Dizem que o ser humano se adapta a tudo. Darwin já defendia que sobrevive quem melhor se adapta, e talvez esteja aí o erro da espécie, o começo do fim. Acredito que confundimos “adaptação” com “rendição”. Tornou-se arte se ajustar a um mundo torto e chamar isso de evolução. Aprendemos a dizer “é assim mesmo” como quem reza um mantra. Mas não é. Nada disso deveria ser.
Nos acostumamos com as chuvas e ciclones que engolem cidades inteiras, com famílias que veem suas casas sumirem como recentemente ocorreu no Paraná. Na TV, chamam de tragédia. Mas tragédia é o que não se pode evitar e essa, a gente poderia se cuidasse melhor do meio ambiente. Só que o descaso também virou paisagem. E seguimos o dia, porque o trabalho não espera, porque “não dá pra parar”. Mas devia dar. Devia nos parar por dentro.
Vivemos com o contratante que “paga depois”, com o produtor que acha que arte se faz de amor e aplauso, com o “jeitinho brasileiro” que sempre escorrega pro abuso, das pessoas que pisam nas outras para ocuparem cargos de “poder” e ostentarem sua Mercedes- Benz e roupa de marca (pagas a prestação ou às custas de golpes às vezes aplicados na própria família). E vamos aceitando, mas não devíamos, por cansaço, por medo, por necessidade. Até que o abuso vira regra, e a dignidade, luxo. Aos poucos, o absurdo se instala com tanto jeitinho que a gente o convida para um café. O corpo segue, mas o espanto vai embora. E sem espanto, a alma adoece silenciosa, adaptada, eficiente.
Darwin devia voltar pra ver o que fizemos da teoria dele. A sua Seleção Natural agora escolhe quem consegue fingir melhor, quem se adapta ao caos, ao descaso, ao salário que não chega, à fila que nunca anda, quem engole indignação com gosto de rivotril. Mas talvez a evolução, hoje, esteja justamente em desaprender a se adaptar. Em desobedecer à lógica do “sempre foi assim”, em não aceitar que o absurdo ganhe crachá de normalidade. Porque o ser humano que se adapta demais termina cabendo em qualquer forma, e quem cabe em qualquer forma já perdeu o contorno.
Querido Charles Darwin, seus avanços sobre a evolução nas ciências transformaram o mundo, porém ouso arriscar que a próxima etapa da nossa evolução enquanto espécie (se é que ainda podemos ser taxados assim), não seja fisiológica, mas ética. Não será a do corpo que se ajusta ao ambiente, mas a da consciência que recusa a se moldar ao inaceitável.









