Entre a poeira da cancha, o som da gaita, o cheiro da comida campeira e as conversas que atravessam gerações, o Rodeio Crioulo Nacional de Canela chega à sua 41ª edição confirmando que tradição não é repetição automática do passado, mas um exercício permanente de continuidade. De 8 de janeiro (quinta-feira) a 11 (domingo), o Parque de Rodeios Saiqui volta a ser, nestes dias, um território onde o tempo assume outro ritmo. Em meio às provas de laço, à gineteada e às atividades artísticas, um aspecto chama atenção: a presença constante de crianças e jovens.
Guris e gurias participam das categorias mirim e juvenil de declamação, música e interpretação vocal, mas também aprendem fora do palco, no cotidiano do parque, observando e convivendo. Esse protagonismo juvenil aponta para o futuro do tradicionalismo.
Longe de uma herança rígida, a cultura gaúcha aparece como escolha consciente, transmitida pelo exemplo e pela experiência. O rodeio mostra que tradição só permanece quando encontra espaço para ser vivida com naturalidade pelas novas gerações. As provas campeiras seguem como eixo do evento, com competições de laço e gineteada movimentando a Arena Polaco Feijó.
No domingo (11), a programação artística amplia o diálogo com o público, reunindo apresentações de gaita piano e botão, intérprete vocal e declamação, em diferentes faixas etárias. Nestes eventos o talento mirim ganha destaque, sendo uma evidência de que a tradição segue em frente, de que a cultura gaúcha e festividades gaudérias como os rodeios permanecerão efervescentes e com novos representantes que seguirão mantendo acesa a chama da tradição.
CAMINHO SAUDÁVEL

A pequena Maria Eduarda Favero Soares é um dos exemplos de que o futuro do tradicionalismo está em boas mãos. Aos 10 anos de idade, ela vive com intensidade a cultura gaúcha. Eleita a 1º Prenda Mirim do CTG Querência, cultiva as raízes do Rio Grande do Sul desde os oito anos de idade. Maria Eduarda prepara-se para a etapa regional que irá definir em junho a corte tradicionalista da 27ª Região Tradicionalista. Desde muito cedo ela acompanha os pais, Márcio Soares e Patrícia Favero, em eventos tradicionalistas. Maria Eduarda pretende seguir admirando e vivenciando a cultura gaúcha com muito orgulho. “Gosto muito de dançar e declamar”, conta ela. “É bom que ela siga o caminho do tradicionalismo, é muito saudável”, opina a mãe, Patrícia.
1º Piá

Em breve Canela terá um novo laçador profissional. O 1º Piá do CTG Querência, Augusto de Macedo Gottert, 9 anos, vem treinando na modalidade vaca parada para se tornar um grande campeão no Tiro de Laço, uma das provas mais tradicionais de rodeios. Para se tornar o 1º Piá do Querência, Gottert destacou-se em atividades como encilha de cavalete, laço na vaca parada, dança tradicional e artística, entre outras. A sua paixão pelo tradicionalismo, vem de berço. Quando questionado sobre sua referência na cultura gaúcha, o jovem é sucinto: “meu pai e minha mãe”. Silvana e Rigoberto são dançarinos do CTG Querência. Gottert costuma acompanhá-los em eventos que cultuam a tradição gaúcha. “Gosto de danças e laçar”, afirma Gottert. “Eu acredito que ele seguirá no tradicionalismo. Vem de geração em geração. “Meu pai, meu marido e eu gostamos muito de tradicionalismo”, ressalta Silvana.
De pai para filha

O tradicionalismo em sua essência é uma herança familiar. Como diz o ditado popular, “está no sangue”. Mesmo sofrendo um traumatismo cranioencefálico (TCE), aos seis anos de idade, quando estava laçando montada em sua égua Morotcha, a pequena Estela Michaelsen Renosto, hoje com sete, não deixou de viver as emoções e alegrias da cultura gaúcha. Ela está sempre presente na lida campeira porque acompanha os pais que participam com frequência de rodeios por todo o Estado. “Optamos por ela voltar a laçar somente quando tiver dez anos”, revela a mãe de Estela, Paula Michaelsen. “Deus me trouxe de volta, quero continuar laçando e dançando”, afirma a pequena prenda.
Incentivada principalmente pelo pai, Diego Renosto, Estela é laçadora Mirim e prenda da Invernada Mirim do CTG Querência. Convive no ambiente tradicionalista desde muito pequena porque acompanha o pai em quase todas as atividades campeiras. “Adoro pra chuchu”, resume ela referindo-se as provas artísticas e campeiras.
REFERÊNCIAS FAMILIARES

