Canela caminha para assumir, de forma definitiva, o Parque do Palácio. Na sexta-feira passada (11), o Governo do Estado protocolou na Assembleia Legislativa o Projeto de Lei nº 272/2025, que propõe a doação do espaço ao município. A matéria revoga o gravame que desde 2010 obrigava a construção de um centro de convenções no local. O novo texto legal elimina esse entrave e estabelece um novo horizonte: a preservação do local como parque urbano, com uso público e vocação ambiental.
A área em questão soma aproximadamente nove hectares e abriga vegetação nativa remanescente da mata de Araucária e dos campos de altitude. Está localizada no coração da cidade, cercada por bairros residenciais e vias de acesso importantes, o que a torna particularmente valiosa do ponto de vista urbano. Em um cenário de adensamento crescente e pressão imobiliária contínua, manter esse espaço como área verde aberta representa não apenas uma conquista ambiental, mas uma decisão estratégica para a qualidade de vida da cidade. O terreno integra o conjunto do Palácio das Hortênsias, construção erguida em 1954 para servir como residência de veraneio dos governadores do Rio Grande do Sul.
À época, a escolha por Canela não foi casual, o clima ameno, a paisagem serrana e o perfil discreto do município justificaram a instalação do imóvel, que se tornou também um ponto simbólico da presença institucional do Estado na Região das Hortênsias.
Projetado com linhas arquitetônicas sóbrias e cercado por jardins e mata nativa, o palácio manteve uso oficial até meados dos anos 2000. Em determinadas temporadas, chegou a ser habitado por governadores e suas famílias, além de receber eventos reservados da administração estadual. Durante décadas, a área ao redor do palácio permaneceu relativamente intocada — por inércia administrativa, mas também por respeito ao seu valor paisagístico.

Parque do Palácio tem 9,1 hectares de vegetação
Foto: Izaque Santos
UM IMPASSE, UMA VIRADA
A doação do imóvel ao município foi formalizada em 2010, por meio da Lei Estadual nº 13.506, que previa como contrapartida a construção de um centro de convenções até janeiro de 2025. Caso a obra não fosse concluída, a área retornaria ao domínio do Estado. A exigência, no entanto, mostrou-se impraticável. O projeto não avançou, não captou recursos e não encontrou respaldo popular. Nos últimos anos, a mobilização da sociedade civil foi decisiva para reverter o destino da área. Entidades como o grupo Amigos do Parque do Palácio e o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) organizaram manifestações, audiências públicas e estudos ambientais. A principal crítica recaía sobre os impactos de uma construção de grande porte em um ecossistema urbano frágil, que abriga nascentes, fauna silvestre e vegetação de regeneração lenta. Em agosto de 2023, a Câmara de Vereadores de Canela arquivou, por unanimidade, uma proposta de permuta envolvendo a área. O gesto político refletiu o consenso popular: a comunidade não aceitava trocar um pedaço de natureza por concreto.
O NOVO PROJETO DE LEI: DA EXIGÊNCIA À PRESERVAÇÃO

Prefeito Gilberto Cezar liderou as tratativas para a doação da área para Canela
Foto: André Fernandes
O PL 272/2025 nasce desse contexto. Ele revoga formalmente o gravame da lei anterior e transfere a posse plena da área ao município. Em troca, estabelece um prazo de 15 anos para que a Prefeitura implemente uma série de melhorias compatíveis com o uso ambiental: revitalização de trilhas, criação de mirantes, ciclovia, parque infantil, espaço pet, biblioteca interativa e centro de interpretação ambiental. Todas as intervenções deverão respeitar a integridade do terreno, sem construções pesadas ou impacto ecológico relevante. O prefeito Gilberto Cezar (PSDB), que liderou as tratativas junto à Casa Civil do Estado, classificou o projeto como “um gesto de reparação histórica e uma vitória da cidadania ambiental”. Ele afirma que o parque será incluído no orçamento municipal e que poderá contar com estruturas de apoio – como cafés, quiosques e eventos culturais – desde que respeitem a lógica do uso coletivo e sustentável.
MAIS QUE PAISAGEM, UM SERVIÇO AMBIENTAL
A preservação do Parque do Palácio como área verde urbana não é apenas um ganho estético. Trata-se de uma função ambiental concreta. Em tempos de ilhas de calor, enchentes urbanas e fragmentação ecológica, manter nove hectares de solo permeável e arborizado dentro da malha urbana oferece diversos benefícios diretos: regulação da temperatura local, retenção de águas pluviais, aumento da biodiversidade e oferta de sombra e ar puro para a população. Além disso, o espaço pode funcionar como laboratório vivo para atividades de educação ambiental, cultura ao ar livre e bem-estar comunitário. A vocação natural do parque — com topografia suave, trilhas já formadas e flora característica da região — favorece a adoção de um modelo de parque “aberto”, sem grades, com livre circulação de pessoas e integração ao cotidiano urbano. “Estivemos em vias de perder o direito de uso do Parque do Palácio, pois o município ultrapassou o prazo anterior para construir no local um Centro de Eventos. Depois de um trabalho de interlocução, antes mesmo de assumirmos o governo, conseguimos mais tempo para apresentar uma nova proposta, que é esta de transformar o Parque do Palácio em um espaço público e de uso coletivo. Agora cabe aos nossos deputados darem o aval definitivo”, destaca o prefeito, Gilberto Cezar.
UMA VERDADEIRA RELÍQUIA

