JUCEMARI, Leonel e a professora Andreia Costa da Silva.
Na cerimônia de entrega da tradução da primeira parte da Constituição Federal do Brasil para a língua Kaingang, que ocorreu na sexta-feira (19) na comunidade Kaingang Kogunh Mág, em Canela – com a presença do Ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias e autoridades dos Ministérios dos Povos Indígenas e da Justiça e Segurança Pública -, um dos descendentes dessa etnia indígena que se emocionaram no seu pronunciamento foi o professor Leonel Kãka Caetano Chaves. Ele teve atuação importantíssima, com sua esposa Jucemari Minká da Silva Corrêa, também Kaingang, para que aquela entrega estivesse acontecendo na aldeia onde moram e trabalham.
Leonel e Jucemari, junto com outros três Kaingang de outras aldeias, atuaram como tradutores tradicionais da “Constituição Cidadã”, ação promovida pela AGU visando traduzir, dentro do Programa Língua Indígena Viva no Direito, a nossa lei máxima para as três línguas indígenas mais faladas no país – Kaiowá, Tikuna e Kaingang. Foi trabalho árduo, que envolveu consultas prévias a diversas comunidades Kaingang e o apoio de cinco pesquisadores. Depois de concluída a tradução do texto integral, este será novamente apresentado às tribos para validação de conteúdo. Tudo para garantir um documento constitucional com precisão jurídica e respeito aos valores dos Kaingang.
A aldeia de Canela teve a honra de sediar o evento da entrega porque a Adicuca – Associação de Difusão Cultural de Canela foi a selecionada legalmente pela AGU para aglutinar os esforços que tornaram possível esse fato tão importante para os mais de 50 mil Kaingang que habitam, principalmente, o Rio Grande do Sul.
ANCESTRALIDADE TAMBÉM É CONTEÚDO DE AULA
Na Escola Indígena Jagtyg Fykóg, estabelecida na aldeia Kogunh Mág, na Flona de Canela (nossa conhecida Floresta do Ibama), o dia a dia do casal segue a rotina dos educadores da zona rural, mas acrescido da riqueza de ensinamentos de quem trabalha, além da cultura ocidental, com a deste povo originário de Canela. Leonel Chaves, natural da aldeia Carreteiro, em Água Santa (RS) é professor estadual, mas sua primeira formação foi na área administrativa. Formado em Processos Gerenciais, atuou na Saúde em um polo de atendimento especial para indígenas em Passo Fundo e fez Especialização em Gestão Hospitalar. Depois optou pela Educação, para acompanhar de perto o trabalho desenvolvido em escolas pela sua companheira. Iniciou na faculdade de Matemática em Portão, graduação em que cursa o oitavo semestre na Unopar em Gramado.
Jucemari Corrêa, natural da Terra Indígena Ligeiro, em Charrua (RS), é formada em Pedagogia e dirige a Escola na Flona, que atende 15 alunos Kaingang na manhã e tarde, com auxílio de três professores e merendeira. Ela é formada em Pedagogia, com especialização em Educação Interdisciplinar e está cursando Mestrado em Políticas Públicas. Iniciou na Educação há vinte anos, lecionando por treze anos e depois trabalhando em gestão. Na aldeia Ventarra Alta, em Erebango (RS), ela chegou à direção de escola. Foi um longo aprendizado para a diretora inexperiente que, auxiliada pela Secretaria Estadual da Educação, batalhou para conseguir transformar a escola na aldeia, de Ensino Fundamental, também para Ensino Médio.

A DIRETORA confeccionando cesto, usado como material didático.
“Nós sempre fomos ativistas em prol das melhorias na educação e na saúde nas comunidades em que atuamos”, diz o professor Leonel. Tamanho envolvimento e conhecimento adquirido fez com que o casal fosse desafiado, pela Seduc RS, a partir para outras aldeias onde pudessem contribuir para esses avanços, principalmente em áreas de retomadas que ainda estão em fase de demarcação, como a Kogunh Mág. Foram implantar escolas indígenas em Erexim, Passo Fundo, Bento Gonçalves, Capela de Santana, Campo Bom, estão agora em Canela (a unidade passou a funcionar em abril de 2024, com decreto assinado em dezemvro) e começam a auxiliar no processo de criação de uma escola na aldeia Kurity, do povo Guarani, também em Canela.
A interculturalidade do ensino é característica da escola doa Kaingang. Crianças e adolescentes, enquanto aprimoram sua língua própria, estudam o português e as disciplinas clássicas, mas contextualizadas para o seu dia a dia e sua cultura. Exemplo prático: na matemática, estudar os tópicos área / volume / perímetro analisando um cesto típico do artesanato deles. Bons profissionais serão no futuro, sem jamais esquecer quem foram seus antepassados.



Acima: Kaingangs “a caráter” na entrega da Constituição na língua indígena; professores e alguns alunos do turno da manhã; Leonel Chaves lecionando.
IMPORTÂNCIA CERTIFICADA

O Clube do Livro de Canela, que há muitos anos congrega apreciadores da boa escrita na região, teve seu valor reconhecido oficialmente ao receber o certificado como Ponto de Cultura, integrante da Política Nacional Cultura Viva.
Parabéns aos integrantes, que vão comemorar o fato promovendo mais um encontro com a presença online da escritora e jornalista Julia Dantas. Habitué dos debates do CLC, Julia retorna para discussão de sua obra A mulher de dois esqueletos.
O encontro (na forna híbrida) acontece no dia 2 de outubro, às 19h30. Presencialmente no Araçá Bistrô (Rua Visconde de Mauá, 443 – Canela) ou online via Google Meet (solicitar link pelo @clubedolivrodecanela ou
54 99192.6187. Inscrição: R$ 30,00 (independente do formato).
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