Já falamos exaustivamente sobre o quanto a alta dos juros influencia nossas vidas — e nossos investimentos. Juros altos nivelam por baixo a sofisticação da carteira. É como o preparo físico no futebol: hoje, não adianta só ter talento. Antigamente, tínhamos um Romário, que podia até virar a noite na balada na véspera de um jogo decisivo — mas no dia seguinte, resolvia com dois toques na bola. Hoje, o futebol virou Botafogo x PSG jogando de igual para igual. O talento ainda pode brilhar, claro, mas o preparo físico é o que mais pesa no jogo atualmente.
Nos investimentos, é a mesma coisa. Juros altos desanimam o risco e afetam desde ações e fundos internacionais até o velho e bom investimento imobiliário. Aliás, sou frequentemente criticado por não “defender” os imóveis nesta coluna.
Muitos leitores e clientes me perguntam se é hora de arriscar, de voltar para a bolsa — ou de comprar imóveis. A resposta é: depende. Hoje, a renda fixa entrega uma rentabilidade líquida que, na prática, supera a valorização esperada de muitos imóveis. E com os juros altos, o mercado imobiliário segue morno, quase frio — afinal, boa parte dos compradores ainda está adiando o financiamento.
Mas aí vem a reviravolta: quem realmente ganha dinheiro investindo costuma comprar no momento ruim. Quando a Selic cair e o mercado esquentar, os melhores negócios já terão sumido. Como dizia Warren Buffett: “Compre ao som dos canhões e venda ao som dos violinos”.
Não mudei de opinião. Ainda acho que tirar o dinheiro de uma aplicação segura pagando 1,25% ao mês para comprar um imóvel só faz sentido se for uma pechincha. Mas existe uma prática muito comum aqui na Serra que considero muito interessante: a compra do imóvel na planta. Nesse modelo, paga-se de 10% a 30% de entrada e o saldo é financiado direto com a construtora (corrigido pelo INCC) até a entrega das chaves. Cabe lembrar dos riscos envolvidos, saber a saúde financeira da construtora e fazer negócios com imobiliárias sérias minimizam muito o risco deste tipo de investimento.
Para quem tem o valor total do imóvel investido, pode ser uma boa forma de usar o rendimento da aplicação para “pagar” o novo investimento, já que o INCC acumula 7,19% nos últimos 12 meses — contra ao menos 15% de rendimento anual do CDI atualmente. E para quem não tem essa reserva, as prestações acabam funcionando como uma espécie de poupança forçada para a aquisição de um bem concreto.
Agora, a pergunta que não quer calar: será que os imóveis continuarão sendo um bom investimento por aqui?
Não sou especialista em mercado imobiliário. Mas, caminhando por Canela e Gramado, é impossível não notar o número de prédios em construção — e se perguntar se há mesmo tanta gente assim para ocupar tudo isso. Meus amigos e clientes construtores garantem que sim, e citam estudos de déficit habitacional que apontam a viabilidade dos empreendimentos. Confio neles, mas também me pergunto se teremos estrutura — de mobilidade, saneamento e serviços — para acompanhar esse crescimento. Espero que sim. Assim como os juros, o setor imobiliário na região impacta diretamente a vida de todos — moradores e investidores.









