NA PONTA DA LÍNGUA, A LATINIDADE.
No cenário da arte bonequeira de Canela e Gramado, o Bonecos da Montanha é o grupo mais longevo se levarmos em consideração o envolvimento de mais de trinta anos de um de seus fundadores, Nelson Haas. O grupo atual foi criado em 2011, mas Nelson já tinha o seu Só Rindo em 1992. Vindo de Caxias do Sul, esse artista de longos barba e talento ajudou a escrever a história de sucesso do Festival de Bonecos de Canela não só pela qualidade do seu trabalho mas pela disposição em ajudar com ideias, experiência e simpatia. Se falar em bonecos, todo mundo aqui conhece o Nelson e um de seus personagens mais antigos, o mestre de cerimônias Carlão.

Nelson Haas e Beth Bado com Carlão
As páginas desse enredo mudam com a chegada da companheira de Nelson, na vida e na arte. Beth Bado, depois de dar uma guinada que incluiu abandonar carreira no marketing de grande empresa para mergulhar no mundo admirável da criação e manipulação de títeres, significou a verdadeira maioridade da companhia do casal. O Atelier dos Bonequeiros, espaço criativo criado em 2004 para laboratórios, oficinas e confecção, abriu mais uma porta e surgiu, em 2011, o Bonecos da Montanha. O nome é inspirado na geografia do lugar, a Serra, e mais especificamente os altos do Carasal, em Gramado, onde está a propriedade deles. Mas o nome lembra também que o sucesso é uma escalada, cada espetáculo ou ação educativa de Beth e Nelson com suas técnicas variadas, como luva, vara, marionetes e bonecos-gigantes, é mais um passo.

Tendo se apresentado em diversos países, o Bonecos da Montanha regressou recentemente da província de Misiones, na Argentina, onde representou o Brasil no 24º Festival Latinoamericano Tatá Piriri. O grupo participou com o espetáculo Histórias do Carlão e um especial, a obra adulta AmericanaMente. Com poucas, mas elogiadas montagens desde que foi criada em 2019, AmericanaMente é uma costura de textos de Giovanni Pappinni, José de Oliveira Luiz, Pepito Ron e Beth Bado, onde ela, protagonista, demonstra versatilidade e carga dramática que comove plateias. Em uma reflexão feminina sobre o modo de ser latinoamericano, a atriz apresenta uma personagem que vive nas ruas de “qualquer cidade americana”, lembranças e constatações.

Efigênia Rolim: brilho no papel de bala e na arte
De ficha técnica impecável, Nelson Hass assumiu a direção, som e luz de AmericanaMente após Julio Saraiva (in memoriam) e o figurino é capítulo a parte, baseado na icônica Efigênia Rolim, artista que transforma a sucata em arte e histórias. A personagem de Beth Bado brilha à luz do papel de bala, a mesma que Efigênia certa vez achou que era de uma joia achada no chão. Ela juntou e pensou “você, é um mísero como eu. Usado, amassado e jogado fora”. Grandes histórias de vida surgem assim e cabe aos artistas contá-las. Obra aberta, sempre burilada, AmericanaMente poderá acontecer por aqui ainda neste ano.
DE KOMBI NO MUNDO – XXV
Casacor é nome famoso. Estacionado no Parque do Lago esta semana, vi um veículo e imaginei Kombicor. Boa síntese, diria, para essa Kombi home que tem levado, Brasil afora, o casal Flávio e Flaviane Martins, de Curitiba (PR). Na verdade, eles chamam a Kombi 2011 de Colorida. Modo de vida assumido após a perda do filho – muito criança, acometido por doença rara – Flávio deixou de ser assistente administrativo, Flaviane não precisou deixar de ser designer, artesã e costureira, pois trabalha “na casa” pintada pela artista plástica Luci Gnoatto.

O lado bonito da experiência dos curitibanos, no entanto, não está só na perua da VW ou nas paisagens que eles já viram nos 16 estados brasileiros que percorreram. Está na atitude deles, ao interagirem, quando possível, nas comunidades onde passam e ficam por alguns dias. Flaviane fala sobre suas obras infantis, faz contações de histórias, oferece belos produtos artesanais. Também jornalista, Flávio gosta de palestrar sobre o livro Colorido pelo Sol, focado no filho Pietro, o divisor de águas na vida deles. A propósito: eles estarão neste sábado (21), pela manhã, na Feirinha Ecológica e Cultural ao lado do Centro de Feiras. Daqui vão ao Uruguai.
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