Aos 10 anos de idade, Leonel Ferreira de Lima já sabe que quer seguir os passos do pai e do avô no tradicionalismo. Laçador Mirim do CTG Querência, ele já acumula seis troféus nas modalidades Pai e Filho e Piá. “Meu pai aprendeu a armada com meu avô e eu aprendi com meu pai. Meu pai sempre me motivou a laçar. Eu era pequeno e ele me colocava na sua garupa”, afirma ele. Leonel cultiva as tradições gaúchas desde muito cedo em sua vida , quando pela primeira vez teve contato com um laço. “Quando peguei um laço com dois anos, já comecei a laçar”, lembra. No Rodeio Crioulo Nacional de Canela, ele vai competir em duas taças e no Laço de Dupla. O jovem fala com muito carinho do seu cavalo, Sargento Araçá. “Ele é muito importante para mim. É o primeiro cavalo que ganhei do meu pai”. “Eu gosto muito do chimarrão, do churrasco e dança”, destaca ele referindo-se ao que mais aprecia na cultura gaúcha.
Pé no estribo. Começou o rodeio

Iniciado na quinta-feira (8) com programação até domingo (11), o Rodeio Crioulo Nacional de Canela se consolidou como um dos eventos mais representativos do calendário tradicionalista do Rio Grande do Sul. Não apenas pelo conjunto de provas campeiras, bailes e apresentações artísticas, mas por reunir comunidade, visitantes e famílias inteiras em torno de valores que seguem fazendo sentido.
Realizado pelo Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Querência, o rodeio é resultado de um esforço coletivo que se renova a cada edição. O acampamento, instalado ainda no início da semana, cria uma pequena cidade provisória, onde o convívio é parte central da experiência. Ali, tradição se aprende menos por explicação e mais por observação, no jeito de falar, no cuidado com os animais, na forma de receber quem chega.
A Prefeitura de Canela participa como apoiadora institucional, por meio da Secretaria de Turismo e Cultura, e mantém uma Central de Informações Turísticas no parque durante o evento. A iniciativa reforça o caráter acolhedor do rodeio, que também funciona como porta de entrada para visitantes que, muitas vezes, têm ali seu primeiro contato com a cultura gaúcha. A Rua do Comércio e a praça de alimentação completam o cenário, com artesanato, pilchas e gastronomia típica. São elementos que ajudam a traduzir a cultura gaúcha de forma sensorial, acessível até para quem não domina seus códigos.
Reconhecimento institucional

A abertura oficial acontece nesta sexta-feira (9) às 19h, na Arena Polaco Feijó, com a presença do prefeito Gilberto Cezar. O gesto simboliza o reconhecimento de que o rodeio não é apenas uma celebração pontual, mas parte ativa da identidade cultural de Canela, construída e mantida ao longo de mais de quatro décadas.
Segundo o patrão do CTG Querência, Luiz Kerschner, cada competidor, expositor, visitante ou família acampada contribui para dar vida ao evento. É essa lógica compartilhada que explica a longevidade do rodeio: ele não pertence a um grupo fechado, mas a uma comunidade inteira.
Tradição como movimento

À noite, os bailes reforçam o caráter de encontro, com apresentações de grupos como Tchê Barbaridade e Tchê Guri. A música funciona como linguagem comum, capaz de aproximar quem já carrega a tradição no corpo e quem chega apenas para observar.
O 41º Rodeio Crioulo Nacional de Canela reafirma que tradição não se preserva isolando, mas compartilhando. Ela se fortalece quando se adapta ao tempo presente e quando encontra, nos mais jovens, não apenas herdeiros, mas protagonistas. Assim, a chama segue acesa — não como lembrança do que foi, mas como escolha permanente de futuro.









