Há notícias que não chegam em palavras, mas em ausências. Acontecimentos que não se explicam pelo simples fato de serem cancelados, mas pela forma como se escolhe apenas “substituir o compromisso”. Em poucos dias, dois eventos foram modificados do calendário “oficial” ou empurrados para datas indefinidas e remanejadas, sem aviso prévio, sem diálogo, sem uma palavra que honrasse ao menos a expectativa criada. Estou falando do Festival Internacional de Teatro de Bonecos e da Feira do Livro Josué Guimarães. Um silêncio discreto, quase burocrático, tomou o lugar de anúncios que mereciam, ao menos, a dignidade de uma explicação, algumas justificativas até chegaram muito bem elaboradas, mas tardiamente. Boas narrativas protocolares.
Não se trata apenas da suspensão de atividades culturais, trata-se da persistência de uma lógica antiga, na qual a cultura é vista como acessório, nunca como essência. Quando falta coragem para sustentar a palavra empenhada, é nela que se experimenta o esquecimento. Não é de hoje que a classe cultural experimenta esse descaso em Canela. Quando se trata de cortar, adiar ou abandonar, a cultura é sempre a primeira vítima. É como se fosse um luxo dispensável, e não o tecido vivo que costura identidade, memória e pertencimento. É fácil justificar com palavras bonitas: falta de recursos, dificuldades externas, imprevistos. Mas no fundo, o que vemos é a inversão da lógica, o argumento não é construído para explicar, mas para encobrir.
É curioso notar como a retórica, herança dos tempos gregos, sobreviveu intacta em sua forma, mas esvaziada em sua substância. Falar bem tornou-se um fim em si mesmo, e não um meio de iluminar a verdade. Argumentos se moldam ao interesse do momento, não ao compromisso com a realidade. O discurso já não nasce do desejo de dialogar, mas da necessidade de persuadir. E a palavra, que deveria aproximar, transforma-se em muralha. Esse jogo de inversões, no qual a ausência é apresentada como conquista e o adiamento como avanço, não engana os olhos atentos. Pode até silenciar momentaneamente, mas não apaga a percepção de que falta algo essencial: coerência, compromisso, respeito. Porque a cultura não é ornamento, nem vitrine; é raiz, identidade, voz coletiva. Negá-la ou negligenciá-la não é apenas adiar um espetáculo, é comprometer a memória de uma comunidade inteira.
Quanto desgaste coletivo! Porque afinal, a grande questão não é sobre datas remarcadas ou programações adiadas, mas sobre o que isso simboliza: a distância entre aquilo que se promete e aquilo que se cumpre. Entre a palavra que se anuncia e o gesto que se concretiza. Obviamente sabemos que uma Lei Rouanet não se capta em apenas dois meses antes do evento, compreendemos também que licitações, prazos e burocracias atrasam , trabalhamos com isso, mas o que nos é inadmissível é a forma como as decisões chegam, sempre de forma tardia, desrespeitando o organograma estabelecido e comprometendo o trabalho de toda a produção envolvida.