Para o biólogo Vitor Hugo Travi, quando Canela assumir definitivamente, a posse do Parque do Palácio, a cidade será beneficiada de forma ambiental. “É uma área ainda natural, com os dois ecossistemas originais ainda presentes, como campos de altitude e mata de araucária, praticamente no Centro da cidade. Um patrimônio ambiental imensurável para ser desfrutado pela população numa cidade cada vez mais sufocada por prédios e ruas lotadas de carros e ônibus”, avalia Travi. “Um local de fácil acesso para as famílias passarem momentos de pura harmonia e sintonia com o ambiente natural restante, uma vez que a urbanização crescente substituiu a maior parte do grande sistema natural que havia, a partir do início da colonização. Trata-se de uma verdadeira relíquia, e assim deve ser tratado”, opina ele.
PARQUE VAI SEGUIR COMO PARQUE

“Penso que é um momento de esperança, onde temos a promessa de que o Parque vai seguir como Parque, como área natural, de uso comunitário, para passeio e contemplação, e com atividades culturais, esportivas e de educação ambiental”, comenta o produtor cultural Fernando Gomes. Ele destaca que preocupado na preservação de um espaço importante para o bem-viver da comunidade e visitantes, fica feliz em acreditar que, a partir de agora, não há o temor de perder o Parque do Palácio para a iniciativa privada e a especulação imobiliária “Neste dia da trágica aprovação do PL da Devastação no Congresso Nacional, sinto que aqui devemos fazer nossa parte e pensarmos, juntos, em como manter a beleza natural de Canela. Eu sugiro que o poder público apresente detalhadamente, em Audiência Pública, o projeto sugerido pelos Amigos do Parque. E que se crie uma comissão/grupo de trabalho para dar início à implantação dos equipamentos culturais, esportivos e de educação ambiental propostos, todos eles exequíveis.”, salienta Gomes.
FUNÇÃO AMBIENTAL ESTRATÉGICA

Em razão da licença do biólogo Carlos Frozi, titular da Secretaria de Meio ambiente e Urbanismo, o Nova Época conversou com o adjunto da pasta, Esthalin Moreira. Segundo ele, o Parque do Palácio representa uma das áreas mais relevantes para a conservação ambiental no perímetro urbano de Canela. Reconhecido como o último remanescente significativo de vegetação típica dos Campos de Cima da Serra em área urbana, o parque é um refúgio que contribui de forma expressiva para a manutenção da biodiversidade local e o bem-estar social. “Trata-se de um parque linear urbano com função ambiental estratégica. Sua cobertura vegetal nativa desempenha papel fundamental na regulação do microclima, na captação e infiltração das águas da chuva e na contenção de processos erosivos. A presença de solos permeáveis e vegetação característica atua diretamente na redução dos riscos de alagamentos em áreas adjacentes, contribuindo para a resiliência da cidade frente aos efeitos das mudanças climáticas”, comenta Moreira. O secretário adjunto ressalta que além dos benefícios ecológicos, o Parque do Palácio é um espaço de contemplação da natureza e bem-estar da população, promovendo o convívio social, a educação ambiental e o turismo sustentável. “A convivência harmônica entre áreas verdes e a malha urbana representa um dos maiores benefícios para cidades em expansão, e Canela dá um passo importante ao preservar e valorizar este território”, conclui Moreira.
UM PARQUE BONITO E ACOLHEDOR

A voluntária do grupo Amigos do Parque do Palácio Isabel Scheid destaca que, como ativista ambiental, nunca deixou de acreditar na negociação política, embasada pelo apoio da comunidade, como única forma de reverter o gravame que incidia sobre o Parque.
“Sempre tivemos muitas razões para lutar pelo Parque do Palácio. O Parque é um marco da paisagem serrana, com suas características dos Campos de Altitude, formação única em área urbana central na nossa região. O Parque, porém, é bem mais que sua paisagem. A ciência demonstra a importância das áreas verdes para a vida nas cidades. Já não temos mais áreas verdes no centro de Canela. O Parque do Palácio deve atender o lazer, e especialmente o bem estar, dos moradores dos bairros naquele quadrante da cidade, e de toda a comunidade canelense,”comenta ela.
Segundo Isabel, deve-se reconhecer, também, o papel do Parque do Palácio na mitigação do impacto das mudanças climáticas nas cidades. Seu solo permeável é fundamental para a absorção do excesso de chuvas que são cada vez mais frequentes. Esse é um dos mais valiosos serviços ambientais que o Parque do Palácio presta aos canelenses. “Acredito que, com a posse definitiva da área, com projeto discutido entre todos, e com o apoio da comunidade, o governo municipal terá as condições necessárias para o planejamento e execução das melhorias necessárias no Parque. Acredito, sim, que o Parque é nosso e logo voltará a ser o Parque estruturado, bonito e acolhedor que Canela merece”, afirma ela.









