Quem me conhece sabe que tenho uma relação difícil com presentes. Sinto um enorme peso ao escolher o que dar, mesmo para pessoas muito próximas e, frequentemente, me constranjo com os que recebo. Entre minhas demonstrações de afeto, presentear definitivamente é o meu ponto fraco.
Nos finais de ano, esse desafio por vezes se torna um verdadeiro martírio. O culpado, sem falta, é ele: o Amigo Secreto.
Entra ano, sai ano, e lá por dezembro ele começa a me espreitar. Quando eu era criança, a lembrança era o evento em família. Tínhamos o hábito de nos reunir todos os anos na casa de meus avós paternos e, lá, era certo que o “maldito” iria ocorrer. Felizmente, minha mãe cuidava dos presentes, mas era sempre aquela confusão danada com o tal papelzinho. Quase sempre você presenteava com algo que gostaria de ganhar e acabava recebendo algo que odiaria ter; frustração na certa!
Mas o pior era o suplício de descrever a pessoa a ser descoberta pela família. Conforme os nomes iam sendo revelados e minha vez se aproximava, a agonia virava desespero. “Vou dizer o quê? Nem conheço a pessoa direito! Será que ela vai se ofender? Será que vão descobrir rápido?”. Enfim, era um constrangimento tanto para quem revelava quanto para quem era revelado.
Conforme me tornei adulto, a tradição seguiu me perseguindo. Era com amigos, em eventos de familiares distantes ou no ambiente de trabalho. Cada vez que surgia o “dito cujo”, eu começava a suar frio. Aliás, o ápice da chatice surgiu quando inventaram o tal Amigo Secreto de Roubar! Para quem não conhece: você compra um presente aleatório (sem saber quem o receberá) e todos saem revelando e “roubando” os itens uns dos outros. Agora, além do esforço de comprar e do discurso de revelação, você ainda corre o risco de ser humilhado no final, vendo todos rejeitarem seu presente, olhando com desdém aquela camiseta branca ou o pijaminha.
Para completar a desgraça, este ano a Havaianas resolveu detonar de vez com a brincadeira. Aquele chinelo que era a “compra segura” — o presente unissex que todo mundo usa e gosta de ganhar — virou motivo de briga política! Agora corre-se o risco de o leitor comprar um chinelinho e a noite de Natal terminar em “treta” e acusações de todos os tipos, graças a uma infeliz propaganda do calçado mais querido do Brasil.
Um Feliz Natal a todos e, de preferência, sem Amigo Secreto!









