtos de telefonia, eletrônicos, acessórios e assistência técnica.

Foto: Claiton Saul
Imigrante que veio para mudar de vida por meio de muito trabalho, hoje empresário que gera cerca de 20 empregos, a história de Thierno Sylla no Brasil e em Canela é feita de perseverança e faro para explorar o nicho de mercado em que atua. Deixando parentes, ele chegou ao Brasil em janeiro de 2014. O ponto de entrada foi Epitáciolândia, no Acre, fronteira com a Bolívia. Como quase todos imigrantes, passou por outros lugares antes de aportar em Canela. Primeiro São Paulo, onde ficou por um mês. O paradeiro seguinte, por três anos, foi Caxias do Sul, lugar onde Thierno começou a mostrar as suas expertises. Ele não saiu da sua pátria despreparado, como acontece com muitos. Culto, esse senegalês de 43 anos já veio com formação em Economia e Contabilidade, o que lhe valeu o convite para trabalhar nas finanças da Casa Anjos Voluntários, entidade que acolhe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Também acumulava atividades, trabalhando em uma empresa de água mineral e aproveitou a estada para cursar a Faculdade Anhanguera, no Desvio Rizzo. No ano de 2016 veio a decisão de aproveitar uma oportunidade completamente diferente, cuidar de uma propriedade voltada à avicultura, na Linha Nova, em Gramado. Thierno botava os pés, então, na Região das Hortênsias. Ainda distante dos seus anseios profissionais, mas como fonte necessária de sustento, foi trabalhar na empresa Citral, em Canela, em 2017.
Uma das habilidades de Sylla sempre foi a manutenção de aparelhos celulares, atividade que começou a exercer em Canela, na sua casa, serviço que divulgava da maneira que podia. Ele inclusive tinha uma marca própria, que trouxe do Senegal, a Telephonica, com PH, grafia que honra um de seus idiomas nativos, o francês (ele também domina o inglês, o árabe e cada vez mais o português). Mas onde se estabelecer com um ponto comercial? Por alguma razão, mesmo morando aqui, achou que Nova Petrópolis seria um bom local. Passou a frequentar a cidade para observá-la, tentou alugar uma sala mas acabou desistindo. Daquela experiência, veio a inclusão do termo Platz à sua marca Telephonica, o que seria uma jogada de marketing porque essa palavrinha atrairia alguma simpatia da população de origem alemã.
O ano de 2019 marcou a abertura da pequena loja de Thierno Sylla em Canela, sonho que começava a se realizar. Junto com sua esposa, tinha uma funcionária, ex-colega na Citral e na empresa até hoje. Com lojas em Canela e Gramado, a pequena assistência técnica se tornou lojas imponentes. Resultado do arrojo, formação e determinação de um africano que sempre quer mais. Um homem que, perguntado sobre dificuldades para um imigrante daquele continente, não fala em racismo. “O que existe é o desconhecimento sobre a nossa cultura. O primeiro passo a dar é mostrar aos canelenses e brasileiros como nós somos. Se um brasileiro for se estabelecer no Senegal, no início ele também será olhado com desconfiança, isso é natural”, ele frisa, salientando que os migrantes são capazes como todo mundo. O filho de quatro anos nascido aqui faz Thierno se sentir mais ainda um cidadão do Brasil, país do qual ele elogia, entre outras coisas, a liberdade de religião. Retorna esporadicamente ao Senegal para rever parentes e, como todos que não esquecem as raízes, se mantém em contato com comunidades senegalesas para prestar ajuda quando necessário.
DA ILHA PARA A SERRA
Ao som da maraca, do tambor, do bambu, eu vou pra ilha de Cuba… diz a letra da música de Luiz Melodia, transmitindo um pouquinho da atmosfera de alegria desse país insular no Mar das Caraíbas. Mas Cuba vive um processo depreciativo que está fazendo-a perder o fascínio. Belezas naturais e arquitetônicas se mantém, mas a cada vez mais decadente qualidade de vida afeta um de seus tesouros: o povo. Hoje mais triste, hoje sem esperanças. Para muitos, a solução é a porta de saída, como aconteceu com Alexander Perez, hoje canelense.

Foto: Claiton Saul
Ex-profissional do Turismo, atividade que exercia em Caribaién, cidade costeira na província de Villa Clara. Trabalhando por doze anos nessa área, Alexander se permitia viver um pouquinho melhor com as gorjetas em dólar que recebia diariamente. Mas a situação econômica e social de Cuba, por motivos que conhecemos, foi apertando o cerco a ponto dele só aguardar a filha completar os dezoito anos, emitir o passaporte e poder acompanhar com menos burocracia seu pai e a mãe com destino a uma vida nova. Partiram em 16 março de 2024, com destino já estava escolhido, uma pequena cidade turística na região serrana do Rio Grande do Sul. Quatro dias depois, chegaram em Canela. Atitude imediata foi distribuir o currículo, acompanhado de uma importante carta de recomendação. As perspectivas de obter emprego pareciam boas, mas veio a grande enchente, tudo parou, o turismo foi atingido em cheio.
Como havia distribuído currículo em empresas de vários tipos, uma delas, da área do autosserviço, fez contato para ver a possibilidade de contratação. Surpreso, sem saber nada sobre supermercado, com menos de dois meses aqui Alexander se apresentava na filial de Canela da Rede Rissul. Iria trabalhar no açougue, o que o deixou temeroso. Passado um dia no local, voltou para casa alegre. Conheceu uma empresa que valoriza, antes da prática, a pessoa e a sua determinação em progredir. O aprendizado no manuseio de carnes viria logo, a cargo de colegas que fizeram do cubano inexperiente um bom açougueiro, que até já recusou convite para atuar em uma área parecida com aquela antiga sua. Alexander Perez não vê por enquanto uma possibilidade de visitar seus pais e irmãos em Cuba. Além do custo, como entrou com passaporte de refugiado, só será aceito na ilha quando seu documento tive caráter de permanência. Mas a felicidade plena de estar inserido na vida em Canela compensa qualquer saudade. O Brasil é a sua segunda pátria, Canela é sua segunda casa.









